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	<title>O Conselheiro Acácio &#187; Clarice Lispector</title>
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	<description>Hipérboles hiperboreanas e prolixas pra acalentar bovinos</description>
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		<title>O Conselheiro Acácio &#187; Clarice Lispector</title>
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		<title>Viagem a Petrópolis (Clarice Lispector)</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 18:01:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conselheiro Acácio</dc:creator>
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Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&blog=2378334&post=1152&subd=conselheiroacacio&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-1153" title="petropolis2" src="http://conselheiroacacio.files.wordpress.com/2008/12/petropolis2.jpg?w=450&#038;h=301" alt="petropolis2" width="450" height="301" /></p>
<p style="text-align:justify;">Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação:</p>
<p style="text-align:justify;">- Mocinha.</p>
<p style="text-align:justify;">As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava:</p>
<p style="text-align:justify;">- Nome, nome mesmo, é Margarida.</p>
<p style="text-align:justify;">O corpo era pequeno, escuro, embora ela tivesse sido alta e clara. Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco. Quando lhe davam alguma esmola davam-lhe pouca, pois ela era pequena e realmente não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-na estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não agradecia muito: sorria e balançava a cabeça.</p>
<p style="text-align:justify;">Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo. A família achava graça em Mocinha mas esquecia-se dela a maior parte do tempo. É que também se tratava de uma velha misteriosa . Levantava-se de madrugada, arrumava sua cama de anão e disparava lépida como se a casa estivesse pegando fogo. Ninguém sabia por onde andava. Um dia uma das moças da casa perguntou-lhe o que andava fazendo. Respondeu com um sorriso gentil:</p>
<p style="text-align:justify;">- Passeando.</p>
<p style="text-align:justify;">Acharam graça que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear. Mas era verdade. Mocinha nascera no Maranhão, onde sempre vivera. Viera para o Rio não há muito, com uma senhora muito boa que pretendia interná-la num asilo, mas depois não pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar no Rio. E a velha passeava para ficar conhecendo a cidade. Bastava aliás uma pessoa sentar-se num banco de uma praça e já via o Rio de Janeiro.</p>
<p style="text-align:justify;">Sua vida corria assim sem atropelos, quando a família da casa de Botafogo um dia surpreendeu-se de tê-la em casa há tanto tempo, e achou que assim também era demais. De algum modo tinham razão. Todos lá eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: &#8220;olha!&#8221;. Sobretudo uma das moças da casa sentia um mal-estar irritado, a velha enervava-a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moça compreendesse tratar-se de um ricto inofensivo. Talvez por falta de tempo, ninguém falou no assunto. Mas logo que alguém cogitou de mandá-la morar em Petrópolis, na casa da cunhada alemã, houve uma adesão mais animada do que uma velha poderia provocar.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando, pois, o filho da casa foi com a namorada e as duas irmãs passar um fim-de-semana em Petrópolis, levou a velha no carro.</p>
<p style="text-align:justify;">Por que Mocinha não dormiu na noite anterior? À idéia de uma viagem, no corpo endurecido o coração se desenferrujava todo seco e descompassado, como se ela tivesse engolido uma pílula grande sem água. Em certos momentos nem podia respirar. Passou a noite falando, às vezes alto. A excitação do passeio prometido e a mudança de vida, de repente aclaravam-lhe algumas idéias. Lembrou-se de coisas que dias antes juraria nunca terem existido. A começar pelo filho atropelado, morto debaixo de um bonde no Maranhão – se ele tivesse vivido no tráfego do Rio de Janeiro, aí mesmo é que morria atropelado. Lembrou-se dos cabelos do filho, das roupas dele. Lembrou-se da xícara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisaria gritar. E lembrou-se do marido. Só relembrava o marido em mangas de camisa. Mas não era possível, estava certa de que ele ia à repartição com o uniforme de contínuo, ia a festas de paletó, sem falar que não poderia Ter ido ao enterro do filho e da filha em mangas de camisa. A procura do paletó do marido ainda mais cansou a velha que se virava com leveza na cama. De repente descobriu que a cama era dura.</p>
<p style="text-align:justify;">- Que cama dura, disse bem alto no meio da noite.</p>
<p style="text-align:justify;">É que se sensibilizara toda. Partes do corpo de que não tinha consciência há longo tempo reclamavam agora a sua atenção. E de súbito – mas que fome furiosa! Alucinada, levantou-se, desamarrou a pequena trouxa, tirou um pedaço de pão com manteiga ressecada que guardava secretamente há dois dias. Comeu o pão como um rato, arranhando até o sangue os lugares da boca onde só havia gengiva. E com a comida, cada vez mais se reanimava. Conseguiu, embora fugazmente, Ter a visão do marido se despedindo para ir ao trabalho. Só depois que a lembrança se desvaneceu, viu que esquecera de observar se ele estava ou não em mangas de camisa. Deitou-se de novo, coçando-se toda ardente. Passou o resto da noite nesse jogo de ver por um instante e depois não conseguir ver mais. De madrugada adormeceu.</p>
<p style="text-align:justify;">E pela primeira vez foi preciso acordá-la. Ainda no escuro, a moça veio chamá-la, de lenço amarrado na cabeça e já de maleta no chão. Inesperadamente Mocinha pediu uns instantes para pentear os cabelos. As mão trêmulas seguravam o pente quebrado. Ela se penteava, ela se penteava. Nunca fora mulher de ir passear sem antes pentear os cabelos.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando enfim se aproximou do automóvel, o rapaz e as moças se surpreenderam com seu ar alegre e com os passos rápidos. &#8220;Tem mais saúde do que eu!&#8221;, brincou o rapaz. À moça da casa ocorreu: &#8220;E eu que até tinha pena dela&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Mocinha sentou-se junto da janela do carro, um pouco apertada pelas irmãs acomodadas no mesmo banco. Nada dizia, sorria. Mas quando o automóvel deu a primeira arrancada, jogando-a para trás, sentiu dor no peito. Não era só por alegria, era um dilaceramento. O rapaz virou-se para trás:</p>
<p style="text-align:justify;">- Não vá enjoar, vovó!</p>
<p style="text-align:justify;">As moças riram, principalmente a que se sentara na frente, a que de vez em quando encostava a cabeça no ombro do rapaz. Por cortesia, a velha quis responder, mas não pôde. Quis sorrir, não conseguiu. Olhou para todos, com olhos lacrimejantes, o que os outros já sabiam que não significava chorar. Qualquer coisa em seu rosto amorteceu um pouco a alegria da moça da casa e deu-lhe um ar obstinado.</p>
<p style="text-align:justify;">A viagem foi muito bonita.</p>
<p style="text-align:justify;">As moças estava contentes, Mocinha agora já recomeçara sorrir. E, embora o coração batesse muito, tudo estava melhor. Passaram por um cemitério, passaram por um armazém, árvore, duas mulheres, um soldado, gato! Letras – tudo engolido pela velocidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando Mocinha acordou não sabia mais aonde estava. A estrada já havia amanhecido totalmente: era estreita e perigosa. A boca da velha ardia, os pés e as mãos distanciavam-se gelados do resto do corpo. As moças falavam, a da frente apoiara a cabeça no ombro do rapaz. Os embrulhos despencavam a todo instante.</p>
<p style="text-align:justify;">Então a cabeça de Mocinha começou a trabalhar. O marido apareceu-lhe de paletó – achei, achei! – o paletó estava pendurado o tempo todo no cabide. Lembrou-se do nome da amiga de Maria Rosa, daquela que morava defronte. Elvira, e a mãe de Elvira até era aleijada. As lembranças quase lhe arrancavam uma exclamação. Então ela movia os lábios devagar e dizia baixo algumas palavras.</p>
<p style="text-align:justify;">As moças falavam:</p>
<p style="text-align:justify;">- Ah, obrigada, um presente desses eu rejeito!</p>
<p style="text-align:justify;">Foi quando Mocinha começou finalmente a não entender. Que fazia ela no carro? Como conhecera seu marido e aonde? Como é que a mãe de Maria Rosa e Rafael, a própria mãe deles, estava no automóvel com aquela gente? Logo depois acostumou-se de novo.</p>
<p style="text-align:justify;">O rapaz disse para as irmãs:</p>
<p style="text-align:justify;">- Acho melhor não pararmos defronte, para evitar histórias. Ela salta do carro, a gente ensina aonde é, ela vai sozinha e dá o recado de que é para ficar.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma das moças da casa perturbou-se: receava que o irmão, com uma incompreensão típica de homem, falasse demais diante da namorada. Eles não visitavam mais o irmão de Petrópolis, e muito menos a cunhada.</p>
<p style="text-align:justify;">- É sim, interrompeu-o a tempo antes que ele falasse demais. Olha, Mocinha, você entra por aquele beco e não há como errar: na casa de tijolo vermelho, você pergunta por Arnaldo, meu irmão, ouviu? Arnaldo. Diz que lá em casa você não podia mais ficar, diz que na casa de Arnaldo tem lugar e que você até pode vigiar um pouco o garoto, viu&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Mocinha desceu do automóvel, e durante um tempo ainda ficou de pé mas pairando entontecida sobre as rodas. O vento fresco soprava-lhe a saia comprida por entre as pernas.</p>
<p style="text-align:justify;">Arnaldo não estava. Mocinha entrou na saleta onde a dona da casa, com um pano contra pó amarrotado na cabeça, tomava café. Um menino louro – decerto aquele que Mocinha deveria vigiar – estava sentado diante de um prato de tomates e cebolas e comia sonolento, enquanto as pernas brancas e sardentas balançavam-se sob a mesa. A alemã encheu-lhe o prato de mingau e aveia, empurrou-lhe na mesa pão torrado com manteiga. As moscas zuniam. Mocinha estava fraca. Se bebesse um pouco de café quente talvez passasse o frio no corpo.</p>
<p style="text-align:justify;">A mulher alemã examinava-a de vez em quando em silêncio: não acreditara na história da recomendação da cunhada, embora &#8220;de lá&#8221; tudo fosse de se esperar. Mas talvez a velha tivesse ouvido de alguém o endereço, até num bonde, por acaso, isso às vezes acontecia, bastava abrir um jornal e ver que acontecia. É que aquela história não estava nada bem contada, e a velha tinha um ar sabido, nem sequer escondia o sorriso. O melhor seria não deixá-la sozinha na saleta, com o armário cheio de louça nova.</p>
<p style="text-align:justify;">- Preciso antes tomar café, disse-lhe. Depois que meu marido chegar, veremos o que se pode fazer.</p>
<p style="text-align:justify;">Mocinha não entendeu muito bem, pois ela falava como gringa. Mas entendeu que era para continuar sentada. O cheiro de café dava-lhe vontade, e uma vertigem que escurecia a sala toda. Os lábios ardiam secos e o coração batia todo independente.. Café, café, olhava ela sorrindo e lacrimejando. A seus pés o cachorro mordia a própria pata, rosnando. A empregada, também meio gringa, alta, de pescoço muito fino e seios grandes, trouxe um prato de queijo branco mole. Sem uma palavra, a mãe esmagou bastante queijo no pão torrado e empurrou-o para o lado do filho. O menino comeu tudo e, com a barriga grande, agarrou um palito e levantou-se:</p>
<p style="text-align:justify;">- Mãe, cem cruzeiros.</p>
<p style="text-align:justify;">- Não. Para quê?</p>
<p style="text-align:justify;">- Chocolate.</p>
<p style="text-align:justify;">- Não. Amanhã é que é Domingo.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma pequena luz iluminou Mocinha: Domingo? Que fazia naquela casa em vésperas de Domingo? Nunca saberia dizer. Mas bem que gostaria de tomar conta daquele menino. Sempre gostara de criança loura: todo menino louro se parecia com o Menino Jesus. O que fazia naquela casa? Mandavam-na à toa de um lado para outro, mas ela contaria tudo, iam ver. Sorriu encabulada: não contaria era nada, pois o que queria mesmo era café.</p>
<p style="text-align:justify;">A dona da casa gritou para dentro, e a empregada indiferente trouxe um prato fundo, cheio de papa escura. Gringos comiam muito de manhã, isso Mocinha vira mesmo no Maranhão. A dona da casa, com seu ar sem brincadeiras porque gringo em Petrópolis era tão sério como no Maranhão, a dona da casa tirou uma colherada de queijo branco, triturou-o com o garfo e misturou-o à papa. Para dizer a verdade, porcaria mesmo de gringo. Pôs-se então a comer, absorta, com o mesmo ar de fastio que os gringos do Maranhão têm. Mocinha olhava. O cachorro rosnava às pulgas.</p>
<p style="text-align:justify;">Afinal Arnaldo apareceu em pleno sol, a cristaleira brilhando. Ele não era louro. Falou em voz baixa com a mulher, e depois de demorada confabulação, informou firme e curioso para Mocinha:</p>
<p style="text-align:justify;">- Não pode ser não, aqui não tem lugar não.</p>
<p style="text-align:justify;">E como a velha não protestasse e continuasse a sorrir, ele falou mais alto:</p>
<p style="text-align:justify;">- Não tem lugar não, ouviu?</p>
<p style="text-align:justify;">Mas Mocinha continuava sentada. Arnaldo ensaiou um gesto. Olhou para as duas mulheres na sala e vagamente sentiu o cômico do contraste. A esposa esticada e vermelha. E mais adiante a velha murcha e escura, com uma sucessão de peles secas penduradas nos ombros. Diante do sorriso malicioso da velha, ele se impacientou:</p>
<p style="text-align:justify;">- E agora estou muito ocupado! Eu lhe dou dinheiro e você toma o trem para o Rio, ouviu? Volta para a casa de minha mãe, chega lá e diz: casa de Arnaldo não é asilo, viu? Aqui não tem lugar. Diz assim: casa de Arnaldo não é asilo não, viu!</p>
<p style="text-align:justify;">Mocinha pegou no dinheiro e dirigiu-se à porta. Quando Arnaldo já ia se sentar para comer, Mocinha reapareceu:</p>
<p style="text-align:justify;">- Obrigada, Deus lhe ajude.</p>
<p style="text-align:justify;">Na rua, de novo pensou em Maria Rosa, Rafael, o marido. Não sentia a menor saudade. Mas lembrava-se. Dirigiu-se para a estrada, afastando-se cada vez mais da estação. Sorriu como se pregasse uma peça a alguém: em vez de voltar logo, ia antes passear um pouco. Um homem passou. Então muito coisa muito curiosa, e sem interesse, foi iluminada: quando ela era ainda uma mulher, os homens. Não conseguia Ter uma imagem precisa das figuras dos homens, mas viu a si própria com blusas claras e cabelos compridos. A sede voltou-lhe, queimando a garganta. O sol ardia, faiscava em cada seixo branco. A estrada de Petrópolis é muito bonita.</p>
<p style="text-align:justify;">No chafariz de pedra negra e molhada, em plena estrada, uma preta descalça enchia uma lata de água.</p>
<p style="text-align:justify;">Mocinha ficou parada, espreitando. Viu depois a preta reunir as mãos em concha e beber.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando a estrada ficou de novo vazia, Mocinha adiantou-se como se saísse de um esconderijo e aproximou-se sorrateira do chafariz. Os fios de água escorreram geladíssimos por dentro das mangas até os cotovelos, pequenas gotas brilharam suspensas nos cabelos.</p>
<p style="text-align:justify;">Saciada, espantada, continuou a passear com os olhos mais abertos, em atenção às voltas violentas que a água pesada dava no estômago, acordando pequenos reflexos pelo resto do corpo como luzes.</p>
<p style="text-align:justify;">A estrada subia muito. A estrada era mais bonita que o Rio de Janeiro, e sua muito. Mocinha sentou-se numa pedra que havia junto de uma árvore, para poder apreciar. O céu estava altíssimo, sem nenhuma nuvem. E tinha muito passarinho que voava do abismo para a estrada. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>(Legião Estrangeira, Clarice Lispector, Editora Rocco)</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong>Extraído do blog <a href="http://www.portrasdasletras.com.br" target="_blank">Por trás das Letras</a>.</strong></em></p>
Posted in Clarice Lispector, Escritores Brasileiros Tagged: Conto, Petrópolis <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/conselheiroacacio.wordpress.com/1152/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=conselheiroacacio.wordpress.com&blog=2378334&post=1152&subd=conselheiroacacio&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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