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Archive for the ‘Escritores Americanos’ Category

O Chamado de Cthulhu

cthulhu-6

“De tais seres ou potestades superiores pode ser concebida uma sobrevivência… uma sobrevivência de um período fantasticamente remoto onde… a consciência se manifestava, talvez, em vultos e formas desde então repelidos pela maré montante da humanidade… formas das quais apenas a poesia e a lenda captaram uma memória fugaz e as chamaram deuses, monstros, seres míticos de todos os tipos e espécies…”

Algernon Blackwood1

I. O horror de argila

A coisa mais misericordiosa do mundo, acho eu, é a incapacidade da mente humana correlacionar tudo que ela contém. Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a mares tenebrosos de infinidade, e não estávamos destinados a chegar longe. As ciências, cada uma puxando para seu próprio lado, nos causaram poucos danos até agora, mas algum dia a junção das peças do conhecimento disperso descortinará visões tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição dentro dela que só nos restará enlouquecer com a revelação ou fugir da iluminação mortal para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas.

Os teosofistas imaginaram o admirável esplendor do ciclo cósmico no qual o nosso mundo e a raça humana são incidentes transitórios. Eles sugeriram estranhos remanescentes com termos que congelariam o sangue se não fossem mascarados por um suave otimismo. Mas não foi deles que me chegou o especial vislumbre de eras ancestrais proibidas que me arrepia ao lembrar e me enlouquece nos sonhos. Esse vislumbre, como todos os pavorosos vislumbres da verdade, revelou-­se de uma hora para outra com a junção acidental de peças separadas, nesse caso, uma velha notícia de jornal e as anotações de um professor já falecido. Espero que ninguém mais junte essas peças. Se eu viver, jamais ajuntarei, deliberadamente, um elo a tão odiosa cadeia, com certeza. Imagino que o professor também pretendia guardar silêncio sobre a parte que sabia, e que teria destruído suas anotações se a morte súbita não o tivesse colhido.

Meu contato com o assunto começou no inverno de 1926-27 com a morte de meu tio-avô George Gammell Angell, Professor Emérito de Línguas Semíticas na Universidade Brow, Providence, Rhode Island. O professor Angell era muitíssimo conhecido como uma autoridade em inscrições antigas e costumava ser consultado por curadores de museus importantes, de forma que muitos se lembrarão de seu falecimento, aos noventa e dois anos de idade. No meio local, o interesse foi intensificado pela obscuridade da causa da morte. O professor fora atingido quando voltava do barco de Newport, caindo de repente, segundo testemunhas, depois de receber o encontrão de um negro com ar de marinheiro que saiu de uma das vielas tenebrosas da ladeira íngreme que servia de atalho do cais até a casa do falecido na Williams Street. Os médicos não conseguiram detectar nenhuma doença visível e concluíram, depois de um debate confuso, que o fim se devera a alguma obscura lesão cardíaca provocada pela subida apressada de uma ladeira tão íngreme por um homem tão idoso. Na ocasião, não tive por que discordar dessa conclusão, mas ultimamente me sinto inclinado a estranhar… e mais do que estranhar.

Na qualidade de herdeiro e executor testamentário de meu tio-avô, pois ele morreu viúvo e sem filhos, teria de examinar seus papéis com certa meticulosidade, e para esse fim transferi todas as suas pastas e arquivos para minha moradia em Boston. Boa parte do material que eu correlacionei será no futuro publicada pela Sociedade Arqueológica Americana, mas havia uma caixa que me intrigou sobremaneira e não quis expô-la a outras vistas. Ela estava trancada e não consegui encontrar a chave até que me ocorreu olhar a argola de chaves que o professor trazia sempre no bolso. Consegui então abri-la, mas ao fazê-lo deparei-me com um obstáculo maior e ainda mais protegido, pois qual poderia ser o significado do estranho baixo-relevo de argila e os apontamentos, divagações e recortes de jornais desconexos que encontrei? Teria meu tio, em seus últimos anos, se transformado num crédulo das mais levianas imposturas? Resolvi então procurar o excêntrico escultor responsável por aquela aparente perturbação da paz de espírito de um velho.

O baixo-relevo era um retângulo tosco com menos de uma polegada de espessura e cerca de cinco por seis polegadas de área, de origem ao que tudo indica moderna. A atmosfera e as sugestões de seus motivos estava longe de ser modernas, porém, pois não obstante as excentricidades de cubismo e futurismo serem muitas e alucinadas, elas não reproduzem amiúde aquela regularidade críptcia que emerge de documentos pré-históricos. E o grosso daqueles desenhos com certeza parecia ser algum tipo de escrita, conquanto minha memória, embora familiarizada com os papéis e as coleções de meu tio, não conseguiu de maneira alguma identificar aquele tipo particular, ou mesmo inferir suas filiações remotas.

Ao alto desses aparentes hieróglifos havia uma figura com finalidade evidentemente decorativa, embora seu estilo impressionista prejudicasse a formação de uma idéia muito precisa da natureza. Parecia uma espécie de monstro, ou símbolo representando um monstro, cuja forma só poderia ter sido concebida por uma fantasia mórbida. Se digo que minha imaginação um tanto extravagante forjou imagens simultâneas de um polvo, um dragão e uma caricatura humana, não estarei sendo infiel ao espírito da coisa. Uma cabeça carnuda e tentaculada coroava um corpo grotesco, coberto de escamas, com asas rudimentares, mas era o contorno geral do conjunto que o tornava mais aterrorizante. Por trás da figura havia a vaga sugestão de uma paisagem arquitetônica ciclópica.

Exceto por uma pilha de recortes da imprensa, os textos que acompanhavam essa extravagância eram obra recente da mão do Professor Angell, sem a menor pretensão a um estilo literário. O que parecia ser o documento principal se intitulava “CULTO DE CTHULHU”2 em caracteres cuidadosamente grafados para evitar a leitura incorreta de uma palavra tão invulgar. O manuscrito estava dividido em duas seções, a primeira intitulada “1925 – Sonho e Obra do Sonho de H.A. Wilcox, Thomas Street, 7, Providence, R.I.”, e o segundo, “Narrativa do Inspetor John R. Lesgrasse, Bieville Street, 121, Nova Orleans, La., em 1908 A.A.S. Mtg. – Notas sobre o Mesmo, & Prof. Webb´s Acct”. Os outros papéis manuscritos eram todos anotações breves, alguns deles relatos de sonhos bizarros de diversas pessoas, outros citações de livros e revistas teosóficos (especialmente de Atlantis and the Lost Lemuria de W. Scott-Elliot), e o resto comentários sobre antigas sociedades secretas e cultos proibidos, com indicações de passagens de livros de referência de antropologia e mitologia como Golden Bought3 de Frazer e Witch-Cult in Western Europe da Srta. Murray4. A maior parte dos recortes aludia a doenças mentais excêntricas e surtos de loucura ou mania coletiva na primavera de 1925.

A primeira metade do manuscrito principal relatava uma história muito estranha. Ao que parece, em 1º de março de 1925, um jovem magro e soturno, de aspecto neurótico e exaltado, tinha procurado o Professor Angell, levando um curioso baixo-relevo de argila ainda muito fresco e úmido. Seu cartão trazia o nome de Henry Anthony Wilcox, e meu tio o identificara como o filho mais jovem de uma excelente família que ele conhecia de longe. O jovem era estudante de escultura na Escola de Desenho de Rhode Island e morava no edifício Fleur-de-Lys perto daquela instituição5. Wilcox era um jovem precoce, de gênio conhecido, mas grande excentricidade, e desde a infância ele chamava a atenção pelas histórias bizarras e sonhos curiosos que tinha o hábito de relatar. Ele se considerava “psiquicamente hipersensível”, mas para o povo pacato da antiga cidade comercial ele não passava de um “esquisitão”. Sem nunca se misturar muito com sua própria gente, ele foi perdendo aos poucos a visibilidade social e agora só era conhecido de um pequeno grupo de estetas de outras cidades. Mesmo o Clube das Artes de Providence, zeloso de seu conservadorismo, o considerava um caso sem esperança.

Por ocasião da visita, dizia o manuscrito do professor, o escultor, de repente, pediu a ajuda dos conhecimentos arqueológicos de seu anfitrião para identificar os hieróglifos dos baixo-relevo. Ele falava de maneira calma, sonhadora, sugerindo uma simpatia afetada e distante, e meu tio foi um tanto ríspido na resposta, pois a condição claramente recente da tabuleta indicava afinidade com qualquer coisa, menos com arqueologia. A réplica do jovem Wilcox que impressionou meu tio o bastante para ele recordar-se dela e registrá-la tal qual, teve um feitio poético que deve ter marcado toda a conversa, e que mais tarde descobri tratar-se de uma forte característica sua. Ele disse, “É novo, de fato, visto que o fiz na noite passada em meio a um sonho com cidades estranhas, e os sonhos são mais antigos do que a fervilhante Tiro, ou a contemplativa Esfinge, ou a ajardinada Babilônia.”

Foi aí que ele começou aquele relato confuso que, de repente, espicaçou memórias adormecidas e conquistou o interesse febricitante de meu tio. Tinha havido um rápido tremor de terra na noite anterior, o mais forte sentido na Nova Inglaterra em muitos anos, e a imaginação de Wilcox fora fortemente abalada. Recolhendo-se ao leito, ele teve um sonho sem precedentes com grandes cidades ciclópicas, construídas com blocos titânicos e monolitos projetados para o céu, tudo exsudando um limo verde e sinistro de horror latente. As paredes e pilares estavam cobertos de hieróglifos, e de algum ponto indeterminado abaixo chegava uma voz que não era voz, uma sensação caótica que somente a fantasia poderia transformar em som, mas que ele tentara transmitir com o amontoado de letras quase impronunciável “Cthulhu fhtagn”.

Essa mixórdia verbal foi a chave para a recordação que exaltou e perturbou o Professor Angell. Ele interrogou o escultor com meticulosidade científica e estudou com atenção quase fanática, o baixo-relevo em que o jovem se vira trabalhando, enregelado e vestido apenas com as roupas de dormir, até a vigília insinuar-se em seu torpor. Meu tio culpou a sua velhice, disse Wilcox mais tarde, pela lentidão com que identificou os hieróglifos e a imagem. Muitas de suas perguntas pareceram deslocadas para o visitante, em especial as que tentavam relacioná-lo com cultos ou sociedades estranhos, e Wilcox não pôde compreender as repetidas promessas de silêncio que lhe foram feitas em troca de ser aceito em alguma ordem religiosa mística ou pagã. Quando o Professor Angell se convenceu de que o escultor ignorava mesmo qualquer culto ou sistema de sabedoria críptica, assediou o visitante com pedidos para que ele lhe relatasse sonhos futuros. Isso rendeu frutos regulares. Depois da primeira entrevista, o manuscrito registra visitas diárias do jovem durante as quais ele relatava fragmentos surpreendentes de imaginação noturna cujo tema constante era alguma vista ciclópica terrível de pedra escura e gotejante, com uma voz ou inteligência subterrânea gritando monotonamente através de enigmáticos impactos sensoriais só possíveis de descrever com palavras sem sentido. Os dois sons repetidos com maior freqüência são os expressos pelas letras “Cthulhu” e “R’lyeh”.

No dia 23 de março, prosseguia o manuscrito, Wilcox não apareceu, e indagações feitas em sua moradia revelaram que, atacado por um tipo desconhecido de febre, ele fora levado para a casa de sua família na Waterman Street. Ele havia gritado durante a noite, despertando outros artistas do prédio, e havia manifestado, a partir daquele momento, condições alternadas de consciência e delírio. Meu tio telefonou incontinente para a família e dali em diante passou a acompanhar o caso de perto, telefonando muitas vezes para o consultório do Dr. Tobey na Thayer Street, o médico que estava acompanhado o caso. A mente febril do jovem, ao que parecia, estava retida em coisas estranhas, e o médico chegava a estremecer quando as mencionava. Estas incluíam não só a repetição do que ele tinha sonhado antes, mas envolviam também algo gigantesco “com milhas de altura” que andava ou se arrastava de um lado para outro. Em nenhum momento ele descreveu essa coisa, mas expressões alucinadas ocasionais, reproduzidas pelo Dr. Tobey, convenceram o professor de que ela devia ser idêntica à monstruosidade inominável que ele tentara representar em sua escultura do sonho. A referência a essa coisa, acrescentou o doutor, preludiava sempre a recaída do jovem na letargia. Sua temperatura, por estranho que pareça não subia muito acima do normal, mas seu estado geral sugeria antes uma febre genuína do que uma perturbação mental.

No dia 2 de abril, por volta das três da tarde, todos os sintomas da doença de Wilcox desapareceram de uma hora para outra. Ele sentou-se na cama, espantado por estar em casa e sem a menor noção do que tinha acontecido em sonho ou realidade desde a noite de 22 de março. Recebendo alta do médico, voltou a seus aposentos em três dias, mas deixou de prestar qualquer ajuda ao Professor Angell. Todos os vestígios de sonhos estranhos tinham sumido de sua memória, e meu tio não guardou nenhum registro de seus pensamentos noturnos depois de uma semana de relatos insossos e irrelevantes sobre visões perfeitamente normais.

Aqui terminava a primeira parte do manuscrito, mas referências a algumas anotações espalhadas deram-me muito em que pensar, tanto, de fato, que só o arraigado ceticismo que marcava então a minha filosofia pode explicar a persistente aversão que senti pelo artista. As anotações em questão descreviam os sonhos de várias pessoas no mesmo período em que o jovem Wilcox sofrera suas estranhas provações. Meu tio, ao que parece, criou às pressas uma vasta rede de pesquisa envolvendo quase todos os amigos a quem poderia fazer perguntas sem parecer impertinente, pedindo-lhes que relatassem seus sonhos noturnos e as datas de qualquer visão extraordinária no passado recente. A receptividade a seu pedido parece Ter sido irregular, mas ele deve ter recebido, no mínimo, mais respostas do que uma pessoa normal poderia lidar sem uma secretária. Essa correspondência original não foi preservada, mas suas anotações formaram um resumo completo e realmente significativo. As pessoas comuns da sociedade e do meio comercial – o “sal da terra” da Nova Inglaterra tradicional – deram um retorno quase negativo, embora casos esparsos de impressões noturnas perturbadoras mas informes apareçam aqui e ali, sempre entre 23 de março e 2 de abril, o tempo do delírio do jovem Wilcox. Os homens de ciência foram afetados um pouco mais, embora quatro casos de descrição vaga sugiram vislumbres fugidios de paisagens exóticas, e, em um caso, seja mencionado o pavor de alguma coisa anormal.

Foi dos artistas e poetas que vieram as respostas pertinentes, e tenho clareza de que o pânico se alastraria se eles tivessem podido comparar as anotações. Tal como aconteceu, na falta das cartas originais, suspeitei que o compilador tinha feito perguntas indutivas ou editado a correspondência para corroborar o que ele estava potencialmente inclinado a ver. Isso reforçou minha idéia de que Wilcox, de alguma forma conhecedor dos dados antigos que meu tio possuía, vinha se insinuando junto ao veterano cientista. As respostas daqueles estetas contavam uma história perturbadora. De 28 de fevereiro a 2 de abril, uma grande parte deles havia tido sonhos extraordinários e a intensidade dos sonhos havia sido muito maior durante o período do delírio do escultor. Mais de um quarto dos que relataram algo, registravam cenas e sons vagos parecidos com os descritos por Wilcox, e alguns sonhadores confessaram ter sentido um intenso pavor da gigantesca e indescritível criatura avistada quase no fim. Um caso, que a anotação descreve com ênfase foi muito triste. O indivíduo, um arquiteto muito conhecido, com propensões para a teosofia e o ocultismo, tornou-se um louco furioso na data do acesso do jovem Wilcox e expirou alguns meses mais tarde depois de gritar incessantemente para ser salvo de algum invasor fugido do inferno. Se meu tio tivesse organizado esses casos por nome em vez de números, eu poderia tentar confirmá-los e fazer algumas investigações pessoais, mas do jeito como as coisas se deram, só consegui localizar alguns. Desses, porém, confirmei as anotações por completo. Muitas vezes me perguntei se todos os objetos das inquisições do professor ficaram tão perplexos quanto esses poucos. É bom que não lhes chegue nenhuma explicação.

Os recortes da imprensa, como sugeri, abordavam casos de pânico, mania e excentricidades durante o período em questão. O Professor Angell deve ter-se valido de um serviço especial, pois era imenso o número de recortes de fontes espalhadas por todo o Globo. Aqui, um suicídio noturno em Londres; alguém que dormia sozinho havia saltado pela janela depois de lançar um grito assustador. Ali, uma carta delirante ao editor de um jornal da América do Sul, onde um fanático deduz um futuro tétrico de visões que tivera. Um despacho da Califórnia descreve uma colônia de teosofistas distribuindo mantos brancos em massa para algum “acontecimento glorioso” que nunca chega, enquanto notícias da Índia falam com reservas de sérias rebeliões de nativos no final de março. Orgias de vodu multiplicam-se no Haiti e postos avançados na África registram murmúrios ominosos. Funcionários americanos nas Filipinas sentem que algumas tribos estão inquietas naquele período, e policiais de Nova York são atacados por levantinos histéricos na noite de 22 para 23 de março. Na região oeste da Irlanda, também, correm abundantes rumores e lendas fabulosos, e um pintor de temas fantásticos, Ardois-Bonnot, expõe uma blasfema “Paisagem Onírica” no salão de primavera de Paris de 1926. E são tão numerosos os distúrbios registrados em asilos de loucos que só um milagre poderia Ter impedido a comunidade médica de observar os estranhos paralelismos e tirar conclusões enganosas. No todo, um espantoso maço de recortes e até hoje mal consigo entender o calejado racionalismo que me fez deixá-los de lado. Mas eu estava convencido então de que o jovem Wilcox tinha conhecimentos dos assuntos mais antigos mencionados pelo professor.

II. A narrativa do Inspetor Legrasse

Os assuntos antigos que tornavam o sonho e o baixo-relevo do escultor tão significativos para meu tio constituíam o tema da segunda metade de seu extenso manuscrito. Ao que parece, o professor Angell já tinha visto a silhueta infernal da monstruosidade sem nome, já se tinha intrigado com os misteriosos hieróglifos e ouvido as sílabas aziagas que só podem ser representadas por “Cthulhu”, e isso tudo associado de maneira tão excitante e terrível que não causa espanto que ele tenha o jovem Wilcox com perguntas e solicitações de dados.

A experiência anterior tinha ocorrido em 1908, dezessete anos antes, quando a Sociedade Antropológica Americana realizara seu encontro anual em Saint Louis. O professor Angell, como convinha a alguém com sua autoridade e suas realizações, teve um papel destacado em todas as deliberações, e foi um dos primeiros a ser abordado por diversos leigos que aproveitaram a convocação para formular perguntas querendo respostas corretas e problemas para uma solução especializada.

O principal desses leigos, e, dentro em pouco, o centro de interesse de todos os participantes, era um homem de meia idade e aparência comum que tinha vindo de Nova Orleans atrás de informações especiais impossíveis de obter junto a alguma fonte local. Chamava-se John Raymon Legrasse e era, de profissão, inspetor de polícia. Trouxera consigo o motivo de sua visita, uma estatueta de pedra, grotesca, repulsiva e ao que tudo indica muito antiga, cuja origem não conseguira determinar. Não se deve supor que o Inspetor Legrasse tivesse o menor interesse em arqueologia. Ao contrário, seu desejo de esclarecimento era movido por considerações estritamente profissionais. A estatueta, ídolo, fetiche, ou seja lá o que fosse, fora capturada alguns meses antes nos pântanos arborizados ao sul de Nova Orleans, durante uma batida a uma suposta reunião vodu, e os ritos a ela associados eram tão extraordinários e repulsivos que a polícia não pôde deixar de concluir que tinha topado com um culto demoníaco totalmente desconhecido e muito mais diabólico do que os mais tenebrosos círculos de vodu africanos. Sobre a sua origem, afora as histórias desencontradas e inacreditáveis extraídas dos praticantes capturados, não se haveria de descobrir absolutamente nada, o que explicava a ansiedade da polícia por qualquer sabedoria arcaica que a ajudasse a situar o pavoroso símbolo e, através dele, a reconstituir a origem do culto.

O Inspetor Legrasse não estava preparado para a sensação que seu oferecimento provocou. Bastou uma vista ao objeto para colocar os homens de ciência em estado de tensa excitação, e sem demora eles de aglomeraram ao seu redor para examinar a diminuta figura cuja absoluta estranheza e aparência de antigüidade abissal sugeriam poderosamente panoramas arcaicos e fechados. Nenhuma escola de escultura identificável havia inspirado o terrível objeto, mas, entretanto, centenas, milhares de anos, talvez, pareciam gravados na superfície turva e esverdeada da pedra inclassificável.

A estatueta, que foi sendo passada com vagar de mão em mão para um estudo mais cuidadoso, tinha sete a oito polegadas de altura e um acabamento artístico raro. Representava um monstro de perfil meio antropóide, mas com uma cabeça de polvo com um amontoado de tentáculos por face e um corpo coberto de escamas aparentemente elástico, garras prodigiosas nas patas dianteiras e traseiras, e asas longas e estreitas nas costas. A coisa, que parecia animada de uma malignidade terrível e apavorante, tinha o corpo um tanto estufado e estava acocorada num pedestal, ou bloco retangular, com inscrições indecifráveis. As pontas das asas tocavam na borda escura do bloco, o traseiro ocupava o centro, enquanto as garras longas e curvas das patas traseiras dobradas agarravam a borda frontal e se prolongavam até um quarto da distância até a base do pedestal. A cabeça cefalópode estava curvada para a frente de tal forma que as pontas dos tentáculos faciais raspavam nos dorsos das patas dianteiras que se apoiavam nos joelhos erguidos da figura acocorada. Ela dava uma impressão geral de estar viva, e era ainda mais assustadora por sua origem ser tão absolutamente desconhecida. Sua antigüidade imensa, espantosa e incalculável era inegável, embora ela não revelasse qualquer ligação com algum tipo de arte da aurora da civilização – ou, mesmo, de alguma outra era. Em contrapartida, o próprio material de que era feita constituía um mistério, pois a pedra lisa preto-esverdeada com suas listras ou estrias douradas ou iridescentes não se assemelhava a nada que a geologia ou a mineralogia conhecessem. As inscrições ao longo da base eram também intrigantes e nenhum dos presentes, apesar de ali se encontrar a metade do conhecimento especializado do mundo nesse campo, conseguiu formar a menor idéia nem mesmo de sua mais remota filiação lingüística. Assim como a figura e o material, elas pertenciam a algo terrivelmente antigo e distinto da humanidade tal como a conhecemos, algo que sugeria com pavor ciclos de vida remotos e profanos, alheios a nosso mundo e a nossas concepções.

Contudo, enquanto os membros abanavam com seriedade as cabeças e confessavam sua derrota em face do problema apresentado pelo inspetor, uma pessoa naquela reunião presumiu um traço de estranha familiaridade na forma monstruosa e na inscrição e contou, com certa modéstia, uma curiosidade de seu conhecimento. Tratava-se do hoje falecido William Channing Webb, professor de antropologia da Universidade de Princeton e conhecido explorador. O professor Webb participara, quarenta e oito anos antes, de uma expedição à Groenlândia e à Islândia em busca de certas inscrições rúnicas que não conseguiu descobrir, e na costa da Groenlândia Ocidental havia encontrado uma tribo ou culto singular de esquimós degenerados cuja religião, uma curiosa forma de adoração ao diabo, o havia estarrecido por seu caráter deliberado cruel e repulsivo. A fé era pouco conhecida dos outros esquimós e eles só a mencionavam entre arrepios, dizendo que tinha surgido em épocas terrivelmente primitivas, antes mesmo do mundo existir. Além de ritos indescritíveis e sacrifícios humanos, ela incluía certos rituais hereditários fantásticos devotados a um demônio ancestral supremo ou tornasuk, e o professor Webb havia conseguido uma cuidadosa transcrição fonética deste de um velho mago-sacerdote ou angekok, expressando os sons em caracteres romanos da melhor maneira que pôde. Mas no momento, tinha um significado todo especial o fetiche que esse culto adorava e ao redor do qual os praticantes dançavam enquanto a aurora boreal luzia por cima dos penhascos de gelo. Era, pontificou o professor, um baixo-relevo em pedra muito tosco exibindo uma figura repulsiva e algumas inscrições misteriosas. Até onde ele saberia dizer, tratava-se de um similar tosco, em todos os traços, em todos os traços essenciais, do objeto bestial pousado, naquele momento, diante daquela assembléia.

Essas informações, recebidas com espanto e admiração pelos membros ali reunidos, mostraram-se empolgantes em dobro para o inspetor Legrasse, e ele na hora assediou o informante de perguntas. Tendo anotado e transcrito um ritual oral dos adoradores do pântano que seus homens haviam detido, pediu ao professor que se lembrasse o melhor possível das sílabas anotadas entre os esquimós satanistas. Seguiu-se uma exaustiva comparação de detalhes e um momento de respeitoso silêncio quando ambos, investigador e cientista, concordaram sobre a identidade virtual da frase comum aos dois rituais satânicos separados por mundos de distância. O que, em essência, tanto os feiticeiros esquimós como os sacerdotes do pântano da Louisiana tinham entoado para seus venerados ídolos era algo assim – sendo a divisão de palavras inferidas das quebras normais da frase quando entoada em voz alta:

“Ph’nglui mglw’ nafh Cthulhu R’yleh wgah’nagl fhtagn.”

Legrasse estava um passo à frente do professor Webb, pois vários de seus prisioneiros mestiços tinham repetido pare ele o que os celebrantes mais velhos lhes tinham dito sobre o significado das palavras. Esse texto dizia algo assim:

“Em sua morada em R’yleh o morto Cthulhu espera sonhando.”

Então, atendendo a um pedido geral e insistente, o inspetor Legrasse contou, da forma mais completa possível, sua experiência com os adoradores do pântano, contado uma história a que, como pude observar, meu tio atribuiu um significado profundo. Ela sugeria os mais alucinados sonhos dos criadores de mitos e teosofistas, e revelava um espantoso grau de imaginação cósmica em mestiços e párias.

Em 1º de novembro de 1907, a polícia de Nova Orleans recebera um chamado frenético da região lacustre e pantanosa ao sul. Os posseiros da região, em sua maioria descendentes primitivos mas de boa índole dos homens de Lafitte6, estavam tomados de mais absoluto pavor por uma coisa desconhecida que se aproximara furtivamente deles durante a noite. Parecia vodu, mas vodu de um tipo mais terrível do que todos que conheciam, e algumas mulheres e crianças tinham desaparecido desde que o tantã maléfico começara seu batimento incessante no coração dos bosques escuros e assombrados onde ninguém se aventura. Havia gritos insanos e uivos angustiados, cantos de arrepiar a alma e chamas diabólicas dançantes, e, prosseguiu o assustado mensageiro, as pessoas não podiam mais suportar.

Assim, um corpo de vinte policiais que lotava dois veículos e um automóvel partiu ao entardecer, levando o trêmulo posseiro como guia. No final da estrada transitável eles apearam e chapinharam muitas milhas em silêncio pelos terríveis bosques de ciprestes onde o dia não penetrava. Raízes pavorosas e festões pendentes e malignos de musgo espanhol os cercavam e, de vez em quando, um amontoado de pedras úmidas ou fragmentos de alguma parede apodrecida intensificavam, com sua sugestão de moradia mórbida, o sentimento de depressão que cada árvore retorcida e cada ilhota musgosa se combinavam para produzir. Finalmente despontou o povoado de posseiros, um amontoado de casebres miseráveis, e moradores histéricos vieram correndo aglomerar-se em volta do grupo de lanternas balouçantes. A batida surda dos tambores era agora pouco audível ao longe, muito ao longe, e um uivo horripilante chegava em intervalos irregulares quando o vento mudava. Um clarão avermelhado parecia filtrar através da pálida vegetação rasteira além das intermináveis avenidas de escuridão florestal. Mesmo relutando em ser deixados mais uma vez a sós, os amedrontados posseiros recusaram-se a avançar uma polegada na direção do culto profano, e o inspetor Legrasse e seus dezenove colegas tiveram que seguir em frente sem guia pelas negras arcadas de horror que nenhum deles jamais percorrera.

A região invadida pela polícia tinha má reputação e era geralmente desconhecida e não freqüentada por homens brancos. Corriam lendas de um lago oculto, jamais vislumbrado por olhos mortais, habitado por uma coisa poliposa branca e informe, com olhos luminosos, e os posseiros sussurravam que demônios com asas de morcego saíam voando de cavernas nas entranhas da terra para adorá-la à meia-noite Eles diziam que a criatura já estava ali antes de D’Iberville7, antes de La Salle8, antes dos índios, e antes mesmo dos animais e pássaros são dos bosques. Era o próprio pesadelo e vê-la significava a morte, mas ela fazia os homens sonharem e assim eles sabiam o bastante para se manter à distância. A orgia de vodu acontecia, de fato, na fímbria só da zona abominável, mas aquele local era ruim o bastante, daí, porque, talvez o próprio local da adoração aterrorizasse os posseiros mais do que os pavorosos sons e incidentes.

Somente a poesia ou a loucura poderiam fazer justiça aos barulhos escutados pelos homens de Legrasse enquanto abriam caminho pelo pântano tenebroso na direção do clarão vermelho e do tantã abafado. Há características vocais típicas dos homens, e características vocais típicas das feras, e é terrível ouvir uma quando a fonte devia indicar a outra. A fúria animal e a libertinagem orgiástica atingiram ali alturas demoníacas com uivos e guinchos extáticos que cortavam, reverberando o bosque sombrio como tempestades pestilenciais das profundas do inferno. De vez em quando, a gritaria desordenada cessava, destacando-se o que parecia um coro bem ensaiado de vozes roucas entoando compassadamente aquela frase ou ritual hediondo:

“Ph’nglui mglw’ nafh Cthulhu R’yleh wgah’nagl fhtagn.”

Atingindo um ponto onde o arvoredo era menos denso, os homens toparam de repente com a visão do próprio espetáculo. Quatro deles cambalearam, um desmaiou e dois foram sacudidos por um pranto convulsivo que a furiosa cacofonia do festim felizmente abafou. Legrassse aspergiu água do pântano no rosto do desmaiado e todos ficaram paralisados, tremendo, quase hipnotizados pelo horror.

Numa clareira natural do pântano havia uma ilha relvada e sem árvores, com um acre de extensão, talvez, e em certa medida seca. Sobre ela saltitava e se contorcia uma horda de anormalidade humana tão indescritível que só um Sime ou Angarola9 poderiam descrever. Desprovida de roupas, aquela prole híbrida zurrava, urrava e se contorcia em volta de um anel de fogo cujo centro, revelado por aberturas ocasionais da cortina de chamas, era ocupado por um grande monolito branco com quase oito pés de altura, sobre o qual repousava, parecendo incongruente por sua pequena dimensão, a pérfida estatueta cinzelada. De um amplo círculo formado por dez patíbulos dispostos em intervalos regulares, tendo monolito branco rodeado de chamas como centro, pendiam, de cabeça para baixo, os corpos terrivelmente desfigurados dos infortunados posseiros desaparecidos. Era no interior desse círculo que a roda de adoradores saltava e rugia, movendo-se da esquerda para a direita num Bacanal interminável entre o anel de corpo e o anel de fogo.

Pode ter sido apenas imaginação e podem ter sido apenas os ecos a induzir um dos homens, um espanhol impressionável, a imaginar ter ouvido reposta antifônicas ao ritual de algum ponto distante e escuro das profundezas do bosque de antiga lenda e horror. Esses homem, Joseph D. Galvez, eu encontrei e interroguei mais tarde, e ele se mostrou espantosamente imaginativo, chegando a sugerir um tênue bater de grandes asas e o vislumbre de olhos brilhantes e de um enorme vulto branco além das árvores mais distantes – mas imagino que tenha ouvido muitas superstições nativas.

A paralisia de pavor dos homens, na verdade, durou pouco. O dever logo se impôs e mesmo havendo por ali perto uma centena de mestiços celebrantes, a polícia confiou em suas armas e caiu, com determinação, em cima da turba repugnante. Durante cinco minutos, o alvoroço e o caos resultantes foram indescritíveis. Golpes terríveis, tiros e fugas, mas no final Legrasse pôde contar cerca de quarenta e sete prisioneiros sombrios que foram obrigados a se vestir às pressas e se alinhar entre duas filas de policiais. Cinco adoradores estavam mortos, e dois gravemente feridos foram levados em macas improvisadas por seus colegas presos. A estatueta sobre o monólito foi retirada com cuidado, é claro, e trazida por Legrasse.

Inquiridos na delegacia depois de uma jornada de tensão e cansaço intensos, os prisioneiros revelaram-se todos homens de um tipo de mestiçagem muito inferior e mentalmente aberrante. Eram marinheiros, em sua maioria, e um punhado de negros e mulatos, sobretudos caribenhos ou portugueses de Brava nas ilhas de Cabo Verde, dava um toque de voduísmo ao culto heterogêneo. Mas não foi preciso muita inquisição para ficar evidente que havia algo muito mais profundo e mais antigo do que o fetichismo negro. Degradadas e ignorantes como eram, as criaturas defendiam, com surpreendente consistência, a idéia central de sua abominável fé.

Eles adoravam, assim disseram, os Grandes Antigos que viveram muitas eras antes de existirem os homens, e que tinha vindo do céu para o mundo jovem. Esses Antigos já tinham partido, para o interior da Terra e o fundo do mar, mas seus corpos mortos tinham revelado seus segredos em sonhos aos primeiros homens, que criaram um culto que jamais deixara de existir. Aquilo que praticavam era esse culto, e segundo os prisioneiros ele sempre existira e sempre existiria, escondido em desertos remotos e lugares sombrios espalhados pelo mundo até o dia em que o grande sacerdote Cthulhu, saindo de sua tétrica morada na imponente cidade submarina de R’yleh, emergeria e colocaria a Terra novamente sob seu jugo. Algum dia ele conclamaria, quando as estrelas estivessem preparadas, e o culto secreto estaria pronto para libertá-lo.

Até lá, nada mais deveria ser dito. Havia um segredo que nem a tortura poderia extrair. A humanidade não era de modo algum a única das coisas conscientes da Terra, pois emergiam vulto da escuridão para visitar os poucos fiéis. Mas esses não eram os Grandes Antigos. Nenhum homem jamais vira os Antigos. O ídolo cinzelado era o grande Cthulhu, mas ninguém saberia dizer se os outros era exatamente iguais a ele. Ninguém conseguira ler a antiga inscrição, mas as coisas eram transmitidas de boca em boca. O ritual entoado não era o segredo – esse jamais era dito em voz alta, apenas sussurrado. O canto significava apenas isto: “Em sua morada em R’yleh, o morto Cthulhu espera sonhando.”

Somente dois dos prisioneiros foram considerados sãos o bastante para a forca e o resto foi confiado a várias instituições. Todos negaram que a matança tinha sido feita pelos Alados Negros que tinha vindo até eles de seu imemorial ponto de encontro no bosque assombrado. Mas daqueles aliados misteriosos, não se pôde jamais obter um relato coerente. O grosso do que a polícia conseguiu extrair veio de um mestizo muito velho chamado Castro, que alegava ter navegado em portos estranhos e conversado com líderes imortais do culto nas montanhas da China.

O velho Castro recordou fragmentos da odiosa lenda que fizeram empalidecer as especulações dos teosofistas e faziam o homem e o mundo parecerem recentes e transitórios. Durante muitas eras, outras Criaturas governaram a Terra, e Elas tinham construído grandes cidades. Restos Delas, segundo lhe disseram os chineses imortais, ainda poderiam ser encontrados como pedras ciclópicas em ilhas do Pacífico. Elas todas tinham desaparecido vastas eras antes dos homens chegarem, mas certas artes poderiam revivê-las quando as estrelas girassem novamente para as posições certas no ciclo da eternidade. Elas próprias, na verdade, tinham vindo das estrelas, e trazido Suas imagens Consigo.

Os Grandes Antigos, prosseguiu Castro, não eram totalmente de carne e sangue. Tinham forma – pois não o prova essa estatueta estrelada? – mas essa forma não era feita de matéria. Quando as estrelas estivessem posicionadas, Eles podiam saltar de mundo para mundo céu afora, mas quando as estrelas estavam na posição errada, não podiam viver. Mas embora não vivessem mais, Eles jamais podiam realmente morrer. Jaziam em casas de pedra em Sua grande cidade de R’yleh, preservados pelos feitiços do poderoso Cthulhu para uma gloriosa ressurreição quando as estrelas e a Terra estivessem mais uma vez prontas para Eles. Mas a essa altura, alguma força exterior teria de agir para libertar Seus corpos. Os encantamentos que Os mantinham intatos também Os impediam de dar o passo inicial, e Eles só podiam ficar deitados, despertos, no escuro, e pensar, enquanto incontáveis milhões de anos transcorriam. Sabiam tudo que se passava no universo, mas se comunicavam por transmissão de pensamentos. Mesmo agora Eles conversavam em Seus túmulos. Quando, depois de infinidades de caos, surgiram os primeiros homens, os Grandes Antigos falaram aos mais sensíveis deles, moldando seus sonhos, pois só assim Sua linguagem conseguia atingir as mentes carnais dos mamíferos.

Então, sussurrou Castro, aqueles primeiros homens criaram o culto em torno de pequenos ídolos que os Grandes lhes mostraram, ídolos trazidos de estrelas escuras para zonas sombrias. Esse culto não morreria jamais até que as estrelas estivessem de novo em posição e os sacerdotes secretos tirassem o grande Cthulhu de Sua sepultura para reanimar Seus súditos e recuperar Seu domínio sobre a Terra. O momento seria fácil reconhecer pois a humanidade se teria tornado então como os Grandes Antigos, livre, selvagem, e além do bem e do mal, com as leis e os comportamentos morais deixados de lado, e todos os homens, em júbilo, gritando matando e festejando. Os Antigos libertadores lhes ensinariam então novas maneiras de gritar, matar, festejar, se divertir, e toda a Terra arderia num holocausto de êxtase e liberdade. Até lá, o culto, através de ritos apropriados, devia manter viva a memória daqueles costumes ancestrais e transmitir secretamente a profecia de sua volta.

Outrora, nos tempos idos, homens escolhidos tinham conversado com os sepultados Antigos em sonhos, mas alguma coisa acontecera então. A grande cidade de pedra de R’yleh, com seus monólitos e sepulcros, tinha afundado debaixo das ondas e as águas profundas, cheias do mistério primordial no qual nem mesmo o pensamento pode penetrar, tinham interrompido o intercâmbio espectral. Mas a memória nunca morria, e sumos sacerdotes diziam que a cidade se ergueria de novo quando as estrelas se posicionassem. Depois sairiam do chão, mofados e tétricos, os espíritos negros da Terra, e cercados de rumores sombrios ocuparam cavernas por baixo dos leitos esquecidos dos mares. Mas o velho Castro não ousou falar muito deles. Calou-se bruscamente e não houve persuasão ou sutilezas que pudessem elucidar mais nessa direção. O tamanho dos Antigos, também, o que é curioso, ele não quis mencionar. Sobre o culto, disse que seu núcleo devia estar no centro dos desertos intransitáveis da Arábia, onde Irem, a Cidade dos Pilares, sonha oculta e intocada. Ele não tinha qualquer relação com o culto das bruxas europeu, e era virtualmente desconhecido entre seus membros. Nenhum livro jamais se referira de fato a ele, embora, segundo os imortais chineses, houvesse um duplo significado no Necronomicon10do árabe louco Abdul Alhazred que os iniciados poderiam ler quando quisessem, especialmente no muito discutido dístico:

“Pois não há morto que fique em repouso eterno,

E com imensa idade, poderá finar-se a morte.”

Legrasse, muitíssimo impressionado e não menos perplexo, tinha interrogado em vão sobre as filiações históricas do culto. Castro, ao que parece, falara a verdade ao dizer que ele era absolutamente secreto. As autoridades da Universidade de Tulane não puderam lançar luz nem sobre o culto, nem sobre a imagem, e o investigador tinha procurado as mais altas autoridades do país, obtendo apenas a história da Groenlândia do professor Webb.

O interesse febril provocado pelo relato de Legrasse ao encontro, corroborado como era pela estatueta, repetiu-se na correspondência subseqüente dos participantes, embora só apareçam menções esparsas a ele nas publicações formais da sociedade. A cautela é o primeiro cuidado dos que se acostumam a enfrentar o charlatanismo e a impostura. Legrasse emprestou a imagem por algum tempo ao professor Webb, mas quando este morreu, ela lhe foi devolvida e permanece em sua posse, onde eu a vi não faz muito tempo. É, de fato, uma coisa terrível, e está inconfundivelmente relacionada com a escultura de sonho do jovem Wilcox.

Não me espanta que meu tio ficasse excitado com a história do escultor, pois o que poderia pensar ao saber, conhecendo o que Legrasse havia apurado sobre o culto, de um jovem sensível que tinha sonhado não só com a figura e os hieróglifos exatos da imagem encontrada no pântano e da tabuleta diabólica da Groenlândia, mas chegara em seus sonhos a pelo menos três das palavras exatas da fórmula pronunciada por satanistas esquimós e mestiços da Louisiana? O pronto empreendimento de uma investigação de extrema eficácia pelo professor Angell era perfeitamente natural, embora eu suspeitasse que o jovem Wilcox tinha tomado conhecimento do culto por algum canal indireto, e tinha inventado uma seqüência de sonhos para aumentar e prolongar o mistério às custas do meu tio. As narrativas de sonhos e os recortes colecionados pelo professor eram, por certo, uma prova poderosa, mas minha vocação racionalista e a extravagância do assunto todo levaram-me a adotar o que considerei as conclusões mais sensatas. Assim, depois de estudar cuidadosamente o manuscrito de novo e comparar as anotações teosóficas e antropológicas com a narrativa sobre o culto de Legrasse, fiz uma viagem à Providence para encontrar o escultor e censurá-lo, como achava que merecia, por se impor de maneira tão atrevida a um homem culto e idoso.

Wilcox ainda morava sozinho no Edifício Fleur-de-Lys da Thomas Street, uma pavorosa imitação vitoriana da arquitetura Breton do século XVII que pavoneia sua fachada de estuque em meio às adoráveis casas coloniais da antiga colina e à sombra do mais belo campanário da América. Encontrei. Encontrei-o a trabalhar em seus aposentos, e deduzi, imediatamente, pelos modelos espalhados por ali, que seu gênio era mesmo profundo e autêntico. Algum dia, acredito, ele será conhecido como um grande decadentista, pois conseguiu cristalizar em argila a algum dia espelhará em mármore aqueles pesadelos e fantasias que Arthur Machen11 evoca em prosa e Clark Ashton Smith12 exibe em versos e pinturas.

Frágil, soturno e um tanto desleixado, virou-se languidamente à minha batida perguntou-me, sem se levantar, o que eu queria. Quando lhe contei quem eu era, mostrou algum interesse, pois meu tio havia excitado sua curiosidade ao investigar seus sonhos bizarros, mesmo sem nunca explicar as razões de seu estudo. Eu não ampliei seus conhecimentos a esse respeito, mas tentei, com alguma sutileza, interessá-lo. Em pouco tempo, convenci-me de sua absoluta sinceridade, pois ele falou dos sonhos de uma maneira que não deixava dúvidas. Os sonhos e seu resíduo subconsciente tiveram profunda influência em sua arte, e ele me mostrou uma estátua cujos contornos me fizeram estremecer com a perversidade que sugeria. Não se lembrava de ter visto o original da coisa exceto no baixo-relevo sonhado, mas as linhas foram insensivelmente tomando forma em suas mãos. Era, sem dúvida, a forma gigante que ele tinha expressado em seu delírio. Logo ficou claro que ele não sabia nada sobre o culto secreto afora o que a sabatina implacável de meu tio deixara escapar, e mais uma vez tentei imaginar alguma maneira pela qual ele pudesse ter recebido as pavorosas impressões.

Ele falou de seus sonhos de uma maneira curiosamente poética, fazendo-me ver, com terrível nitidez, a úmida cidade ciclópica de pedras verdes escorregadias – cuja geometria, comentou casualmente, era toda errada – e ouvir, em suspensa expectativa, o incessante e quase mental chamado das profundezas: “Cthulhu fhtagn”, “Cthulhu fhtagn”. Essas palavras eram em parte do terrível ritual que falava da vigília em sonho do falecido Cthulhu em sua cripta de pedra em R’yleh, e fiquei profundamente comovido a despeito de minhas crenças racionais. Wilcox, com certeza, ouvira falar do culto de maneira casual e logo se esquecera dele em meio à profusão de leituras e fantasias também excêntricas. Mais tarde, sendo muito impressionável, aquilo tinha encontrado expressão subconsciente em sonhos, no baixo-relevo e na terrível estátua que eu agora tinha diante de mim, de forma que sua imposição sobre meu tio tinha sido muito inocente. O jovem era de um tipo um tanto afetado e um tanto rude ao mesmo tempo, de que eu jamais poderia gostar, mas eu já me sentia inclinado a admitir seu gênio e sua honestidade. Despedi-me amistosamente, desejando-lhe todo o sucesso que seu talento promete.

A questão do culto continuava a me fascinar, e às vezes eu tinha vislumbres de glória pessoal com as pesquisas sobre sua origem e suas conexões. Visitei Nova Orleans, conversei com Legrasse e outros participantes daquela antiga batida policial, vi o ídolo assustador e cheguei a inquirir os prisioneiros mestiços sobreviventes. O velho Castro, infelizmente, morrera há alguns anos. O que ouvi de forma tão vívida de primeira mão, conquanto apenas confirmasse em detalhes o que meu tio tinha escrito, animou-me de novo, pois me parecia estar na pista de uma religião muito real, muito secreta e muito antiga cuja descoberta faria de um antropólogo ilustre. Minha atitude ainda era toda materialista, tomara ainda fosse, e desconsiderei com perversidade quase inexplicável a coincidência entre as anotações dos sonhos e os curiosos recortes colecionados pelo professor Angell.

Uma coisa de que comecei a suspeitar, e que agora temo saber, é que a morte de meu tio não fora natural. Ele caíra numa rua enladeirada e estreita que levava a um antigo cais coalhado de mestiços estrangeiros, depois do esbarrão involuntário de um marinheiro negro. Eu não me esquecera do sangue misto e das atividades marinhas dos membros do culto em Louisiana, e não me surpreendia ficar sabendo de métodos secretos e agulhas envenenadas tão implacáveis e tão ancestralmente conhecidas quando os ritos e crenças eram secretos. Legrasse e seus homens, é verdade, não tinham sido afetados, mas na Noruega, um certo marinheiro que vira cosas está morto. As investigações mais profundas de meu tio depois de obter os dados do escultor não poderiam ter chegado a ouvidos sinistros? Creio que o professor Angell morreu porque sabia demais, ou porque, provavelmente, viria a saber demais. Resta saber se irei como ele se foi, pois também sei muito agora.

III. A loucura vinda do mar

Se o céu algum dia quisesse conceder-me uma benção, esta seria apagar de todo os efeitos do acaso que fez meus olhos se fixarem num pedaço de papel que forrava uma prateleira. Não era algo com que eu me teria deparado naturalmente em minhas ocupações diárias, pois se tratava de um número velho de um jornal australiano, o Sydney Bulletin, de 18 de abril de 1925. Ele tinha escapado inclusive à firma de distribuição de recortes que, por ocasião de sua edição, vinha coletando material para a pesquisa de meu tio.

Minhas investigações sobre o que o professor Angell chamava de “Culto de Cthulhu” estavam quase paradas e eu estava de visita a um amigo erudito em Paterson, Nova Jersey, curador de um museu local e mineralogista de renome. Examinando, certo dia, o espécimes de reserva espalhados nas prateleiras de uma sala de fundo do museu, meu olhar foi atraído por uma curiosa ilustração num dos velhos jornais estendidos embaixo das pedras. Tratava-se do Sydney Bulletin que mencionei, pois meu amigo tinha amplas relações no exterior, e a ilustração era uma autotipia recortada de uma repulsiva imagem de pedra quase idêntica à que Legrasse tinha encontrado o pântano.

Retirei, impaciente, as peças preciosas de cima da folha de jornal e examinei minuciosamente a matéria, despontando-me com o pouco que dizia. O que ela sugeria, porém, teve profundas repercussões em minha busca periclitante e recordei com todo cuidado para tomar medidas imediatas. Ela dizia o seguinte:

MISTERIOSO NAVIO PERDIDO ENCONTRADO NO MAR Vigilant chega rebocando iate neozelandês armado e abandonado. Encontrados um sobrevivente e um morto a bordo.

História de batalha desesperada e mortes no mar. Marinheiro resgatado omite detalhes sobre a estranha experiência. Encontrado ídolo estranho em sua posse. Investigações prosseguem.

O cargueiro Vigilant da Morrison Co., com destino a Valparaíso, chegou esta manhã a sua doca no Porto de Darling, rebocando o iate a vapor Alert, combatido e inutilizado mas fortemente armado, de Dunedin, Nova Zelândia, que foi avistado no dia 12 de abril em 34º 21’ de Latitude S. e 152º 17’ de Longitude O. com um homem vivo e um morto a bordo.

O Vigilant deixou Valparaíso em 25 de março, e no dia 2 de abril foi impelido muito ao sul de sua rota por tempestades excepcionalmente violentas e ondas monstruosas. Em 12 de abril, o navio abandonado foi visto, e embora parecesse estar deserto, depois de abordado verificou-se que abrigava um sobrevivente em condições quase delirantes e um homem que, com certeza, estava morto havia mais de uma semana. O vivo estava agarrado a um horrível ídolo de pedra de origem desconhecida, com cerca de trinta centímetros de altura, sobre cuja natureza autoridades da Universidade de Sydney, da Royal Society e do Museu da College Street professaram total perplexidade, e que o sobrevivente fiz ter encontrado na cabine do iate, num pequeno escrínio cinzelado de tipo comum.

Esse homem, depois de recobrar os sentidos, contou uma história muito estranha de pirataria e chacina. Trata-se de Gustaf Johansen, um norueguês de alguma inteligência, e que fora o contramestre da escuna Emma, de Auckland, que zarpou para Callao com uma tripulação de onze homens em 20 de fevereiro. A Emma, dizia ele, foi retardada e empurrada com toda força para o sul de sua rota pela grande tormenta de 1º de março, e em 22 de março, estando em 49º 51’ de Latitude

S. e 128º 34’ de Longitude O. encontrou Alert, manejado por uma tripulação estranha e mal­encarada de canacas e mestiços. Ordenado peremptoriamente a voltar, o capitão Collins se recusou, diante do que a estranha tripulação começou a atirar com selvageria e sem aviso na escuna com a bateria pesada de canhões de bronze que equipava o iate. Os homens da Emma travaram luta, conta

o sobrevivente, e embora a escuna começasse a afundar com os tiros recebidos abaixo da linha d’água, eles conseguiram emparelhar o barco com o inimigo e abordá-lo, enfrentando a tripulação selvagem no convés do iate, e sendo forçados a matar todos, cujo número era um pouco superior, devido ao modo particularmente abominável e desesperado, ainda que canhestro, com que eles lutavam.

Três homens da Emma, inclusive o capitão Collins e o imediato Green, foram mortos, e os oito restantes, comandados pelo contramestre Johansen trataram de manobrar o iate capturado, seguindo em seu curso original para ver se existia alguma razão para a ordem de voltar. No dia seguinte, ao que parece, eles desembarcaram numa pequena ilha, embora não soubesse da existência de nenhuma ilha naquela parte do oceano, e seis dos homens morreram, de alguma forma, em terra, embora Johansen seja curiosamente reticente sobre essa parte de sua história e fale apenas de eles terem caído numa fenda da rocha. Mais tarde, ao que parece, ele e um companheiro subiram a bordo do iate e tentaram manobrá-lo, mas foram fustigados pela tempestade de 2 de abril. Daquele momento até seu resgate no dia 12, o homem pouco se recorda, e nem mesmo se lembra de quando William Briden, seu companheiro, morreu. Não há evidências visíveis da causa da morte de Briden, e é provável que se tenha dado à perturbação mental ou à desproteção. Informações telegráficas de Dunedin relatam que o Alert era bem conhecido ali como um barco mercante na ilha, e possuía uma péssima reputação em todo o cais. Pertencia a um estranho grupo de mestiços cujas reuniões freqüentes e incursões noturnas aos bosques atraíam grande curiosidade, e tinha zarpado com grande pressa pouco depois da tempestade e dos tremores de terra de 1º de março. Nosso correspondente de Auckland confere uma excelente reputação à Emma e a sua tripulação, e Johansen é descrito como homem sóbrio e valoroso. O almirantado vai abrir um inquérito sobre o assunto todo a partir de amanhã, e todos os esforços serão enviados para induzir Johansen a falar mais fracamente do que tem feito até agora.

Isso era tudo, além da imagem da estatueta infernal, mas que associação de idéias desencadeou em minha mente! Ali estavam novas e preciosas informações sobre o Culto de Cthulhu, e evidências de que ele guardava estranhas relações com o mar, assim com a terra. O que teria levado a tripulação mestiça a ordenar que a Emma retornasse enquanto seguiram em frente com seu hediondo ídolo? O que seria a ilha desconhecida onde seis homens da Emma tinham morrido, e sobre a qual o imediato Johansen era tão reticente? O que a investigação do vice­almirantado teria apurado e o que se saberia do abominável culto em Dunedin? E o mais admirável, que relação profunda e sobrenatural de datas era aquela que emprestava um significado maligno agora inegável às diversas viravoltas dos acontecimentos tão cuidadosamente anotadas por meu tio?

Em 1º de março – nosso 28 de fevereiro segundo a linha internacional da data – vieram o terremoto e a tempestade. De Dunedin, o Alert e sua deletéria tripulação tinha partido a toda pressa como se fossem imperiosamente convocados, e no outro lado da Terra, poetas e artistas tinham começado a sonhar com uma estranha cidade ciclópica e úmida, enquanto o jovem escultor tinha modelado, durante o sono, a forma do temível Cthulhu. Em 23 de março, a tripulação da Emma desembarcou numa ilha desconhecida onde deixou seis mortos; e naquela mesma data, os sonhos de homens sensíveis assumiram uma vivacidade acentuada, obscureceram de pavor da perseguição maligna de um monstro gigantesco, enquanto um arquiteto enlouquecia e um escultor mergulhava no delírio! E quanto a essa tempestade de 2 de abril – a data em que todos os sonhos com a cidade úmida cessaram e Wilcox escapou ileso do jugo de estranha febre? O que pensar disso tudo – e das sugestões do velho Castro sobre os Antigos de origem estelar submersos e o advento de seu reinado, seu culto religioso e seu domínio sobre os sonhos? Estaria eu cambaleando à beira de horrores cósmicos que a capacidade humana seria incapaz de suportar? Se assim fosse, deviam ser apenas horrores mentais, pois, de algum modo, o dois de abril dra um fim à qualquer ameaça monstruosa que tivesse começado seu assédio à alma da humanidade.

Naquela noite, depois de um dia de arranjos e telegramas apressados, despedi-me de meu hospedeiro e tomei um trem para San Francisco. Em menos de um mês, eu estava em Dunedin, onde descobri, porém, que pouco se sabia dos estranhos membros do culto que tinham perambulado pelas velhas tavernas do cais. A escória das docas era comum demais para merecer alguma menção especial, embora corressem vagos rumores sobre uma viagem ao interior feita por aqueles mestiços durante a qual se notaram um longínquo rufar de tambores e chamas vermelhas nos morros distantes. Em Auckland, fiquei sabendo que Johansen tinha voltado com os cabelos louros embranquecidos depois de uma inquisição perfunctória e inconclusiva em Sydney, e depois disso vendera sua casinha na West Street e navegara com a mulher para sua velha casa em Oslo. Sobre a sua estarrecedora experiência, ele não diria aos amigos mais do que dissera aos funcionários do almirantado, e tudo que eles puderam fazer foi dar-me seu endereço em Oslo.

Depois disso, fui a Sydney e conversei com marinheiros e membros do tribunal do vice­almirantado, mas foi em vão. Vi o Alert, agora vendido e em uso comercial, no Cais Circular em Sydney Cove, mas de nada me serviu sua aparência vulgar. A estatueta agachada com sua cabeça de choco, corpo de dragão, asas escamadas e pedestal hieróglifo, estava guardada no Museu do Parque Hyde. Eu a estudei atentamente, achando-a de um artesanato muito raro, contendo o mesmo absoluto mistério, terrível antiguidade e sinistra estranheza de material que eu tinha notado no exemplar menor de Lagrasse. Os geólogos, contou-me o curador, a tinha considerado um grande mistério, pois juravam que não havia no mundo uma pedra daquele tipo. Estremecendo, pensei no que o velho Castro tinha dito a Lagrasse sobre os Grandes primitivos: “Eles vieram das estrelas e trouxeram Suas imagens consigo.”

Abalado por uma revolução mental como jamais conhecera, resolvi visitar o contramestre Johansen em Oslo. Navegando até Londres, tornei a embarcar em seguida para a capital da Noruega onde desembarquei, num certo dia de outono, nas docas bem cuidadas à sombra de Egeberg13. O endereço de Johansen, conforme verifiquei, ficava na Cidade Velha do Rei Harold Haardrada, que mantivera vivo o nome de Oslo durante os séculos em que a cidade maior se disfarçara de “Christiana.”14 Fiz o breve percurso de táxi com o coração palpitando, na porta de um velho e bem cuidado edifício com a frente rebocada. Uma mulher de rosto melancólico, de preto, atendeu, causando-me profunda frustração ao me contar, num inglês vacilante, que Gustaf Johansen já não existia.

Não sobrevivera a seu retorno, contou-me a esposa, pois os acontecimentos ao mar, em 1925, tinham acabado com ele. Ele não tinha contado à esposa nada além do que dissera em público, mas tinha deixado um longo manuscrito – sobre “assuntos técnicos” como dizia – escrito em inglês, evidentemente para protegê-la do risco de uma leitura casual. Caminhando por uma estreita viela perto do cais de Gotemburgo, fora atingido e derrubado por um fardo de papel caído de uma janela de sótão. Dois marinheiros indianos ajudaram-no prontamente a se levantar, mas antes que a ambulância chegasse, ele estava morto. Os médicos não encontraram nenhuma causa apropriada para o seu falecimento e atribuíram a problemas cardíacos e à constituição debilitada.

Sentia agora corroer-me as entranhas aquele terror hediondo que jamais me abandonará até que eu também fique em repouso, “por acidente” ou de alguma outra forma. Persuadindo a viúva de que minha conexão com os “assuntos técnicos” de seu marido me intitulava a ficar com o manuscrito, levei o documento e comecei sua leitura no navio para Londres. Era uma coisa simplória, desconexa – o esforço de um marinheiro ingênuo num diário a posteriori - e procurava recordar, dia a dia, aquela última e terrível viagem. Não posso tentar transcrevê-lo literalmente em toda sua nebulosidade e redundância, mas reproduzirei o bastante de seu conteúdo para mostrar por que o som da água contra os costados do navio se tornou de tal forma insuportável para mim que tapei os ouvidos com algodão.

Johansen, graças a Deus, não sabia tudo, apesar de ter visto a cidade e a Coisa, mas eu jamais dormirei tranqüilo enquanto pensar nos horrores que espreitam sem parar por trás da existência no tempo e no espaço, e naquelas blasfêmias profanas de estrelas primitivas que sonham no fundo do mar, conhecidas e veneradas por um culto de pesadelo pronto e ávido para soltá-las no mundo sempre que algum terremoto suspender sua monstruosa cidade de pedra novamente até o sol e o ar.

A viagem de Johansen tinha começado tal como ele contou ao vice-almirantado. A Emma, navegando com lastro, fizera-se ao mar em Auckland, em 20 de fevereiro, e tinha sido atingida em cheio por aquela tempestade provocada pelo terremoto que devia ter desprendido, do fundo do mar, os horrores que povoam os sonhos humanos. De novo sob controle, a embarcação avançava em boa marcha quando foi atacada pelo Alert, em 22 de março, e pude sentir o desgosto do imediato enquanto descrevia seu bombardeio e afundamento. Aos fanáticos mestiços do Alert, ele se refere com perceptível horror. Eles tinham alguma coisa especialmente abominável que parecia quase um dever destruí-los, e Johansen manifesta um espanto ingênuo com a acusação de impiedade feita a seu grupo durante o inquérito judicial. Depois, impelidos pela curiosidade, seguiram em frente no iate capturado sob o comando de Johansen e avistaram uma grande coluna de pedra se projetando para cima da superfície do mar, e em 47º 9’ de Latitude S. e 126º 43’ de Longitude O. chegaram a um litoral combinando lodo, limo e construções de alvenaria ciclópica coberta de ervas daninhas que outra coisa não poderia ser senão a substância tangível do supremo horror sobre a Terra – a pavorosa cidade-defunta de R’yleh, construída em eras imemoriais anteriores à História pelas formas imensas e malignas que se infiltraram das estrelas sombrias. Ali jaziam o poderoso Cthulhu e suas hordas, ocultos em criptas verdes, enlameadas, e expedindo, enfim, depois de ciclos temporais incalculáveis, os pensamentos que espalhavam o terror nos sonhos de pessoas sensíveis e convocavam imperiosamente os fiéis a uma romaria de libertação e restauração. Disso tudo não suspeitava Johansen, mas Deus sabe que ele logo veria o suficiente.

Imagino que um único topo de montanha, a hedionda cidadela encimada por monólito sobre a qual o grande Cthulhu estava enterrado, emergiu mesmo das águas. Quando penso na extensão de tudo que pode estar germinando naquele lugar, tenho vontade de me matar. Johansen e seus homens ficaram admirados diante da majestade cósmica daquela Babilônia gotejante de demônios ancestrais, e devem ter imaginado, sem orientação, que aquilo não pertencia a este nem a qualquer outro planeta são. A admiração com o tamanho descomunal da cidade de blocos de pedra esverdeados, com altura estonteante do grande monólito cinzelado e com a estarrecedora semelhança entre as colossais estátuas e baixos-relevos e a imagem bizarra encontrada num escrínio do Alert, é dolorosamente visível em cada linha da apavorada descrição do contramestre.

Sem conhecer o futurismo, Johansen chegou muito perto dele ao falar da cidade, pois, em vez de descrever alguma estrutura ou edifício definido, ele se atém a impressões gerais sobre os imensos ângulos e superfícies de pedra – superfícies grande demais para pertencerem a qualquer coisa normal ou própria desta Terra, corrompidas por imagens e hieróglifos terríveis. Menciono sua referência a ângulos porque sugere algo que Wilcox me disse sobre seus pavorosos sonhos. Ele disse que a geometria do lugar que via em sonhos era anormal, não euclidiana, sugerindo locais e dimensões repulsivos, diferentes dos nossos. Agora, um marinheiro iletrado sentia a mesma coisa observando a terrível realidade.

Johansen e seus homens desembarcaram num banco de lama inclinado daquela monstruosa Acrópole, e escalaram aos escorregões os titânicos blocos enlameados que não poderiam ser a escada de nenhum mortal. O próprio sol no firmamento parecia distorcido visto através dos miasmas polarizantes que exalavam daquela perversão encharcada, e um misto de ameaça e expectativa, às escondidas, daqueles ângulos loucamente enganosos de rocha entalhada onde se revelava côncavo a um segundo olhar o que se mostrara convexo a um primeiro.

Algo muito parecido com pavor tomara conta de todos os exploradores antes mesmo de avistarem qualquer coisa mais definida do que rocha, limo e mato. Cada um deles teria fugido não fosse por medo da zombaria dos outros, e foi sem muito entusiasmo que eles procuraram – em vão, com se provou – alguma lembrança que pudessem carregar.

Foi Rodriguez, o português, quem escalou a base do monólito e gritou, informando o que tinha encontrado. Os outros seguiram e olharam, cheios de curiosidade, a imensa porta entalhada com o já familiar baixo-relevo em forma de dragão com cabeça de lula. Parecia, segundo Johansen, uma grande porta de celeiro, e todos sentiram que era uma porta devido à verga, umbral e batentes ornamentados que a cercavam, embora não conseguissem ter claro se era horizontal como um alçapão ou inclinada como a porta externa de um porão. Como Wilcox teria dito, a geometria do lugar era toda errada. Não se podia ter certeza se o mar e o chão eram horizontais e, por isso, a posição relativa de tudo o mais parecia irrealmente variável.

Briden tentou forçar a porta em vários pontos, sem resultado. Depois Donovan tateou-a sua borda deliberadamente, pressionando um ponto de cada vez. Ele subiu pela grotesca moldura de pedra – isto é, podia-se chamar aquilo de subir já que não era mesmo horizontal – e os homens se perguntavam como alguma porta no universo podia ser tão imensa. Então, lenta e suavemente, o imenso painel começou a ceder para dentro na parte superior, e eles puderam notar que ele era articulado. Donovan escorregou, ou algo assim, para baixo ou ao longo do batente, juntando-se aos companheiros, e todos ficaram observando o estranho recuo daquele portal com os entalhes monstruosos. Naquela ilusão de distorção prismática, ele se movia de forma anormal, em diagonal, parecendo contrariar todas as regras da matéria e da perspectiva.

A abertura era negra, de uma escuridão quase matéria. Aquelas trevas eram, na verdade, uma qualidade positiva, pois escureciam as partes das paredes internas que deveriam ser reveladas, e exalava para fora como fumaça de sua prisão multimilenar, obscurecendo a olhos vistos o sol, ao escoar para o céu inchado e convexo num adejar de asas membranosas. O cheiro que exalava das profundezas recém-abertas era intolerável, até que Hawkins, que tinha ouvidos muito aguçados, pensou ter ouvido um chapinhar repulsivo no interior. Os homens ficaram atentos e ainda tentaram ouvir quando a Coisa se arrastou, babando, à vista de todos, espremendo Sua imensidade verde e gelatinosa pela passagem escura para o ar exterior infecto daquela venenosa cidade de loucura.

A caligrafia do pobre Johansen quase estancou neste ponto. Dos seis homens que jamais retornaram ao navio, ele acha que dois sucumbiram de puro pavor naquele maldito instante. A Coisa não pode ser descrita – não há linguagem para abismos tão imemoriais de pavor e demência, contradições tão grandes de matéria, força e ordem cósmica. Uma montanha caminhado ou se arrastando. Deus! Não espanta que, por toda a Terra, um grande arquiteto enlouquecesse e o pobre Wilcox delirasse de febre naquele instante telepático! A Coisa dos ídolos, a cria verde e gosmenta vinda das estrelas, tinha despertado para reclamar o que era seu. As estrelas estavam posicionadas uma vez mais e o que um culto ancestral não tinha conseguido deliberadamente, um grupo de inocentes marinheiros tinha obtido por acidente. Após eras incontáveis, o poderoso Cthulhu estava livre outra vez, e ávido de prazer.

Três homens foram varridos pelas patas balofas antes de alguém poder virar-se. Que descansem em paz, se algum repouso existir no universo. Era eles Donovan, Guerrera e Cngstrom Parker. Parker escorregou enquanto os outros três mergulhavam freneticamente em paisagens intermináveis de rocha incrustada de verde para o barco, e Johansen jura que ele foi engolido por um ângulo de parede que não deveria estar ali, um ângulo que era agudo mas se comportava com se fosse obtuso. Assim, só Briden e Johansen conseguiram alcançar o barco e remaram desesperados para o Alert enquanto a monstruosidade montanhosa se deixava cair pesadamente sobre as rochas escorregadias, até parar, hesitante, à beira do mar.

O vapor do navio não estava totalmente extinto, apesar da ida de todos os braços para a praia, e alguns minutos de correria febril de um lado para outro entre a roda do leme e as máquinas foi o que bastou para colocar o Alert em movimento. Devagar, em meio aos horrores distorcidos daquela paisagem indescritível, ele começou a agitar as águas letais, enquanto sobre a estrutura de pedra daquela praia espectral que não era da Terra, a Coisa titânica das estrelas babava e resmungava como Polifemo maldizendo o navio em fuga de Ulisses15. Em seguida, mais audacioso do que os célebres Ciclopes, o poderoso Cthulhu deslizou viscosamente para a água e saiu em perseguição do navio com braçadas de uma potência cósmica e tão imensas que chegavam a formar ondas na superfície do mar. Briden olhou para trás e enlouqueceu, rindo histericamente, e assim seguiu rindo, com intervalos, até que a morte o encontrou, certa noite, na cabine, enquanto Johansen perambulava delirante pelo navio.

Mas Johansen ainda não tinha desistido. Sabendo que a Coisa certamente alcançaria o Alert antes que o navio navegasse a pleno vapor, resolveu fazer uma tentativa desesperada e ajustando a máquina para plena velocidade, correu como um raio para o convés e inverteu o leme. Formou-se um portentoso turbilhão de espuma no abominável oceano, e enquanto a pressão do vapor ia aumentando, e aumentando, o bravo norueguês dirigia a proa da embarcação para o caçador gelatinoso que se erguia acima da espuma imunda com a proa de um galeão infernal. A pavorosa cabeça de lula com tentáculos retorcidos já estava quase alcançando o gurupés do robusto iate, mas implacável, Johansen avançava. Houve um ruído de bexiga estourando, uma sujeira gosmenta de peixe-lula rasgado, um fedor como se um milhar de sepulturas fossem abertas e um som que o cronista não conseguiu pôr no papel. Por um instante, o navio ficou coberto por uma nuvem verde, acre e cegante, e depois restou apenas um fervilhar venenoso a ré, onde – Deus! – a massa plástica dispersa daquela inominável criatura celeste ia vagamente recompondo sua odiosa forma original, enquanto se alargava a distância que a separava, a cada segundo, do Alert que ganhava ímpeto com a pressão crescente do vapor.

Isso foi tudo. Em seguida, Johansen apenas meditou sobre o ídolo na cabine e cuidou da comida para si e para o maníaco risonho ao seu lado. Ele não tentou navegar depois da primeira e corajosa fuga, pois o contra-ataque tinha extraído algo de sua energia. Depois veio a tormenta de 2 de abril e sua consciência se anuviou. Há uma sensação de vertigem espectral por abismos líquidos do infinito, de corridas alucinadas por universos instáveis montado numa cauda de cometa, e de saltos histéricos do poço à lua e da lua novamente ao poço, tudo animado por um coro cachinante dos corrompidos, hilários deuses antigos e dos zombeteiros duendes verdes com asas de morcego do Tártaro.16

Fora daquele sonho, veio a salvação – o Vigilant, o tribunal do vice-almirantado, as ruas de Dunedin e a longa viagem de volta para a velha casa à sombra de Egeberg. Ele não poderia contar – eles o achariam louco. Escreveria tudo que sabia antes da morte chegar, mas sua esposa não devia suspeitar. A morte seria uma bênção se ao menos pudesse apagar as lembranças.

Esse foi o documento que li e coloquei agora na caixa de estanho ao lado do baixo-relevo e dos papéis do professor Angell. Com ele irá esse meu registro – esse teste de minha própria atitude mental, em que se reconstituiu aquele que eu espero que jamais se reconstitua de novo. Considerei tudo de que o universo dispõe para conter o horror, e mesmo os céus de primavera e as flores de verão serão, para sempre, veneno para mim. Mas não creio que minha vida dure muito. Assim como meu tio se foi, como o pobre Johansen se foi, eu irei. Sei demais, e o culto ainda vive.

Cthulhu ainda vive, também, imagino, naquele abismo de pedra que o abrigou desde que o sol era jovem. Sua maldita cidade está novamente submersa, pois o Vigilant navegou até o local depois da tormenta de abril, mas seus agentes em terra ainda urram, cabriolam e matam em torno de monólitos coroado por ídolos em locais desertos. Ele dever ter sido apanhado pelo afundamento enquanto estava dentro de seu abismo negro, senão o mundo estaria agora gritando de pavor e loucura. Quem conhecerá o fim? Aquilo que emergiu pode afundar, e o que afundou pode emergir. A repugnância espera e sonha nas profundezas, e a podridão se espalha sobre as precárias cidades dos homens. Chegará um momento… mas não devo e não posso pensar! Deixem-me rezar para que, se não sobreviver a este manuscrito, meus executores testamentários coloquem a cautela a frente da audácia e cuidem que ele não chegue a outros olhos.

Notas:

  1. Blackwood, Algernon Henry (1869-1951), famoso escritor inglês do gênero horror e muito admirado por Lovecraft. (Nota de Transcrição)
  2. O termo “Cthulhu” é pronunciado comumente como “kuh-THOO-loo” (em português soa algo como: “Katuuluu”, pronunciado rapidamente), por causa da pronuncia indicada na caixa do famoso RPG de nome “Call of Cthulhu” da Chaosium. Entretanto, existem vários estudantes sérios de Lovecraft que preferem a pronúncia como “Cloo-loo”, justificando suas teses em referências dos contos do autor. Fora isto a discussão se estende e encontramos ainda uma série de pronuncias diferentes, mas que na prática nada, ou muito pouco, acrescentam ao termo. O próprio Lovecraft brincava com seus amigos escritores pronunciando hora de uma forma ora de outra. (Nota de Transcrição)
  3. Traduzido no Brasil da versão inglesa resumida e ilustrada The Ilustrated Golden Bough, da monumental obra de antropologia da religião The Golden Bough de Sir James George Frazer, como O Ramo de Ouro, Ed. Guanabara Koogan, 1982.
  4. Margaret A. Murray publicou em 1921 o livro citado, onde defende a tese de que o culto às bruxas, tanto na Europa como na América, tem origem numa raça pré-ariana que foi impelida para um mundo subterrâneo, mas continua à espreita em cantos escondidos da terra.
  5. Esta casa-estúdio foi criada pelo artista de Providence, R.I., Sydney Richmond Burleigh e de fato existe na Rua Thomas nº 77 nesta mesma cidade. Foi utilizada como inspiração para esta história. (Nota de Transcrição).
  6. La Fayette, Marquês de (1757-1834), líder militar e político francês, lutou no bando dos rebeldes das colônias durante a guerra da Independência Americana. (Nota de Transcrição)
  7. Iberville, sieur d’ (Pierre Le Moyne) (1661-1706), explorador famoso e um dos fundadores da Louisiana. (Nota de Transcrição)
  8. La Salle, René-Robert Cavelier (1643-1687), explorador francês famoso pela descoberta de um vale, o qual viria a ser a atual Louisiana, em homenagem ao rei Luís XIV. (Nota de Transcrição)
  9. Sidney Herbert Sime (1867-1945), ilustrador admirado por Lovecraft; Anthony Angarola (1893-1929), ilustrador norte americano de livros.
  10. Livro místico imaginário criado por Lovecraft. Neste grimório desconhecido estariam guardados segredos sobre os Antigos e práticas mágicas. Em “A História do Necronomicon”, o autor nos fala, inclusive com mais detalhes, sobre cidade dos pilares de Irem, citada anteriormente e de cópias secretas do livro preservadas até hoje. É importante dizer que este livro nunca existiu, e Lovecraft apenas se referia a ele nunca criando uma versão do livro, inclusive versões do livro é que não faltam na Internet algumas até ridículas associando Lovecraft ao famoso ocultista A. Crowley e outras besteiras mais. (Nota de Transcrição)
  11. Machen, Arthur (1863-1947), escritor inglês de renome que abordava temas sobrenaturais, admirado por Lovecraft. (Nota de Transcrição)
  12. Smith, Clark Ashton (1893-1961), escritor e artista plástico que além de amigo de Lovecraft era admirado por ele.(Nota de Transcrição)
  13. Bergen, cidade marítima e portuária do sudoeste da Noruega. (Nota de Transcrição)
  14. Oslo foi fundada por Harold III da Noruega por volta de 1050. Destruída em 1624 por um incêndio, Christian IV a reconstruiu batizando-a de Cristiania em sua homenagem. Assim foi até 1925, quando recuperou seu nome histórico. (Nota de Transcrição)
  15. Ulisses, nome latino de Odisseu, na mitologia grega, governador da ilha de Ítaca e um dos chefes do exército grego durante a guerra de Tróia. (Nota de Transcrição)
  16. Tártaro, na mitologia grega, a região mais baixa dos infernos. Segundo Hesíodo e Virgílio, o Tártaro é fechado por portas de ferro e está tão abaixo do mundo subterrâneo de Hades quanto a terra está em relação ao céu. (Nota de Transcrição).

O Sonho de Harvey (Stephen King)

Junto da pia, Janet se vira e subitamente vê seu marido, com quem se casou há quase 30 anos, sentado à mesa da cozinha, de camiseta e cueca branca, olhando para ela. Com uma freqüência cada vez maior ela encontra esse prócer de Wall Street nesse mesmo lugar, vestido dessa mesma maneira, nas manhãs de sábado: com os ombros caídos e o olhar vago, pêlos brancos nas bochechas, tetas masculinas estufando a frente da camiseta, cabelo eriçado feito uma versão envelhecida e emburrecida do Alfafa de “Os Batutinhas” (seriado norte-americano criado em 1922 por Hal Roach que fez sucesso entre as décadas de 20 e 40 nos EUA e se tornou filme em 1994. Alfafa, uma criança com cabelo espetado, é um dos personagens).
Na verdade, porém, ela não acredita que essas aparições silenciosas nas manhãs de sábado se devam a sintomas prematuros da doença, pois em todos os dias da semana, Harvey Stevens está pronto para sair e enfrentar o mundo às 6h45. É um homem de 60 anos que parece ter 50 (bem, 54) quando veste um dos seus ternos mais elegantes e que ainda domina como poucos a arte de armar uma transação, vender com lucro ou comprar barato.
Não, ele está só treinando para envelhecer, pensa ela, detestando a idéia. Tem medo de que ele fique assim toda manhã depois que se aposentar, pelo menos até que ela lhe dê um copo de suco de laranja e lhe pergunte (com uma impaciência crescente e impossível de evitar) se ele quer cereais ou apenas torradas. Tem medo de — ao interromper qualquer coisa que estiver fazendo — encontra-lo sempre sentado ali, sob um raio de sol brilhante demais, Harvey pela manhã, Harvey de camiseta e cueca, com as pernas abertas de modo que ela veja seus parcos dotes físicos (caso ela se preocupe com isso) e aqueles calos amarelados nos dedões de seus pés, que sempre a fazem pensar em Wallace Stevens e o Imperador do Sorvete.
Sentado ali, silencioso e amalucadamente contemplativo, em vez de se aprontar para sair, e se preparar psicologicamente para enfrentar o dia. Deus, tomara que esteja errada. Aquilo faz a vida parecer tão esquálida, tão estúpida de certa forma. Ela fica se perguntando se foi para isso que eles lutaram, criaram três filhas, separaram o inevitável caso extraconjugal dele durante a meia-idade, trabalharam e às vezes (encaremos a realidade) até foram um pouco inescrupulosos? Se é para isso que a gente enfrenta a selva da vida, pensa Janet, para acabar nesse… nesse estacionamento… para que se esforçar?
Mas a resposta é fácil. Ela não sabia. Ela descartava maioria das mentiras ao longo do caminho, mas se aferrara aquela que dizia que a vida era importante. Criara um álbum dedicado às mentiras, e ali elas ainda eram jovens, com possibilidades interessantes: Trisha, a mais velha, usando uma cartola e agitando uma vara de condão feita de papel-alumínio sobre Tim, o cocker spaniel. Jenna, congelada no meio de um salto por cima do chafariz do gramado, com seu fraco por drogas, cartões de crédito e homens mais velhos ainda muito além do horizonte. Stephanie, a mais nova, durante aquele concurso municipal de ortografia, em que a palavra “auspicioso” se revelara a sua Waterloo. Na maioria daqueles retratos (geralmente ao fundo), viam-se também Janet e o homem com quem ela se casara, sempre sorrindo como se fosse contra a lei fazer outra coisa.
Então um dia ela cometera o erro de olhar para trás e descobrira que as mentiras haviam crescido e que aquele homem — que só continuara sendo seu marido por que ela batalhara por isso — estava sentado ali de pernas abertas, umas pernas brancas feito carne de peixe, olhando fixamente para um raio de sol. Deus, talvez ele parecesse ter 54 num terno elegante, mas sentado à mesa da cozinha daquele jeito, parecia ter 70. Setenta e cinco, que diabo. Ele parecia aquilo que “Os Sopranos” chamavam de pateta.
Ela se volta para a pia e espirra delicadamente, uma, duas, três vezes.
— Como elas estão hoje? — pergunta ele, falando das cavidades nasais, das suas alergias. A resposta é que elas não estão muito bem, mas, como um surpreendente numero de coisas ruins, as alergias de verão também têm um lado positivo. Janet não precisa mais dormir com Harvey e brigar por sua cota de cobertores no meio da noite; não precisa mais escutar um ou outro peido abafado enquanto o marido se precipita no sono. Durante o verão ele consegue dormir seis ou até sete horas na maioria das noites, e isso é mais do que suficiente. Quando o outono chegar e Harvey voltar do quarto de hóspedes, o número de horas cairá para quatro, e grande parte disso será um sono perturbado.
Janet sabe que chegará um ano em que o marido não voltará. É, apesar de ela não lhe dizer isso — pois o deixaria magoado, e ela continua a não gostar de magoá-lo; o amor entre os dois se transformou nisso, ao menos da parte dela com relação a ele —, ela ficará feliz.
Ela suspira e enfia a mão numa caçarola com água dentro da pia, apalpando e dizendo: — Até que não estão tão mal assim.
E então, enquanto Janet pensa (não pela primeira vez) que a vida já não esconde nenhuma surpresa ou profundeza marital insondável, Harvey diz com uma voz estranhamente displicente: — Foi bom você não ter dormido comigo ontem à noite, Jax. Tive um sonho ruim. Na realidade, acordei de tanto gritar.
Ela se espanta. Há quanto tempo ele não a chamava de Jax, em vez de Janet ou Jan? Este último apelido secretamente ela detesta. Faz com que ela pense naquela atriz melosa de “Lassie”, que ela via quando criança. O garotinho (Timmy, seu nome era Timmy) sempre caía num poço, era mordido por uma cobra ou ficava preso sobe uma rocha. Que pais eram aqueles, que colocavam a vida de um filho nas mãos de uma porra de uma collie?
Ela se vira para ele novamente, esquecendo a caçarola com o último ovo lá dentro, a água já fora da fervura há tempo suficiente para estar morna. Ele teve um sonho ruim? Harvey? Janet tenta se lembrar de quando foi a última vez em que Harvey mencionou ter tido qualquer tipo de sonho, mas não consegue. A única coisa que lhe vem à memória é uma vaga lembrança dos tempos de namoro dos dois: Harvey dizendo algo como “eu sonho com você”, ela própria jovem o suficiente para achar aquilo meigo, em vez de bobo.
— Você o quê?
— Acordei de tanto gritar, diz ele. Você não ouviu?
— Não, ela responde ainda o fitando. Tenta ver se ele está brincando. É como se fosse uma piada matinal bizarra. Mas Harvey não é homem de brincadeiras. Para ele, humor é contar piadas à mesa de jantar sobre seus tempos no Exército. Janet já ouviu todas no mínimo cem vezes.
— Eu estava gritando umas palavras mas na realidade não conseguia dizer nada. Era como se… não sei… eu não conseguisse fechar a boca em torno das palavras. Parecia que eu tinha tido um derrama. E a minha a minha voz estava mais grave. Nem um pouco parecida com a minha voz verdadeira — diz ele, fazendo uma pausa. — Eu conseguia me ouvir e me obriguei a parar. Mas estava tremendo e tive de acender a luz por um tempo. Tentei mijar mas não consegui. Ultimamente parece que eu sempre consigo mijar, pelo menos um pouquinho, mas hoje, às 2h47 da madrugada, não consegui.
Ele faz uma pausa e fica sentado ali, sob o raio do sol. Janet vê os ciscos de poeira dançando na luz; aquilo parece envolve-lo numa auréola luminosa.
— Que sonho foi esse? — pergunta ela. Uma coisa estranha — essa é a primeira vez em cerca de cinco anos, desde que eles ficaram até tarde da noite discutindo se deveriam vender ou reter as ações da Motorola (acabaram vendendo), em que ela se interessa por algo que ele tem a dizer.
— Nem sei se quero contar a você — diz ele, exibindo uma timidez nada característica. Em seguida se vira, pega o moedor de pimenta e começa a joga-lo de uma ponta para a outra.
— Dizem que, se contamos nossos sonhos, eles não se realizam — diz ela, e surge a “coisa estranha número dois”: subitamente, Harvey parece estar presente ali de uma forma que não lhe parecia havia anos. Até sua sombra, na parede acima da torradeira, parece misteriosamente estar mais presente ali. Ela pensa: “Ele parece ter importância, e qual é o porquê disso? Exatamente quando eu acabo de pensar que a vida é esquálida, por que deveria achar que é consistente? É uma manhã de verão ao final de junho. Estamos em Connecticut. Sempre passamos os meses de junho em Connecticut. Logo um de nós irá pegar o jornal, que será dividido em três partes, tal como a Gália”.
— Dizem mesmo? — pergunta ele, contemplando as idéias com as sobrancelhas erguidas (Janet precisa apará-las novamente, pois já estão com aquela aparência selvagem, e Harvey nunca percebe), jogando o moedor de pimenta de uma mão para outra. Ela gostaria de manda-lo parar. Aquilo já a está deixando nervosa (tal como o negrume exclamatório da sombra dele na parede, tal como as batidas do seu próprio coração, que subitamente, sem razão nenhuma, começou a disparar), mas prefere não perturbar seus pensamentos nesta manhã de sábado.
Harvey larga o moedor de pimenta, e isso não deveria ser problema, mas de certa forma o é, pois o objeto tem uma sombra própria, que se projeta ao longo da mesa feito a sombra de uma peça de xadrez exageradamente aumentada. Até as migalhas das torradas que jazem ali têm sombra, e Janet não entende por que isso deveria assusta-la, mas fica assustada. Ela pensa no gato dizendo a Alice “todos nós somos loucos aqui” e subitamente não quer ouvir o sonho idiota de Harvey, do qual ele despertou aos gritos, parecendo um sujeito com um derrame. Subitamente, ela quer que a vida seja esquálida. A esqualidez é legal, a esqualidez é boa, quem duvida que olhe para as atrizes do cinema. Nada deve ser anunciado, pensa ela febrilmente. Sim, febrilmente; é como se estivesse tendo um daqueles acessos de calor típicos da menopausa, embora ela pudesse ter jurado que aquela bobajada terminara dois ou três anos antes. Nada deve ser anunciado, é sábado de manhã e nada deve ser anunciado.
Janet abre a boca para falar que entendeu a coisa ao contrário, na verdade dizem que, se contamos nossos sonhos, eles se realizam, mas é tarde demais, ele já está falando, e ela pensa que aquilo é o seu castigo por achar que a vida é esquálida. Na realidade, a vida é uma canção de Jethro Tull, espessa como um tijolo. Como ela pode ter pensado outra coisa?
— Sonhei que amanhecia e eu descia para a cozinha — diz ele. — Era sábado de manhã, tal como agora, só que você ainda não tinha acordado.
— Sempre me levanto antes de você nas manhãs de sábado — diz ela.
— Eu sei, mas era um sonho — diz ele pacientemente. Janet olha os pêlos brancos na parte interna das suas coxas, onde os músculos parecem moles, raquíticos. Antigamente, ele jogava tênis, mas foi a muito tempo. Ela pensa, com uma violência nada característica: “Você vai ter um enfarte, meu chapa, é isso que vai acabar com você, e talvez eles pensem em publicar um obituário seu no “Times”; mas, se alguma atriz de filme B da década de 50 ou uma bailarina semifamosa da década de 40 houverem morrido nesse dia, nem isso você vai ter”.
— Mas foi assim mesmo… Quer dizer, o sol estava brilhando aqui dentro — diz ele, erguendo a mão e agitando um turbilhão de ciscos de poeira em torno da cabeça. Janet sente vontade de gritar para que ele não faça aquilo, não perturbe o universo daquela maneira.
— Dava para ver minha sombra no chão.  Ela nunca me pareceu tão brilhante, ou tão espessa — diz ele, fazendo uma pausa e sorrindo. Ela vê que os lábios dele estão muito rachados. — “Brilhante” é uma palavra engraçada para usar em relação a uma sombra, não é? “Espessa” também.
— Harvey…
— Eu fui até a janela e olhei para fora. Vi que havia um amassado na lateral do Volvo do Frank e… não sei como… pressenti que Frank tinha saído para beber e que o carro tinha sido amassado no caminho para casa.
Subitamente, Janet sente que vai desmaiar. Ela própria vira o amassado na lateral do Volvo de Frank Friedman ao ir até a porta para ver se o jornal já chegara (ainda não) e pensara o mesmo, que Frank fora beber no Gourd e batera em alguma coisa no estacionamento. O que teria acontecido com o outro sujeito? Fora exatamente o que ela pensara.
Ela pensa que Harvey também já viu aquilo, que ele está brincando Poe alguma razão insondável. Isso é possível, certamente; o quarto de hóspedes em que ele dorme durante o verão tem vista para a rua. Só que Harvey não faz esse gênero. “Brincar” não é a “praia” de Harvey Stevens.
Ela sente o suor nas faces, na testa e na nuca, e seu coração nunca bateu tão rápido. Realmente parece que algo está se avizinhando, mas por que aquilo deveria estar acontecendo agora? Agora que o mundo está calmo e as perspectivas parecem tranqüilas? Se eu pedi isso, lamento, pensa ela. Ou talvez ela esteja rezando na realidade: Leve isso de volta, por favor, leve isso de volta.
— Eu fui até a geladeira e dei uma olhada lá dentro. Vi uma travessa de ovos cozidos coberta por plástico. Adorei ver aquilo… Eu já queria almoçar às sete da manhã — diz Harvey, rindo. Janet… ou melhor, Jax… baixa o olhar para a caçarola dentro da pia e examina o último ovo que resta ali. Os outros já foram descascados e fatiados em dois, com as gemas retiradas. Estão numa tigela ao lado do secador. Ao lado da tigela há uma jarra de maionese. Ela planejava servir os ovos cozidos no almoço junto com uma salada verde.
— Não quero ouvir o resto — diz Janet, mas numa voz tão baixa que ela mesma quase não se escuta. Antigamente, ela pertencia ao Clube de Drama; agora já nem consegue projetar a voz pela cozinha. Os músculos do seu peito parecem estar todos frouxos, como as pernas de Harvey estariam se tentasse jogar tênis.
— Pensei em comer um só — diz Harvey. — Mas depois pensei: “não”, se eu fizer isso, ela vai berrar comigo. E então o telefone tocou. Corri até lá, porque não queria que você acordasse. Agora vem a parte assustadora. Quer ouvir?

Soluços Sussurrados

Não, pensa ela, perto da pia. Não quero ouvir a parte assustadora. Ao mesmo tempo, porém, ela quer ouvir a parte assustadora, todo mundo quer ouvir a parte assustadora, todos nós somos loucos aqui, e sua mãe realmente dissera que, se contamos nossos sonhos, eles não se realizam. Isso significava que devíamos contar nossos pesadelos e guardar os sonhos bons para nós mesmos, escondê-los como um dente sob o travesseiro.
Eles têm três filhas. Uma delas mora na mesma rua: Jenna, uma divorciada animada, tem o mesmo nome de uma das gêmeas Bush, coisa que detesta. Passou até a exigir que as pessoas a chamem de Jen. Três meninas, coisa que significou muitos dentes sob os travesseiros, muitas preocupações com estranhos que oferecessem balas e caronas em carros, muitos cuidados. Ah, Janet torce para que sua mãe tenha razão, para que contar um sonho ruim seja como enfiar uma estaca no coração de um vampiro.
— Eu atendi o telefone e era Trisha — diz Harvey. Trisha é a filha mais velha, que idolatrava Houdini e Blackstone antes de descobrir os rapazes. — Ela só disse uma palavra a princípio, só “papai”, mas eu sabia que era Trisha. Sabe como nós sempre sabemos?
Sim. Janet sabe como n´s sempre sabemos. Nós sempre sabemos que são nossos filhos, desde sua primeira palavra. Pelo menos até eles crescerem a passarem a pertencerem a outras pessoas.
— Eu disse “oi, Trisha, por que você está ligando tão cedo, meu bem? Sua mãe ainda está dormindo”. A principio não houve resposta. Achei que a ligação tinha caído, mas depois, ouvi uns soluços sussurrados. Não chegavam a ser palavra, só meias palavras. Como se ela estivesse tentando falar, mas sem conseguir emitir nenhum som, porque estava sem forças ou sem fôlego. E foi então que comecei a ficar assustado.

Mal de Alzheimer

Bom, então ele é bem lento, não é? Pois Janet — que era a Jax na Sarah Lawrence, a Jax no Clube de Drama, a Jax que dava beijos de língua incríveis, a Jax que fumava Gitanes e fingia gostar de tragos de tequila —, Janet já está assustada há bastante tempo, já estava assustada entes de Harvey mencionar o amassado na lateral do Volvo de Frank Friedman.
E pensar nisso faz com que ela se lembre da conversa telefônica que teve com sua amiga Hannah há menos de uma semana, a conversa que acabou desembocando em aterrorizantes histórias sobre o mal de Alzheimer. Hannah estava na cidade. Janet enroscara-se junto à janela da sala e ficara olhando para aquele pedaço de terra que eles têm em Westport.
Olhando para todas aquelas belas coisas verdejantes que fazem com que ela espirre e fique com os olhos marejados. Antes que a conversa se desviasse para os casos de Alzheimer, elas haviam falado de Lucy Friedman e depois de Frank. Qual das duas dissera aquilo? Qual das duas dissera “se ele não tomar cuidado com esse negócio de beber e dirigir, vai acabar matando alguém”?
— Então Trisha disse algo que parecia ser “lixa” ou “Lícia”, mas no sonho eu sabia que ela estava… elidindo… essa é a palavra? Elidindo a primeira sílaba, e que na verdade dizia “polícia”. Eu perguntei o que tinha a polícia, o que ela estava tentando dizer a cerca da polícia, e me sentei. Bem ali — diz ele, apontando para uma cadeira no que eles chamam de cantinho do telefone.
— Houve outro silêncio, e depois outras daquelas meias palavras, aquelas palavras sussurradas. Ela estava me irritando tanto com aquilo, que eu pensei, “rainha do drama, sempre foi assim”, mas então ela disse “número”, claro como água. E eu pressenti — da mesma forma quando ela tentava falar “polícia” — que ela tentava me dizer que algum policial havia ligado para ela por não saber o nosso número.

Número Fora do Catálogo

Janet, amortecida, balança a cabeça. Eles haviam decidido retirar o número do catálogo porque os repórteres viviam ligando para Har4vey a respeito da confusão da Enron (uma das maiores empresas de energia dos EUA, que entrou em concordata em 2001 devido a fraudes financeiras).
Não Poe ele próprio ter algo a ver com a Enron, mas porque era uma espécie de perito em grandes companhias de energia. Chegara até a participar de um comitê presidencial alguns anos antes, na época em que Clinton era o manda-chuva e o mundo (ao menos na humilde opinião dela) era um lugar um pouco melhor, um pouco mais seguro.
E embora haja muitas coisas a respeito de Harvey das quais ela já não gosta, Janet sabe perfeitamente bem que ele tem mais integridade que todos aqueles canalhas da Enron juntos. Ela até pode se entediar com a integridade, às vezes, mas sabe muito bem o que é isso. Mas a polícia não tem um jeito de conseguir os números fora do catálogo? Bom, talvez não, quando há pressa em descobrir algo ou avisar alguém. Além disso, os sonhos não têm de ser lógicos, têm? Os sonhos são os poemas do subconsciente.
E agora, como ela já não agüenta mais ficar parada, Janet vai até a porta da cozinha e lança o olhar para aquele dia ensolarado de junho. Vê Sewing Lane, que é a pequena versão deles daquilo que ela supõe ser o sonho americano. Como esta manhã está calma, com um trilhão de gotas de orvalho ainda cintilando sobre a grama! Mas seu coração ainda martela dentro do peito, o suor rola pelo rosto e ela quer dizer a Harvey que ele precisa parar, que não pode contar esse sonho, esse sonho terrível. Precisa lembrar a ele que Jen mora bem ali na rua… Jen, isto é, Jen que trabalha na videolocadora da cidade e que nos finais de semana passa noites demais bebendo no Gourd com gente como Frank Friedman, que tem idade para ser seu pai. Coisa que indubitavelmente, é parte da atração.
— Todas aquelas meias palavrinhas sussurradas, e ela não falava — diz Harvey. — Então ouvi “morta” e pressenti que uma das meninas tinha morrido. Simplesmente pressenti. Não a Trisha, porque ela estava ao telefone, mas Jenna ou Stephanie. E fiquei tão assustado. Na realidade, fiquei sentado ali me perguntado qual delas eu queria que fosse, como a porra da escolha de Sofia. Comecei a gritar com Trisha. “Diga qual foi! Diga qual foi! Pelo amor de Deus, Trish, diga qual foi!” Só depois é que o mundo real começou a fluir novamente… presumindo que existia tal coisa.
Harvey dá uma risadinha e, na luz forte da manhã, Janet vê que há uma mancha avermelhada no meio do amassado no Volvo de Frank Friedman e que no meio da mancha há um trecho escuro que pode ser sujeira ou então cabelo. Ela pode imaginar Frank largando o carro todo torto junto do meio-fio às duas da madrugada, bêbado demais para tentar entrar na alameda, muito menos na garagem… reto é o portão e tudo mais. Ela pode vê-lo cambaleando até a casa com a cabeça baixa, respirando fundo pelo nariz. Viva o touro!
— Nesse ponto eu já sabia que estava na cama, mas ainda escutava aquela voz grava, que não se parecia nem um pouco com a minha; era como a voz de um estranho, que não conseguia terminar as palavras que pronunciava. “Diii-quaaa-fooo, diii-quaaa-fooo.” Era assim que ela soava. “Diii-quaaa-fooo,ish!” Diga qual foi. Diga qual foi, Trish.
Harvey silencia, pensando. Refletindo. Os ciscos de poeira dançam em torno do seu rosto. O sol faz a sua camiseta brilhar tanto que é até difícil fitá-la; é a camiseta de um comercial de sabão em pó.
— Fiquei deitado, esperando que você corresse até lá para ver qual era o problema — diz ele por fim. — Fiquei deitado ali todo arrepiado, tremendo, dizendo a mim mesmo que aquilo era só um sonho, como a gente sempre afaz, é claro, mas também pensando em como a coisa parecia real. E até maravilhosa, de uma forma terrível.

O Sonho de Um Poeta

Ele pára novamente, pensando em como dizer o que vem a seguir, sem perceber que a mulher já parou de lhe dar atenção. A ex-Jax está empregando toda sua mente, todos os seus consideráveis poderes mentais, para se forçar a acreditar que aquilo que ela está vendo não é sangue, e sim a camada de revestimento do Volvo, sob a tinta que foi arrancada. “Revestimento” é uma palavra que o subconsciente dela está ávido por oferecer.
— É incrível, não é, a profundidade da nossa imaginação? — diz ele por fim. — Um sonho como esse é como um poeta… um dos poetas verdadeiramente grandes… deve ver o seu poema. Com cada detalhe nítido e vívido
Ela silencia; a cozinha pertence de novo ao sol e aos ciscos dançantes. Lá fora, o mundo está à espera. Janet olha para o Volvo no outro lado da rua; o carro parece pulsar diante dos seus olhos, espesso feito um tijolo. Quando o telefone toca, ela gritaria se conseguisse ter fôlego, cobriria os ouvidos se conseguisse erguer as mãos. Ela ouve Harvey se levantar e ir até o cantinho. O aparelho toca novamente, e depois uma terceira vez.
É engano, pensa ela. Só pode ser, pois quando contamos nossos sonhos, eles não se realizam.
Harvey diz: — Alô?

William Wilson (Edgar Allan Poe)

IMAGINAI por um Momento que me chamo William Wilson. Meu nome verdadeiro não deve manchar a página virgem que tenho diante dos olhos. Demais, tem ele sido o horror e a abominação do mundo, a vergonha e o opróbrio de minha família. Não terão os ventos indignados levado a sua infâmia incomparável até às regiões mais longínquas do globo?
- Oh! Sou o mais abandonado de todos os proscritos! 0 mundo, as suas honras, as suas flores, as suas aspirações douradas, tudo acabou para mim. E, entre as minhas esperanças e o céu, paira eternamente uma nuvem espessa, lúgubre, ilimitada!
Ainda que pudesse, não quereria encerrar nestas paginas todas as lembranças dos meus últimos anos de miséria e de crime irremissível. Esse período recente da minha vida atingiu, de repente, tais dimensões de torpeza que seria tão horrendo como difícil descrevê-lo. 0 que quero é simplesmente determinar a origem desse súbito desenvolvimento de perversidade. Os homens, em geral, corrompem-se gradualmente; mas, de mim, a virtude desligou-se num momento, de uma vez, como se fora um manto. De uma perversidade relativamente ordinária, passei, com um salto gigantesco, a enormidades mais que heliogabálicas.
Permiti que vos conte do principio ao fim o caso, o acidente fatal, que motivou essa maldição. A morte aproxima-se e a sombra, que a precede, lançou, já, no meu coração, influência benéfica de arrependimento e de paz.
Próximo a atravessar o sombrio vale, suspiro pela piedade (ia dizer pela simpátia) dos meus semelhantes. Quereria convencê-los de que fui arrastado por circunstâncias superiores à resistência humana. Desejaria que descobrisse, na vasta seara de crime que vi desenrolar, algum pequeno oásis de fatalidade para mim. Que concordassem. (e talvez não possam deixar de concordar) que nunca, num mundo cheio de tentações, apareceu alguma coisa igual a esta e que jamais criatura humana sucumbiu vítima de torturas semelhantes.
Em verdade, tudo isto não será um sonho? Acaso não morrerei vitima do horror e do mistério da mais estranha visão de todas as visões sublunares?
Sou o descendente de uma raça conhecida, desde longo tempo, pela força da imaginação e pela extrema irritabilidade de temperamento, e confirmei desde pequeno o caráter tradicional de minha família, caráter que a idade desenvolveu e que veio, mais tarde, prejudicar-me de modo tão terrível como extraordinário.
Meus pais, fracos de espírito e, além disso, sofrendo do mesmo mal, quase nada podiam fazer para modificar os maus instintos que me distinguiam. Ainda assim, fizeram algumas tentativas, mas tão fracas e mal dirigidas, que abortaram inteiramente, convertendo-se em completo triunfo para mim. Desde então, minha voz foi a lei doméstica; e, numa idade em que poucas crianças pensam ainda sair do regaço materno, fui abandonado ao meu livre arbítrio, senhor absoluto de todas minhas ações.
As primeiras lembranças da minha vida de estudante estão ligadas a um casarão exótico, do estilo Isabel, situado numa aldeia tristonha da Inglaterra, semeada de árvores gigantescas, onde as casas eram todas de antiguidade respeitável. Na verdade, era um lugar fantástico, aquela aldeia antiga e venerável, e bem próprio para excitar a imaginação. Mesmo neste momento, sinto no espírito as impressões refrigerantes das suas avenidas, respiro as emanações das suas matas rumorosas, estremeço ainda, com indefinível voluptuosidade, à lembrança das badaladas profundas do sino, atravessando, de hora a hora, com o seu rugido súbito e moroso, a quietação da atmosfera escura. onde mergulhava o campanário gótico da igreja.
A recordação destas lembranças do colégio constitui. hoje, o único prazer que me é dado ainda sentir, imerso na desgraça, como estou (desgraça, ai. demasiado real); perdoar-me-ão procurar consolo bem ligeiro e bem curto nestas minúcias pueris e errantes. Além disso, por vulgares e insignificantes que pareçam, não podem deixar de ter na minha imaginação uma importância circunstancial, por motivo de sua íntima conexão com a época em que distingo agora os primeiros avisos ambíguos do destino, que ( Depois me envolveu tão profundamente na sua sombra. Deixai-me, pois, recordar. )
Como acabo de dizer, a casa era velha e irregular; a propriedade, grande, circundada por um muro de tijolos, alto e sólido, encimado por uma camada de argamassa e vidros quebrados. Aquela muralha, digna de uma prisão, formava os limites do nosso domínio. Não saíamos dali senão três vezes por semana; uma vez aos sábados de tarde, para uns passeios curtos e monótonos pelos campos vizinhos, em companhia dos prefeitos, e duas vezes aos domingos, quando íamos, com a regularidade de um regimento em parada, assistir aos ofícios da manhã e da tarde, na única igreja da aldeia.
0 cura dessa igreja era o reitor do colégio. Com que profundo sentimento de admiração e de dúvida o contemplávamos do nosso banco reservado, quando subia ao púlpito, com passo solene e vagaroso. Aquele personagem venerável, com aspecto tão modesto e tão benigno, vestes tão novas e tão clericalmente ondeantes, cabeleira tão perfeitamente empoada, tão direito e tão importante, podia ser o mesmo homem que, ainda agora, arrenegado e carrancudo, com as roupas todas sujas de tabaco, fazia executar, de palmatória na mão, as leis draconianas do colégio? Oh! gigantesco paradoxo, cuja monstruosidade não tem solução!
Mas, voltemos à descrição do edifício. Num ângulo da parede maciça, havia uma porta ainda mais maciça, solidamente carregada de fechaduras e terminada por um bosque de ferragens denticuladas. Essa porta (que sentimentos profundos ela inspirava) não se abria senão para as três saídas e entradas de que falei. Então, em cada crepitação dos seus gonzos possantes, achávamos uma superabundância de mistério, um mundo completo de observações solenes e de meditações ainda mais solenes.
0 recinto da propriedade era de forma irregular e dividido em muitas partes, das quais três ou quatro das maiores constituíam o pátio do recreio. Esse pátio, situado por detrás da casa, era alisado e coberto de areia, sem árvores nem bancos, nem coisa alguma semelhante: lembro-me perfeitamente. A frente do edifício, havia um pequeno jardim, plantado de buxo e outros arbustos; mas esse oásis sagrado só nos era franqueado em ocasiões solenes, tais como à entrada no colégio, à saída definitiva, ou ainda quando, convidados por algum parente ou amigo, partíamos alegremente para a casa paterna, nas férias do Natal ou de São João.
E a casa? Que curiosa construção apresentava! Para mim, que verdadeiro palácio mágico! Era um nunca acabar de recantos, de subdivisões incompreensíveis. Em qualquer parte que nos . achássemos, era difícil dizer ao certo se estávamos no primeiro ou no segundo andar. De sala para sala, havia sempre três ou quatro degraus a subir ou a descer. Depois, as subdivisões laterais eram incompreensíveis, inumeráveis, com tantas voltas e reviravoltas, que as nossas idéias mais exatas, relativamente ao conjunto da edificação, não eram mais aproximadas do que as que tínhamos do infinito. Durante cinco anos que ali residi, nunca me foi possível determinar exatamente a situação do
* dormitório que eu ocupava, em comunidade com pequeno mais dezoito ou vinte escolares.
A sala do estudo era a maior de todas da casa (e até de todo o mundo, pelo menos me parecia). Era muito comprida, muito estreita, com os tetos baixos e as janelas ogivais. Num canto afastado, de onde emanava o terror, havia um recinto quadrado de cito ou dez pés, que representava o “Sanctum” do nosso reitor, o Rev. Dr. Bransby, durante as horas de estudo.
Noutros dois cantos, viam-se outros compartimentos análogos, objetos de muito menos veneração: contudo, ainda era alvo de terror assaz considerável: um era a cadeira do mestre de belas letras; o outro a do mestre de inglês e de matemática. Espalhados pelo meio da casa, cruzavam-se, numa irregularidade completa, inumeráveis bancos e estantes carregadas de livros velhos e sujos; estas últimas, negras e antigas, estragadas pelo tempo, cobertas de cicatrizes, de letras e de nomes, de figuras grotescas e de outras numerosas obras-primas de canivete, conservavam apenas uns restos do pouco feitio original que noutros tempos haviam tido.
A uma extremidade da sala, estava um enorme balde cheio d’água e, na outra, o relógio de tamanho prodigioso.
Encerrado nos muros daquele colégio venerável, passei, todavia, sem aborrecimento nem mágoas, os anos do terceiro lustro de minha vida. 0 cérebro fecundo da infância não exige um mundo inferior acidentado para se entreter ou divertir; por isso, na monotonia aparente da escola, encontrei impressões mais vivas e mais intensas que todas as que a minha virilidade procurou depois, na devassidão e no crime.
0 meu primeiro desenvolvimento intelectual foi extraordinário, desregrado até. Em geral, os acontecimentos da vida infantil não deixam sobre a humanidade senão impressões mal definidas. Tudo são sombras, lembranças fracas e irregulares, confusão vaga de prazeres ligeiros e de penas fantasmagóricas. Comigo não acontece assim. É necessário que tenha sentido minha infância com a energia de homem feito; tudo o que encontro ainda hoje me está gravado na memória, com traços tão vivos, tão profundos e tão duradouros como as faces das medalhas cartaginesas.
E no entanto, debaixo do ponto de vista ordinário, esses dias mereciam pouca recordação. 0 levantar, o deitar, o estudo das lições, as recitações, os feriados periódicos e os passeios, o pátio do recreio, com suas lutas, os seus passatempos as suas intrigas, e nada mais; mas, tudo isso, por uma magia física que passou, continha uma superabundância de sensações, um mundo rico de incidentes, um universo de emoções variadas e de excitações inebriantes. Oh! bom tempo foi o desse século de ferro!
A minha natureza ardente, entusiasta e imperiosa, deu-me um lugar distinto entre os outros rapazes e pouco a pouco, como era natural, adquiri um poderoso ascendente sobre todos * os que não eram mais velhos do que eu; sobre todos, exceto sobre um. Este um era o aluno que, sem ter comigo parentesco algum, tinha o mesmo nome de batismo e o mesmo nome de família (circunstância pouco notável em si, porque o meu nome, não obstante a nobreza da origem, era um destes apelidos vulgares, que parece ter sido, desde tempo imemorial, por direito de prescrição,
propriedade comum do povo). Nesta narrativa, o nome de Wilson (nome fictício, mas que não está muito afastado do verdadeiro) : só o meu homônimo, entre todos os que, segundo a linguagem do colégio, compunham a nossa classe, ousava rivalizar comigo nos estudos das aulas, nos jogos e nas disputas do recreio, recusar fé absoluta às minhas asserções e submissão completa à minha vontade; em suma, contrariava minha ditadura em todos os casos possíveis. Se jamais houve no mundo despotismo supremo e sem restrição, é o que uma criança de gênio exerce sobre as almas menos enérgicas dos seus camaradas.
A rebelião de William era para mim fonte perene de desgostos, tanto mais que, não obstante a bravata com que afetava tratá-lo, e as suas pretensões, no fundo, temia-o. Não podia deixar de encarar a igualdade que mantinha tão facilmente comigo, como uma prova de verdadeira superioridade, porque, pela minha parte, não era sem grandes e contínuos esforços que conseguia conservar-me à sua altura. Contudo, essa igualdade, ou, antes, essa superioridade, não era reconhecida senão por mim; os outros rapazes, com uma cegueira inexplicável, pareciam não dar por isso.
Wilson parecia igualmente destituído da ambição que me impelia a dominar, e da energia que me dava autoridade. Dir-se-ia que o único móvel da sua rivalidade era o desejo caprichoso de me contradizer, de me assustar, de me atormentar, posto que muitas vezes não pudesse deixar de notar, com sentimento confuso de espanto, de cólera e de humilhação, que o meu rival misturava às impertinentes contradições certos ares de afetuosidade, os mais intempestivos e os mais desagradáveis do mundo. Não podia explicar a mim próprio semelhante conduta, senão supondo-a o resultado de uma presunção insolente, permitindo-se o tom da superioridade e da proteção.
A nossa homonímia, junto ao Fato, puramente acidental, de termos entrado ao mesmo tempo no colégio, espalhara, entre os nossos condiscípulos das classes superiores, a idéia de que éramos irmãos. Ordinariamente, os rapazes grandes não indagam com muita exatidão da vida dos menores. Já disse que William não era, nem no grau mais remoto, aparentado com minha família. Mas, se fôssemos irmãos, teríamos sido gêmeos, porque, depois de ter deixado a casa do Doutor Bransby, soube, por acaso, que o meu homônimo nascera no dia 19 de janeiro de 1813, sendo precisamente esse dia (coincidência notável) o do meu natalício.
Parece incrível que, não obstante a rivalidade de Wilson e o seu insuportável espírito de contradição, não tivéssemos chegado a odiar-nos absolutamente. É verdade que tínhamos todos os dias uma questão, na qual, concedendo-me publicamente a palma da vitória, Wilson não deixava de me fazer sentir, por qualquer forma, que era ele que a tinha merecido. Contudo, um sentimento de orgulho da minha parte, e da sua, uma verdadeira dignidade, mantinha-nos sempre nos termos da estrita conveniência. Ao mesmo tempo, a quase igualdade dos nossos caracteres havia despertado em mim um sentimento que, sem aquela situação hostil, teria progredido em amizade. Realmente, é-me difícil definir os verdadeiros sentimentos que nutria. por ele. Era uma mistura variegada e heterogênea: animosidade petulante, que não chegava a ser ódio; estima, respeito, muito receio e uma curiosidade imensa e inquieta. Para o moralista, é escusado acrescentar que William e eu éramos camaradas inseparãveis.
Em conseqüência dessa ambigüidade de relações, todos os meus ataques contra ele (e, francos ou dissimulados, esses ataques eram numerosos) tinham mais a forma da ironia e da brincadeira, que a da hostilidade séria e determinada. Mas, os meus esforços neste sentido não obtinham grande triunfo, por mais engenhosamente que os planasse – porque o meu homônimo tinha no caráter muita dessa austeridade plácida e reservada que dá aos que a possuem o privilégio de ferir os outros, sem mostrarem nunca o calcanhar de Aquiles. Nunca pude achar nele senão um ponto vulnerável; e isso mesmo era um pormenor físico que, procedendo talvez de uma enfermidade de construção, teria sido respeitado por qualquer antagonista menos encarniçado do que eu. 0 meu homônimo tinha fraqueza do aparelho vocal, que o impedia de levantar a voz acima de um murmúrio muito baixo. Era dessa imperfeição que eu tirava as minhas pequenas desforras.
Wilson tinha diferentes espécies de represálias, mas havia particularmente uma que me fazia ir aos ares. Não sei como chegou a perceber que semelhante futilidade produzia em mim tão grande efeito. Mas, desde que o descobriu, foi o seu gênero de tortura predileto.
0 meu nome de família, tão desengraçado e deselegante, e o meu nome próprio, tão trivial senão tão completamente plebeu, eram para mim, e toda a vida tinham sido, assuntos de grande desgosto. Ora, quando se apresentou no colégio, no mesmo dia da minha chegada, um segundo William Wilson, senti-me logo disposto contra ele, unicamente por se chamar assim, porque seria causa de eu ouvir pronunciar o dobro das vezes essas sílabas que me torturavam os ouvidos, porque a sua vida, no ram-ram das funções ,do colégio, seria, muitas vezes e imitavelmente, confundida com a minha. E, por todas essas razões, desgostei-me ainda mais do nome.
Este sentimento de irritação aumentava em cada circunstância, que tendia a pôr em evidência qualquer semelhança física ou moral entre mim e o meu homônimo. Nesse tempo, ainda eu não tinha descoberto o fato muito notável da paridade das nossas idades; mas via que éramos da mesma altura e achava até certa semelhança nas nossas fisionomias, o que me contrariava solenemente. A fama que corria, e que era geralmente acreditada, nas classes superiores, de que éramos parentes, exasperava-me do mesmo modo. Numa palavra, não havia nada que me encolerizasse mais (bem que eu me contrafizesse o mais possível para não dar a conhecer) do que uma alusão qualquer à nossa semelhança, quer física, quer moral, ou ao suposto parentesco. Todavia, nada me levava a crer que essas analogias tivessem dado lugar a comentários ou houvessem sequer sido percebidas pelos nossos camaradas de classe. Que Wilson as observasse com tanta atenção como eu, era natural; mas o que não era natural era ter descoberto em semelhantes circunstâncias mina tão rica de contrariedades para mim.
Tendo, pois, percebido quanto essas semelhanças me desagradavam, o meu homônimo aumentava-as ainda, arremedando-me com habilidade verdadeiramente prodigiosa.
Copiava-me o gesto, as minhas palavras; adotava o meu vestuário, o meu andar, as minhas maneiras, enfim, nem mesmo a minha voz lhe havia escapado, não obstante o seu defeito constitucional. Não me podia imitar as notas altas, mas o timbre e a entonação eram idênticos. Quando falava baixo, a sua voz era perfeitamente o eco da minha.
Não tentarei dizer-vos até que ponto aquele retrato curioso me apoquentava (porque não posso chamar-lhe. propriamente uma caricatura). A minha única consolação era que só eu notava essa perfeitíssima cópia; assim, não tinha a suportar senão os sorrisos misteriosos e singularmente sarcásticos de Wilson que, satisfeito de produzir no meu coração o efeito desejado, parecia deleitar-se, em segredo, na punhalada que me infligia, sem curar dos aplausos públicos, que o seu engenho lhe teria facilmente conquistado. Como é que os nossos camaradas não compreendiam, não se percebiam as manobras, não tomavam parte naquela maliciosa zombaria? Durante meses de inquietação, foi isto um enigma insolúvel para mim. Talvez que a lentidão graduada da imitação a tornasse menos notável; ou talvez devesse eu, antes, a minha salvação à perfeita mestria do copista que, desprezando a letra” (coisa única que os espíritos broncos podem apreciar na pintura), não se ocupava senão do espírito original. para maior admiração e desgosto da minha pessoa.
Já falei muitas vezes dos cruciantes ares de proteção que ele tomava para comigo e da sua intervenção oficiosa em quase todas as minhas vontades. Essa intervenção vinha, muitas vezes, sob a forma de conselho, conselho que não era dado francamente, mas sugerido, insinuado, 1 e que eu recebia com má vontade, a qual aumentava, à medida que me ia tornando mais velho. Contudo, nesta época longínqua, quero fazer-lhe a estrita justiça de confessar que tôdas as sugestões do meu rival eram ajuizadas e superiores à sua idade, ordinariamente destituída de reflexão e de experiência; que o seu bom-senso, os seus talentos e o seu conhecimento do mundo estavam muito acima dos meus; e que eu seria, hoje, melhor, e, por conseguinte, mais feliz, se não tivesse rejeitado tantas vezes os conselhos encerrados nessas assisadas sugestões, que então me inspiravam tamanho ódio e desprezo.
Por fim, revoltei-me inteiramente contra a sua odiosa vigilância. detestando cada vez mais o que eu considerava insolência intolerável. Disse que, nos primeiros anos da nossa camaradagem, os meus sentimentos para com ele poderiam, noutras circunstâncias, ter-se convertido em amizade; mas, durante os últimos meses que passei no colégio, não obstante a importunidade das suas maneiras habituais ter diminuído consideravelmente, esses sentimentos, numa proporção quase semelhante, tinham propendido para o ódio positivo. Uma vez, presumo que patenteei isto muito claramente, e, desde então, Wilson evitou-me ou simulou evitar-me.
Foi pouco mais ou menos nessa época (se a memória não me engana), numa altercação que tivemos, durante a qual ele perdeu a reserva ordinária, falando e portando-se com negligência quase estranha à sua natureza, que descobri ou imaginei descobrir na sua voz, nos seus modos e na sua fisionomia, geral, alguma coisa que me era muito familiar. Essa descoberta, primeiro, fiz-me estremecer, depois, interessou-me vivamente, trazendo ao espírito visões obscuras da minha primeira infância, recordações confusas, estranhas, resumidas, de um tempo que a memória não podia alcançar. Era como uma idéia extravagante e pertinaz de já ter visto o ser que me falava, em época muito antiga, em.período extremamente remoto, Essa ilusão, todavia, desvaneceu-se tão rapidamente como tinha vindo; não a menciono senão para determinar o dia da última altercação, que tive com o meu singular homônimo.
- 0 velho casarão do colégio, nas suas inumeráveis subdivisões, compreendia muitos quartos grandes, que comunicavam entre si e serviam de dormitório à maior parte dos alunos. Além disso, havia (como não podia deixar de ser numa edificação tão desastrada) uma quantidade de cantos e recantos, (sobras e remates da construção) que o talento econômico do Doutor Bransby tinha igualmente transformado em dormitórios; mas, como eram gabinetes pequenos, não podiam comportar mais de um indivíduo. Um destes quartos era ocupado por Wilson.
Uma noite, ‘ no fim do meu quinto ano de colégio, depois da alteração de que falei, levantei-me, enquanto todos dormiam, peguei num candeeiro e dirigi-me furtivamente, através de um labirinto de corredores estreitos, ao quarto do meu rival. Havia muito que projetava pregar-lhe uma.
partida, uma das tais troças que eu lhe fazia muitas vezes mas das quais, é preciso confessá-lo, nunca colhera grande resultado. Nessa noite, tinha resolvido pôr o meu plano em execução, disposto a fazer-lhe sentir toda a força da acrimônia que me animava contra ele. Quando chequei ao seu quarto, entrei, sem fazer bulha, deixando o candeeiro à porta, coberto com um guarda-luz, e avancei até sentir o ruído da sua respiração tranqüila. Tendo adquirido a certeza de que dormia profundamente, voltei à porta, pequei no candeeiro e aproximei-me novamente do leito.
As cortinas estavam fechadas. Ao abri-Ias, com todo ocuidado, para executar o meu projeto, a luz bateu em chapa no rosto do dormente; ao mesmo tempo o meu olhar caiu sobre a sua fisionomia… Penetrou-me instântanea mente uma sensação de gelo; o coração pulou-me no peito, vacilaram-me os joelhos; apoderou-se de toda a minha alma um horror espantoso, inexplicável! Respirei convulsivamente, aproximando ainda mais o candeeiro. Aquelas feições eram realmente as de Wilson? Sim, eram! eram! Que havia pois de extraordinário no seu semblante para
produzir em mim tal impressão? Contemplei-o durante alguns momentos, trèmulo, convulso; o meu cérebro girava sob a ação de mil pensamentos incoerentes. Êle não era assim, não! nunca chegara a ser assim nas horas ativas em que contrafazia a minha pessoa! Estaria verdadeiramente nos juizes da possibilidade humana, que o que eu via agora fosse unicamente , resultado dessa hábil imitação sarcástica? Gelado de espanto, apaguei o candeeiro, saí silenciosamente do quarto, e deixei para sempre o recinto daquela escola velha e extraordinária.
Depois de um lapso de alguns meses, que passei em casa de meus pais, na completa ociosidade, entrei para o Colégio de Eton. Esse pequeno intervalo bastara para dissipar as lembranças do Colégio Bransby, ou pelo menos para mudar consideravelmente a qualidade dos sentimentos que essas lembranças me inspiravam. 0 acontecimento, que me induzira a deixar o colégio, parecia-me agora efeito de pura imaginação. A realidade, o lado trágico do drama tinha desaparecido completamente. Quando me lembrava de semelhante aventura, admirava até onde pode chegar a credulidade humana, e ria-me da prodigiosa força de imaginação que havia herdado de minha família.
Ora, a minha vida em Eton não era nada própria para diminuir aquela espécie de ceticismo. 0 turbilhão de loucura em que mergulhei imediatamente varreu tudo, absorvendo de uma vez e inteiramente as impressões sólidas e sérias do passado.
Não pretendo, todavia, traçar aqui o curso dos meus miseráveis desregramentos, que nenhuma lei ou vigilância podia deter. Três anos eram passados; três anos perdidos em loucuras, durante os quais a minha alma se habituou ao vicio e o meu corpo adquiriu desenvolvimento quase anormal. Um dia, depois de uma semana inteira de dissipação brutal, convidei alguns estudantes dos mais dissolutos para uma orgia secreta no meu quarto. Reunimo-nos a altas horas da noite, devendo o deboche prolongar-se religiosamente até a manhã do dia seguinte. 0 vinho corria livremente, e outras seduções, talvez ainda mais perigosas, não tinham sido esquecidas. Quando a aurora despontava no oriente, o delírio e a extravagância tinham chegado ao apogeu.
Furiosamente inflamado pela embriaguez e pelas cartas, obstinava-me a propor um “toast” de todo indecente, quando a minha atenção foi subitamente distraída pela entrada precipitada de um criado, anunciando-me que alguém, que parecia estar com muita pressa, pedia para me falar no vestíbulo.
Excitado como estava pelo vinho, aquela interrupção inesperada causou-me mais prazer do que surpresa. Saí do quarto cambaleando, e em poucos segundos achei-me no vestíbulo da casa, uma sala baixa, estreita, alumiada apenas pela fraca luz da aurora, que penetrava através das janelas arqueadas. A pessoa que me esperava era um rapaz pouco mais ou menos da minha altura, vestido com uma roupa de casimira branca, exatamente irmã da que eu trazia nesse momento. Apenas me viu, avançou para mim, agarrou-me pelo braço com um gesto imperativo de impaciência, e murmurou-me ao ouvido: William Wilson. Aquelas palavras a minha embriaguez dissipou-se como por encanto. Havia nos modos do estrangeiro, no tremor nervoso do seu dedo erguido diante dos meus olhos, o que quer que seja sobrenatural. A importância, a solenidade da repreensão contida nas suas palavras baixas e sibilantes, o caráter, o tom, a chave dessas sílabas, simples, familiares, contudo misteriosamente segredadas, fizeram-me estremecer como se na minha alma se houvesse produzido a descarga de uma pilha voltaica.
Durante alguns segundos, o espanto e o terror aniquilaram-me o entendimento; quando voltei a mim, o rapaz tinha desaparecido.
Aquele acontecimento produziu um efeito poderosíssimo sobre minha imaginação desregrada. Contudo, esse efeito foi-se desvanecendo pouco a pouco. Pensei nisso, é verdade, durante muitas semanas, ora entregando-me a sérias investigações, ora permanecendo dias e dias engolfado em mórbidos pensamentos. A identidade do indivíduo, que se intrometia tão obstinadamente nos atos da minha vida, não me deixava dúvidas. Mas, quem era? Quem era William Wilson, de onde vinha e quais os seus fins? Esses pontos ficaram sempre obscuros para mim. De todas as indagações que fiz a seu respeito, só pude saber que um acontecimento súbito o obrigara a deixar o colégio na mesma tarde do dia em que eu fugira. Entretanto, passado certo tempo, deixei de pensar nisso, para me entregar inteiramente aos projetos da minha partida para Oxford.
Apenas chequei àquela cidade (permitindo-me a gene- rosidade pródiga de meus pais o luxo e a opulência tão caros ao meu coração) comecei a rivalizar em prodigalidades com os primeiros herdeiros dos condados mais ricos da Grã-Bretanha.
Incitado ao vicio por semelhantes meios, dei largas à natural propensão, calcando, na embriaguez louca dos meus desregramentos, os obstáculos vulgares da honra e da decência. Mas, seria absurdo demorar-me nos debates de tais extravagâncias. Basta dizer que as minhas dissipações ultrapassaram as de Herodes. Inventando uma multidão de loucuras novas, ajuntei copioso apêndice ao longo catálogo dos vícios que reinavam então na universidade mais devassa da Europa.
Enfim, arrastado pela corrente impetuosa da libertinagem e da cobiça, rebaixei-me ao ponto de adquirir as manhas mais vis dos jogadores de profissão, praticando habitualmente essa ciência desprezível como meio de aumentar a minha fortuna, já avultada, à custa da dos meus camaradas. A enormidade do 4tentado, incompatível com todos os sentimentos de honra e de dignidade, era por isso mesmo a minha salvaguarda. Qual dos meus camaradas, mesmo dentre os mais depravados, teria ousado conceber tal suspeita, do alegre, do franco, do generoso Willíam Wilson, do rapaz mais nobre e mais liberal de Oxford, aquele cujas loucuras, diziam os seus parasitas, não eram senão expansões da mocidade desenfreada, cujos erros não eram senão inimitáveis caprichos, e cujos vícios tenebrosos não passavam de ligeiras extravagâncias!
Deste modo alegre, tinha eu passado dois anos, quando chegou à universidade um rapaz de nobreza recente, chamado Glendinning, rico, diziam, como Herodes Attico, e que não punha muita dúvida em gastar a sua fortuna. Tratei de travar conhecimento com ele, e, vendo que era fraco de inteligência, assinalei-o desde logo para vítima dos meus talentos. Convidei-o a jogar muitas vezes, deixando-o ganhar a princípio, somas consideráveis (conforme a manha habitual dos jogadores). Por fim, o meu plano estando bem pensado, encontramo-nos (eu com a intenção bem firme de fazer das minhas) em casa de um dos nossos camaradas, M. Preston, igualmente conhecido de ambos, mas que, devo dizê-lo, não tinha a menor tenção de fazer jogo em sua casa. Para dar a tudo aquilo melhor aparência, trouxe comigo uma sociedade de oito a dez rapazes, preparando as coisas de modo quê a introdução das cartas parecesse perfeitamente acidental e que a idéia do jogo partisse da própria vítima. Em resumo (para abreviar assunto tão vil), não esqueci nenhuma das espertezas empregadas em casos idênticos, espertezas tão estúpidas e tão sabidas que, custa a crer, haja sempre pessoas assaz simples que se deixem enganar por elas. 0 jogo meu favorito foi o “écarté”.
A noite ia já em mais de meio, quando operei enfim de maneira a ficar com Giendinning por único adversário. As outras pessoas, interessadas pelas proporções grandiosas que ia tomando o nosso combate, tinham largado as cartas e faziam galeria à roda de nós. Glendinning baralhava, dava as cartas e jogava de modo singularmente nervoso; mas, como eu o fizera beber copiosamente durante a primeira parte da noite, imaginei que aquele estado era só efeito da embriaguez. Em pouco tempo, devia-me soma considerável. Então, depois de ter bebido mais um copo de Porto, fez exatamente o que eu tinha previsto: quis dobrar a parada, já muito extravagante. Com uma feliz afetação de resistência e só depois da minha recusa reiterada lhe ter provocado palavras azedas e duras, que deram ao meu consentimento a forma de vingança, cedi. 0 resultado foi o que devia ser. A presa caíra perfeitamente no laço; em menos de uma hora, a sua dívida tinha quadruplicado. Então, notei, com espanto, a palidez terrível ,que substituíra, quase repentinamente, na fisionomia do meu adversário, a vermelhidão do vinho. Digo com espanto,, porque, segundo as informações cuidadosas que tomara sobre Glendinning, imaginava-o prodigiosamente rico, e as somas que ele tinha perdido até ali, se bem que realmente fortes, não podiam (pelo menos assim o supunha eu) embaraçá-lo àquele ponto. Imaginei, ainda, que toda a sua perturbação era produzida pelo vinho e não por qualquer motivo de desinteresse; mas, unicamente para salvaguardar perante os outros rapazes a reputação do meu caráter, ia insistir peremptoriamente para acabar o jogo, quando algumas palavras pronunciadas ao meu lado e uma exclamação de Glendinning, exprimindo o mais completo desespero, me fizeram compreender que o tinha totalmente arruinado. Ser-me-ia difícil dizer a conduta que teria adotado em semelhante circunstância. A situação deplorável da minha vitima sensibilizava e entristecia a todos. Durante alguns minutos de profundo silêncio, senti, a meu pesar, ruborizarem-se-me as faces sob os olhos ardentes de repreensão que me dirigiam os menos endurecidos da sociedade. Confessarei, mesmo, que senti o coração aliviado dum peso intolerável à interrupção extraordinária que se seguiu. De repente, abriram-se de par em par as portas pesadas do aposento com uma impetuosidade tão vigorosa, que toda, as velas se apagaram como por encanto. Mas, antes de se extinguir, a luz deixou-nos ver alguém que entrava, u homem proximamente da minha estatura, embuçado nu capote. Não obstante, as trevas sendo agora completas, só o podíamos sentir no meio de nós. Antes de alguém ter voltado a si do espanto excessivo que produzira em todos aquela violência, ouvimos a voz do intruso:
- Meus senhores, – disse ele “com voz muito baixa”, mas distinta, uma voz inolvidável, que me gelou até à medula dos ossos, – meus senhores, não peço desculpa da minha conduta, porque, procedendo assim, não fiz mais que cumprir um dever. Não conheceis decerto o caráter da pessoa que acaba de ganhar no “écarté” uma soma enorme a Lorde Glendinning. Vou, pois, propor-vos um meio rápido de chegardes a esse importantíssimo conhecimento. Peço-vos, examinai bem o forro do canhão da sua manga esquerda e algumas cartas que achareis nas algibeiras assaz vastas do seu casaco.
0 silêncio em que o escutavam era tão profundo, que teria ouvido o ruído de um alfinete caindo ao chão. 0 desconhecido, mal acabou de falar, partiu tão bruscamente como havia entrado. Quanto a mim, não posso descrever, nem mesmo sei quais foram as minhas impressões! Senti-me agarrado por muitos braços, depois vieram luzes; seguiu-se uma pesquisa na minha pessoa. No forro da manga, acharam-me todas as figuras essenciais do “écarté” e, nas algibeiras do casaco, certo número de baralhos de cartas exatamente iguais aos que usávamos nas nossas reuniões, com a diferença de que as minhas eram daquelas chamadas propriamente boleadas. As cartas principais, sendo ligeiramente convexas do lado Pequeno, e as ordinárias imper- ceptivelmenté convexas do lado grande. Graças a esta disposição, o “ingênuo”, que corta o baralho (como se faz habitualmente) no sentido do cumprimento, corta, invariavelmente, de forma a dar ao parceiro uma carta principal, enquanto que o “esperto”, cortando no sentido da largura, não dará à sua vítima nada que possa levar-lhe vantagem.
Uma tempestade de indignação ter-me-ia feito sofrer menos que o silêncio desdenhoso e os sorrisos sarcásticos que acolheram aquela descoberta.
- Sr. Wilson, – disse o dono da casa, apanhando do chão uma capa magnífica forrada de peles preciosas, – Sr. Wilson, isto é seu (como o tempo estava frio, eu tinha efetivamente trazido uma capa, que tirara ao entrar na sala do jogo); creio – acrescentou, mirando as pregas da capa, com um sorriso amargo – creio que será escusado procurar aqui mais provas da sua arte: bastam-nos as que temos. Espero que compreenderá a necessidade de deixar Oxford; em todo o caso, sairá imediatamente de minha casa.
Aviltado, humilhado até a lama, é provável que tivesse castigado imediatamente aquela linguagem insultante: com alguma violência pessoal, se a minha atenção não estivesse, naquele momento, toda absorvida por um fato verdadeiramente pasmoso. A minha capa era um traste riqussimo, forrada de peles esplêndidas, duma variedade e dum preço extravagante (é inútil dizê-lo). 0 feitio era de fantasia, inventado por mim, porque me ocupava muito de todas essas futilidades luxuosas, levando o furor do dandismo até ao absurdo. Por isso, quando M. Preston me entregou a capa, que apanhara do chão, vi, com espanto vizinho do terror, que já trazia a minha no braço e que aquela, até nos pormenores minuciosos, era perfeitamente semelhante. Não perdi, contudo, a presença de espírito; pequei-a, coloquei-a sobre a minha, sem que os outros dessem por isso, e sai da sala com um olhar ameaçador. Na madrugada seguinte, deixei precipitadamente Oxford e fugi para o continente, coberto de vergonha e de terror.
Fugia em vão! 0 meu destino maldito perseguiu-me triunfante, provando-me que o seu poder misterioso tinha apenas começado. Mal pus os pés em Paris, tive logo uma prova da jurisdição de Wilson. Decorreram anos sem tréguas para mim. Miserável! Em Roma, com que desvê-lo importuno, com que ternura de espectro, veio interpor-se entre mim e a minha ambição! E em Vienal E em Berlim! E em Moscou! Aonde podia eu ir, que não achasse logo uma razão amarga para o amaldiçoar do fundo do coração? Atacado por um pânico indescritível, fugia diante da sua tirania como diante da peste. Fugi até ao fim do mundo, mas fugi em vão!
E sempre, sempre interrogando secretamente: a alma, repetia as minhas perguntas: Quem é? De onde vem?
Que quer? E analisava, então, com minucioso cuidado, as formas, o método, as feições características da sua insolente vigilância. Mas, nem nesse ponto achava nada que pudesse servir de base a uma conjetura. Era uma coisa verdadeiramente notável, que nos casos numerosos em que Wilson tinha recentemente, atravessado o meu caminho, todos os planos derrotados por ele eram loucuras que, se tivessem progredido, teriam fatalmente rematado por uma desgraça. Triste justificação, na verdade, de uma autoridade tão imperiosamente usurpada! Triste indenização dos direitos naturais do livre arbítrio, tão teimosa e insolentemente denegados!
Havia muito tempo que o meu carrasco, posto que exerceu sempre escrupulosamente e com destreza milagrosa a sua mania de “toilette” idêntica à minha, se apresentava em todas as suas intervenções, de maneira a não me mostrar o rosto. Quem quer que fosse esse danado Wilson, por certo semelhante mistério era o cúmulo da afetação e da toleima. Podia, acaso, supor que no meu conselheiro de Eton, no destruidor da minha honra em Oxford, naquele que tinha contrariado a minha ambição em Roma, a minha vingança em Paris, os meus amores em Nápoles e no Egito a minha cobiça, que nesse ente, meu grande inimigo e meu gênio mau. eu não reconhecia o William Wilson do colégio, o homônimo, o camarada, o rival temido e execrado da casa Bransby? Era impossível! Mas, deixai-me chegar à terrível cena que fechou o drama.
Até então, havia-me submetido covardemente ao seu domínio imperioso. 0 profundo sentimento de respeito com que me habituara a considerar o caráter elevado, a majestosa sabedoria, a onipresença e onipotência aparentes de Wilson, misturando com não sei quê de sensação e de terror, que inspiravam as outras feições da sua natureza e certos privilégios, tinham-me incutido a idéia da minha completa fraqueza e impotência, aconselhando-me, humildemente, sem restrição, posto que cheia de tristeza e de repugnância, submissão à sua arbitrária ditadura. Mas, ultimamente, tinha-me abandonado de todo ao vinho, e a sua influência irritante sobre o meu temperamento hereditário tornava-me cada vez mais rebelde a toda qualidade de censura. Entrei a murmurar, a hesitar, a resistir. Depois, pouco a pouco, comecei a sentir a inspiração de uma esperança ardente. Por fim, alimentei, em segredo, no pensamento, a resolução desesperada daquela escravidão.
Era em Roma, durante o carnaval de 18 … ; achava-me num baile de máscaras, no palácio do Duque Di Broglio, de Nápoles. Nessa noite, tinha abusado do vinha ainda mais do que o costume, e a atmosfera sufocante das salas cheias de gente irritava-me de modo insuportável. A difculdade de abrir caminho através da multidão não contribuiu pouco para me exasperar, porque procurava com ansiedade
(não direi com que indigno fim) a jovem, a alegre e bela li uma confiança assaz imprudente, me havia confiado o segredo do “costume” que ela devia trazer ao baile. Tendo-a avistado, finalmente, ao longe, apressava-me a chegar até ela, quando senti alguém que, ao de leve, me tocava o ombro, e depois o tom meu ouvido!
Do lho e extravagante Di Brog o que, com inolvidável, profundo, maldito murmúrio. Voltei-me furioso para aquele que assim me interrompia e agarrei-o violentamente pela gola. Trazia, já se vê, costume igual ao meu; manto espanhol de veludo azul e espada suspensa à cintura por um boldrié carmesim; a cara inteiramente coberta com uma máscara de seda preta.
- Miserável! – exclamei, com a voz enrouquecida pela cólera, que me aumentava a cada sílaba que proferia, – miserável! impostor! Celerado não voltarás mais a perseguir-me, a atormentar-me! Vem comigo ou mato-te aqui mesmo!
Dizendo aquelas palavras, abria caminho da sala do baile para uma pequena antecâmara contígua, arrastando-o irresistivelmente atrás de mim.
Apenas entrei, atirei com ele para longe, de encontro a uma parede; depois, fechei a porta, com uma praga tremenda, e mandei-o desembainhar a espada. Hesitou um segundo; por fim, suspirando ligeiramente, pôs-se em guarda, com silêncio e tranqüilidade extraordinárias.
0 combate não foi longo. Exasperado como estava, por ardentes excitações de toda espécie, sentia no braço a energia e o poder de um exército. Dentro em poucos segundos, levei-o contra a parede e ali, tendo-o à discrição, cravei-lhe repetidas vezes a espada no peito, com a ferocidade de um bruto.
Nesse momento, mexeram na fechadura da porta. Apressei-me a prevenir alguma invasão e voltei imediata- mente para junto do meu adversário agonizante. Mas que linguagem humana pode traduzir o espanto e o horror que se apoderaram de mim, ao espetáculo que, se me deparou!
Durante o curto instante que me afastara, produzira-se nas disposições locais do aposento uma mudança material.
No lugar onde me recordava de não ter visto – nada, estava agora um espelho enorme (no estado de perturbação em que me achava, assim se me afigurou) e, como eu caminhasse para ele, cheio de terror, a minha própria imagem, mas com a cara horrivelmente pálida e toda salpicada de sangue, avançou para mim a passos lentos e vacilantes.
Tal se me afigurava, digo, mas realmente não era assim. Era o meu adversário, era Wilson moribundo, que se erguia diante de mim. A sua máscara e o seu manto estavam no chão. Não havia um fio no seu vestuário, nem uma linha em toda a sua figura (tão caracterizada e tãcr singular) que não fosse meu, que não fosse minha; era o absoluto na identidade!
Era Wilson, mas Wilson sem murmurar já as suas palavras! Falando alto, e de modo que me pareceu que era a minha própria voz, que dizia:
- Venceste e eu sucumbo. Mas, doravante também estás morto, morto para o mundo, para o céu e para a esperança! Em mim existias; e, agora, olha para a minha morte, vê nesta imagem, que é a tua, como te assassinaste a ti próprio!

Ratos do Cemitério (Henry Kuttner)

O Velho Masson, zelador de um dos mais antigos e relaxados cemitérios da cidade de Salem, vivia eternamente às voltas com os ratos. Há gerações atrás, tinham vindo eles dos molhes, dos cais, e se instalaram no cemitério, uma verdadeira colônia de enormes ratos. Quando Masson passou a ocupar o atual cargo, após o desaparecimento inexplicável do outro zelador, decidira dar-lhes caça. A principio, deitara-lhes armadilhas, envenenara comida, que largava pelos buracos, e, mais tarde, experimentara matá-los com uma espingarda, mas nada conseguiu. Os ratos continuavam, multiplicavam-se, infestando o cemitério, com suas hordas inextinguíveis.
Eram enormes, mesmo para o “mus decumanus”, que as vezes chega a medir quinze polegadas, excluindo-se o rabo cinza e rosa. Masson entrevira alguns tão grandes quanto gatos e, quando, certa vez, os coveiros remexeram em suas tocas, os mal odorosos túneis eram tão largos, que permitiriam a passagem de um homem agachado.
Vieram de distantes portos Salem, trouxeram consigo. Os navios, que gerações atrás para os cais arrebentados de estranhas cargas.
Masson frequentemente se admirava do tamanho desses túneis. Lembrava-se vagamente de lendas perturbadoras, que ouvira ao chegar àquela Salem, antiga e povoada de contos de feitiçaria – narrativas de uma vida inumana, moribunda, que se dizia ter existido em tocas esquecidas, nas profundezas da terra. Os velhos dias em que Cotton Mather perseguira os cultos diabólicos, que veneravam Hécate e a Magna Mater, orgias infernais, tinham passado. Mas, escuras e tétricas casas de torres pontiagudas ainda se inclinavam perigosamente umas para as outras em ruelas estranhas. E segredos blasfemos atestavam que, nas suas cavernas e adegas subterrâneas, celebravam-se ainda os ritos negros, que desafiam a sanidade mental. Meneando gravemente a cabeça branca, os mais velhos afirmavam que havia. Poucas cousa piores que ratos infestando a terra esburacad dos antigos cemitérios de Salem.
E, aqui, voltamos à curiosa questão dos ratos. Masson odiava e respeitava os ferozes roedores, pois conhecia o perigo que se desprendia de seu pêlo luzidio e caninos aguçados. Não entendia, porém, o horror que os mais velhos ressentiam pelas casas abandonadas de viventes e infestadas de ratos. Ouvira vagos rumores sobre – espectrais, que perambulam pelos subterrâneos e cujo poder se exerce sobre ratos, a organizá-los como um verdadeiro exército. Os ratos, murmuravam os mais velhos, são os mensageiros entre este mundo e o outro, que se oculta sob a terra de Salem. Cadáveres tinham sido roubados de seus túmulos, para os festins subterrâneos, assim diziam.
Masson não cuidava muito dessas histórias. Não confraternizava com seus vizinhos e tudo fazia, na verdade, para ocultar a existência dos ratos aos intrusos. Investigações, pensava ele, não sem razão, significariam a abertura de inúmeros túmulos. E, conquanto alguns caixões e corroídos, esvaziados mesmo, pudessem ser atribuídos à ação dos ratos, Masson achava difícil explicar os corpos atirados, que jaziam em algumas das tumbas.
0 ouro, o mais puro, é usado na obturação de dentes, o esse ouro não é removido por ocasião do sepultamento. Roupas, está claro, são outro assunto, pois o agente funerário se encarrega de que seu cliente vista as mais baratas possíveis. Mas o ouro não. E, mais ainda: estudantes de Medicina e médicos de reputação duvidosa estão sempre à cata de cadáveres e não se incomodam absolutamente em conhecer a origem desse fornecimento.
Por isso, Masson, até agora, conseguira impedir as investigações. Negara firmemente a existência dos ratos, embora estes lhe roubassem freqüentemente a presa. Masson pouco se incomodava com o que acontecesse aos corpos, depois que neles tivesse exercido sua operação, e os ratos, exoravelnente, arrastavam, o cadáver, através do buraco, roíam na parede do caixão.
0 tamanho desses buracos, às vezes, preocupava Masson. Acrescia, ainda, a estranha circunstância dos sarcófagos serem sempre abertos na parte correspondente às extremidades, nunca no cimo ou nos lados. Poder-se-ia crer que trabalhavam sob as ordens de algum líder impassível e extraordinariamente inteligente.
Neste momento, Masson achava-se de pé, em uma cova descoberta, atirando para o lado os últimos montes de terra. Chovia, uma garoa miúda e fria, que, por se- manas a fio, castigava a terra. 0 cemitério parecia um lamaçal amarelo, de que se destacavam as tumbas, como monstros desordenados.
Os ratos haviam-se retirado para suas tocas e fazia dias que Masson não punha o os sequer num. Seu rosto barbudo e de expressão dura estava totalmente enrugado. 0 caixão que pisava era de madeira.
0 corpo tinha sido sepultado dias antes, mas Masson ainda não ousara desenterrá-lo. Um parente do morto viera ao cemitério, por diversas vezes, arrostando o mau tempo. Confiava, porém, agora, em que não apareceria a horas tão tardias, por maior que fosse a sua dor, pensava Masson, a fazer caretas das mais horríveis. Descansou por instantes.
Da colina, em que estava situado o velho cemitério, divisava as luzes de Salem, tremeluzindo, através da neblina. Tirou uma lanterna do bolso. Precisaria de luz, agora. Empunhou a pá, inclinou-se e examinou a fechadura do caixão.
Parou abruptamente. Sua atenção foi despertada por um leve mexer, sob seus pés, como se algo se movesse dentro do caixão. Um medo supersticioso tomou conta dele, detendo-lhe a respiração, até que percebeu o significado daqueles ruídos. Os ratos tinham-no precedido, despojando-o de sua presa.
Num paroxismo de ódio, Masson arrebentou as ligaduras do caixão, enfiando a ponta da pá entre a tampa e o esquife: propriamente dito. Iluminou-o com a lanterna.
A chuva caiu de encontro ao cetim branco, do forro. 0 caixão estava vazio. Masson percebeu movimento na extremidade do sarcófago e dirigiu a lanterna para ela. Um buraco enorme deixava entrever um sapato preto, que se arrastava vagarosamente, e o homem compreendeu que os ratos o haviam precedido de apenas alguns minutos.
Caiu sobre os joelhos e tentou agarrar o sapato, deixando tombar a lanterna dentro do caixão. 0 sapato não foi, alcançado e ele ouviu um guincho agudo, excitado. Tomou novamente a lanterna, iluminando o buraco.
Era bem grande. Tinha que ser, ou o cadáver não poderia ter sido arrastado por ali. Masson espantou-se ainda uma vez ante o tamanho de ratos, que podiam agúentar com o cadáver de um homem, mas a certeza do remover, que carregava no bolso, confortou-o. Provavelmente, se o cadáver fosse de uma pessoa comum, Masson o deixaria entregue aos raptores e jamais se aventuraria naquela toca, mas estava bem lembrado de que o cadáver vestia uma camisa de linho finíssimo e que seu alfinete de gravata era de pérola. Sem quase refletir, pendurou a lanterna na cinta e engatinhou no buraco.
Era apertado. mas conseguiu passar. Bem à sua frente, podia ver os sapatos que andavam por sobre a terra úmida das profundezas do túnel. Engatinhou o mais rapidamente que pode, às vezes tendo que se arrastar de barriga, por falta de altura.
0 ar era irrespirável. Se não alcançasse o corpo em um minuto, decidiu Masson, voltaria. Terrores subconscientes começavam a fazer-lhe companhia, sem que pudesse evitar, mas o ódio impelia-o para a frente. Arrastou-se, atravessando túneis, que se entroncavam. As paredes eram limosas e por duas vezes bolas de lama caíram sobre e atrás dele. Da segunda vez, parou. Não enxergava. Desatou a lanterna da cinta e iluminou a escuridão.
Torres de terra amontoavam-se atrás dele e o perigo sua posição, de repente, tornou-se real, pavoroso. Com medo de ficar sepultado vivo, resolveu abandonar a perseguição, embora quase alcançado o cadáver e o ser invisível, que o arrastava. Mas, não pensara em uma cousa. 0 túnel era muito estreito, para permitir que ele se virasse. 0 pânico assaltou-o, mas lembrou-se: de um túnel que atravessara havia instantes e de costas; entrou nele girando aos poucos, até poder prosseguir de frente. Rápido tentou encontrar o caminho de volta. conquanto ” Joelhos estivessem machucados e trêmulos.
Uma dor aguda paralisou-lhe a perna. Um dente agudo se enterrara em sua carne. Masson se bateu freneticamente. Ouviu guinchos excitados e o mover de muitos pés. Iluminando com a lanterna, Masson prendeu a respiração, num choque causado pelo susto, ao perceber uma dúzia de enormes ratos, que* o contemplavam firmemente, seus olhos rasgados, brilhando àquela luz. Eram enormes, tão grandes como gatos, e atrás deles entreviu uma sombra negra, que deslizou suavemente. Masson estremeceu ante o descomunal daquela cousa invisível.
A luz os detivera momentaneamente, mas, agora, se aproximavam, os dentes alaranjados devido à iluminação. Masson conseguiu sacar a pistola do bolso e mirou cuidadosamente. Sua posição era péssima. Firmou os pés nas paredes limosas, para não desperdiçar o tiro.
0 ruído espantoso da explosão ensurdeceu-o por instantes e a fumaça provocou-lhe tosse. Quando pode ver e ouvir novamente, os ratos tinham desapareci o. Recolocou a pistola no lugar e quis prosseguir a caminhada de volta, mas, entre guinchos e arrastar de pés, já estavam de novo em cima dele.
Treparam em suas pernas, mordendo e guinchando loucamente. Masson estremeceu, ao procurar o revólver. Atirou sem mirar e unicamente a sorte o livrou de arrancar o próprio pé. Desta vez, os ratos não foram longe, mas Masson corria o melhor que podia, pronto para atirar ao primeiro ruído suspeito.
Novo ruído de pés e o homem iluminou, com a lanterna, atrás de si. Um enorme rato cinzento parou e vigiou-o. Seus longos bigodes moviam-se e o rabo, escabroso e sem pêlos, balançava de um lado para outro. Masson gritou, e o rato afastou-se.
Prosseguiu, detendo-se ante um túnel negro, bem à altura de seu cotovelo, bloqueado por uma massa, que julgou, por instantes, ser terra, desmoronada do teto, para logo verificar, horrorizado, que se tratara de um corpo humano.
Era uma múmia marrom, enrugada, e, por pior que aquilo lhe parecesse, a cousa se movia.
Arrastava-se na sua direção e, à luz da lanterna, a cara horrenda mergulhou na sua. Era um esqueleto de muitos anos, a viver uma vida diabólica. Não tinha olhos, mas buracos, que. inexplicavelmente, brilhavam, através de sua cegueira. E aquilo gritava à medida que avançava para Masson, a boca entreaberta e retorcida. Masson enregelou de pavor e nojo.
Antes que aquele horror o tocasse, Masson enterrou-se no túnel ao lado. Ouviu um arranhar de garras atrás dele, olhando de esguelha, gritou, gritou, enquanto mais enterrava no buraco estreito. Arrastou-se desajeitadamente, sentindo que pedrinhas agudíssimas lhe dilaceravam as mãos e os joelhos. A sujeira penetrara-lhe os olhos, mas não ousava parar. Engatinhava, blasfemando, respirando com dificuldade e rezando histericamente.
Guinchando triunfalmente, os ratos chegaram-se a ele, a fome horrenda escrita nos olhos. Masson quase sucumbiu ante os dentes agudos, mas conseguiu afastá-los. A passagem estreitava-se cada vez mais. No paroxismo do terror, Masson deu pontapés, gritou.
Achou-se, engatinhando, sob enorme pedra, incrustada no teto, que pesava cruelmente nas suas costas. Moveu-se Um pouco, quando foi atingido por seu corpo. Uma idéia atravessou a mente quase enlouquecida do homem. Se pudesse arrancar a pedra e bloquear o túnel!
A terra estava úmida, devido às chuvas e, de cócoras, Masson começou a escavar em torno da pedra. Os ratos se aproximavam cada vez mais. Via-lhes os olhos que brilhavam, a cada tremeluzir da lanterna. A pedra começava a ceder.
Um rato se aproximou – o monstro, que já entrevira. Cinzento e leproso, avançava, com os dentes alaranjados à mostra, rebocando aquela cousa morta; que guinchava à medida que se arrastava. Masson esforçou-se, trabalhando, desesperado, e sentiu que a pedra ia cair. Rápido, continuou a arrastar-se pelo túnel.
Atrás, a pedra ruiu fragorosa, e ouviu-se súbito guinchar de agonia. Torrões de pedra caíam sobre as pernas de Masson, que custava a livrar-se deles. Todo o túnel ia desmoronando!
Respirando com dificuldade, amedrontado, Masson impeliu-se para a frente, percebendo que a terra úmida queria engoli-lo. 0 túnel estava-se estreitando de tal maneira que já não podia usar mais as mãos e pernas para se mover.
Deitou-se de barriga no chão, coleando como uma enguia, mas de repente, quando experimentou erguer-se, descobriu que o teto se achava apenas a centímetros de suas costas. 0 pânico assaltou-o.
Quando o horror cego lhe bloqueara o caminho, atirara-se desesperado para um túnel lateral, túnel que parecia não ter saída! Só agora entendia. Estava num caixão, um caixão vazio, cuja extremidade, como de costume, tinha sido roída pelos ratos.
Experimentou voltar-se de costas, mas não pôde. Se ao menos pudesse levantar a tampa do caixão! Impossível. E, se pudesse escapar do sarcófago, como faria para remover a cinco pés de terra?
Masson arfava. 0 ar irrespirável, fétido, era de um calor infernal. Num paroxismo de terror, arranhou, raspou o cetim do forro, até que este se despedaçou. Com os pés, tentava cavar o monte de terra desmoronada, que lhe bloqueava a saída. Se ao menos pudesse mudar de posição, se pudesse encontrar um pouco de ar… ar…
Agonia amarela, morna, espalhou-se por seu rosto e turvou-lhe os olhos. Sua cabeça parecia intumescer, crescendo, aumentando, sempre mais.
E, de repente, ouviu o guinchar triunfal dos ratos. Pôs-se a gritar feito louco, mas já não conseguia afastá-los. Por momentos, buscou histericamente um refúgio dentro de sua estreita e estranha prisão, e depois aquietou-se, tentando respirar.
Seus cílios desceram sobre os olhos, a língua preta lançou-se fora da boca e ele mergulhou na escuridão da morte, enquanto os ratos, desatinados, banqueteavam-se em suas orelhas.

Camarote 105, Beliche Superior (Marion Crawford)

ALGUEM pediu charutos. Instintivamente, olhamos todos para a pessoa que falara. Brisbane era um homem de trinta e cinco anos, notável por aquelas qualidades que geralmente atraem a atenção dos homens. Era forte. As proporções exteriores de sua figura não apresentavam nada de extraordinário apesar de ser de altura acima do vulgar. Tinha mais de seis pés de altura, e era razoavelmente largo de ombros; não parecia gordo mas também não era magro; a cabeça pequena assentava-se sobre um pescoço forte e vigoroso; as mãos grandes e musculosas tinham uma habilidade notável em partir nozes sem o auxilio do respectivo instrumento, e, ao vê-lo de perfil, ninguém podia deixar de notar a extraordinária largura de suas mangas e a grande largura de seu tórax. Era um desses homens de quem vulgarmente se diz que as aparências enganam; quer dizer, apesar de forte, era, na realidade, muito mais forte ainda do que parecia. Com respeito às feições, pouco tenho a dizer. A cabeça era pequena, tinha pouco cabelo, olhos azuis, nariz grande, pequeno bigode e queixo quadrado. Toda gente conhece Brisbane, e, quando pediu um charuto, todos olharam para ele.
- É uma coisa singular – disse Brisbane. Deixaram todos de falar…
Tenho viajado muito, e, como preciso atravessar o Atlântico bastantes vezes, tenho cá minhas preferências. Muita gente as tem. já vi um homem esperar, num bar da Broadway, durante três quartos de hora até que passasse 0 carro que preferia. Creio que o dono do bar fazia um terço de seu rendimento com a preferência daquele homem.
Tenho o hábito de esperar por determinados navios, quando tenho de atravessar aquele tanque de patos. Será uma asneira, mas nunca tive uma travessia tão má, a não ser uma vez. Recordo-me muito bem: foi numa manhã quente de junho, e os empregados da alfândega, que andavam de um lado para outro, à espera de um vapor que já largara da Quarantine (Lazareto), tinham um aspecto notavelmente sombrio e pensativo.
Eu não levava muita bagagem – nunca a tenho muita. Misturei-me com a multidão de passageiros, moços de frete, e daqueles maçadores vestidos de azul, com botões de latão, que parecem nascer como cogumelos do convés dum navio atracado, para impor violentamente os seus serviços desnecessários ao passageiro independente. já tenho muitas vezes observado, com certo interesse, as evoluções espontâneas destes diabos. Quando se chega, ninguém os vê; cinco minutos depois do piloto ter dito: Pra vante! eles, ou, pelo menos, os casacos azuis e os botões de latão desaparecem do convés e do portaló tão subitamente como se tivessem sido tragados pelo inferno. Mas, no momento da partida, lá estão eles, barbeados, vestidos de azul e esfomeados por gorjetas. Apressei-me a ir para bordo. 0 Kamtschatka era um de meus navios favoritos. Digo, era, porque deixou de o ser. Não posso conceber coisa alguma que me obrigue a viajar outra vez nele. Sim, já sei o que vão dizer. Que tem uma marcha muito rápida, que é bastante alto da proa para não se encharcar, e que a maior parte dos beliches de baixo são duplos. Tem muitas vantagens, mas não torno a viajar nele. Desculpem a digressão. Fui para bordo. Chamei por um criado, cujo nariz vermelho e cujas suíças ainda mais vermelhas me eram igualmente familiares.
- Camarote 105, beliche de baixo – disse ele, no tom decidido de um homem que faz tanto caso em atravessar o Atlântico como de beber um coquetel de uísque no Demoníaco.
0 criado pegou-me na mala, no casaco e na manta. Nunca me esquecerei da expressão do seu rosto. Não que ele ficasse pálido. Os teólogos eminentes asseveram que nem os milagres podem alterar o curso da natureza. Não hesito em dizer que não ficou pálido, mas pela
sua expressão pensei que ia chorar ou espirrar ou deixar cair a mala. Coino esta continha duas garrafas de velho Xerez, muito bom, qu Í e me tinham sido dadas pelo meu velho amigo Quigginson Van Pickyns, senti-me sobressaltado. Mas o criado não fez nenhuma dessas coisas.
- Diabo me levem!… – disse ele em voz baixa, e pós-se a caminhar na minha frente.
Supus que o meu Hermes, que assim me conduzia para as regiões inferiores, tivesse tomado a sua pinga, mas nada disse, e segui-o. 0 camarote 105 ficava a bombordo, bastante à popa. Não tinha nada de notável. 0 beliche de baixo, como a maior parte dos do Kamtschatka eram duplos. Havia muito espaço: tinha o lavatório do costume, bom para dar uma idéia de luxo aos índios da América do Norte; havia os inúteis porta-escovas do costume, nos quais é mais fácil pendurar um grande chapéu de chuva do que uma escova de dentes vulgar de Lineu. Sobre os poucos convidativos colchões, estavam cuidadosamente dobrados aqueles lençóis que um grande humorista moderno comparou muito bem a pastéis de massa frios. A questão das toalhas ficava inteiramente a cargo da imaginação. As garrafas de vinho estavam cheias dum líquido transparente e ligeiramente acastanhado, e exalavam um cheiro mais intenso que a cor do líquido, mas muito menos agradável, subindo às narinas como uma longínqua e nauseabunda reminiscência de óleo de máquinas. Cortinas duma cor triste fechavam quase completamente o beliche de cima. A luz baça de junho iluminava fracamente aquela cena desoladora. Puf! Que má impressão tenho daquele camarote!
0 criado pós minha bagagem no chão e olhou para mim como se quisesse ir-se embora – provavelmente à procura de mais passageiros e mais gorjetas. É sempre bom estar em boas relações com esses funcionários, e por isso lhe dei imediatamente algum dinheiro.
- Farei todo o possível para que o senhor seja bem servido – observou ele, metendo o dinheiro na algibeira.
Contudo, havia na sua voz um tom duvidoso que me surpreendeu. Naturalmente, a sua tabela de gorjetas tinha subido e não se contentava. não se considerava satisfeito; apesar disso, quis-me antes parecer que ele talvez tivesse tomado um copinho a mais. Não tinha razão, e fiz àquele homem uma injustiça.
Nada de especial aconteceu, durante aquele dia. Largamos do cais pontualmente e foi muito agradável começar a navegar, porque o dia estava quente e abafado e o movimento do vapor produzia uma brisa muito fresca. Todos sabem o que é o primeiro dia de viagem no mar. Os passageiros passeiam pelo convés, olham uns para os outros e, de vez em quando, encontram-se com gente conhecida cuja presença a bordo não suspeitavam. Há a incerteza do
costume com respeito à excelência da comida, até que as duas primeiras tirem todas as dúvidas; há a incerteza do costume a respeito do tempo, até que o navio dobre a Ilha do Fogo. As mesas, ao principio, estão cheias e, depois, se despovoam subitamente. Pessoas pálidas abandonam repentinamente os seus lugares e precipitam-se para as portas, e os viajantes experimentados respiram mais livre mente, quando o vizinho enjoado lhes foge do lado, deixando-lhes mais lugar para os cotovelos e um direito ilimitado sobre a mostarda.
Todas as travessias do Atlântico se parecem umas com as outras. E nós, que as fazemos muitas vezes, não viajamos em busca de novidades. Baleias são sempre objetos dignos de interesse, não há dúvida, mas, apesar disso, as baleias parecem-se todas entre si e raramente se vê um iceberg suficientemente de perto. Para a maior parte, o momento mais agradável do dia, a bordo dum transatlântico, é quando damos o último passeio no tombadilho, fumamos o nosso último charuto, e, tendo conseguido fatigar-nos, nos sentimos em liberdade de nos irmos sossegadamente deitar. Na primeira noite de viagem, senti-me muito preguiçoso e fui deitar-me no 105, mais cedo do que tenho por costume. Quando entrei, fiquei muito surpreendido ao ver que ia ter um companheiro. Uma mala muito semelhante à minha estava no canto oposto, e, no beliche de cima, tinha sido colocada uma manta, cuidadosamente dobrada, uma bengala e um chapéu de chuva. Esperava ficar só, e estava desapontado, mas desejei ’saber quem seria o meu companheiro e resolvi espreitá-lo.
Pouco tempo depois de me haver deitado, entrou ele.
Era, pelo que podia ver, um homem muito alto, muito pálido, de cabelo e barbas cor de estopa e com uns olhos de um castanho muito desbotado. Tinha, pensei eu, um ar de elegância duvidosa; como aqueles homens que se encontram em Wall Street, sem que se saiba precisamente o que lá fazem – que freqüentam o Café Anglais, parecem estar sempre sós e que bebem muita champanha; encontram-se também nas corridas de cavalos, sem que pareçam estar ali fazendo alguma coisa. Têm um modo estranho de vestir, bastante afetado, e são um pouco excêntricos. Há sempre três ou quatro dessa espécie a bordo dos transatlânticos. Resolvi-me a não tomar conhecimento com ele e adormeci dizendo comigo que trataria de lhe estudar os
hábitos para me esquivar a quaisquer relações. Se ele se levantasse cedo. eu me levantaria tarde; se deitasse tarde, deitar-me-ia cedo. Não queria conhecê-lo. Se uma vez travamos conhecimento com gente desta espécie, nunca mais nos largam. Pobre diabo! Não era preciso incomodar-me a tomar mais decisões a seu respeito, porque nunca mais o tomei a ver, depois dessa primeira noite no 105.
Estava dormindo profundamente, quando fui acordado por um grande estrondo. A julgar pelo , o meu companheiro devia ter saltado dum pulo do seu beliche para o chão. Senti-o mexer na fechadura da Porta, que se abriu imediatamente. Depois, ouvi os seus Passos correndo a toda pressa pelo corredor, enquanto deixava a porta aberta atrás de si. 0 navio balançava bastante, e esperava ouvi-lo tropeçar ou cair, mas ele corria como se fosse livrar o pai da forca. A porta girou nos gonzos, com o movimento do navio, e o barulho incomodou-me. Levantei-me, fechei-a, e voltei, às apalpadelas, na escuridão, para o meu beliche. Tornei a dormir, mas não tenho a mínima idéia de quanto tempo dormi.
Quando acordei, ainda era completamente escuro, mas senti uma sensação desagradável de frio e pareceu-me que o ar estava úmido. Conhecem o ar particular dum camarote, depois de ter sido molhado com água do mar. Cobri-me melhor que pude e tornei a adormecer, ruminando queixas que havia de fazer no dia seguinte e pensando nas palavras mais violentas que havia de empregar. julguei ouvir o meu companheiro, ao virar-se no beliche de cima. Provavelmente, tinha voltado enquanto eu dormia. Uma vez, pareceu-me ouvi-lo gemer, e julguei que estivesse enjoado. E isso é particularmente desagradável, quando se está por baixo. Apesar disso, continuei a dormir até de madrugada.
0 navio balouçava muito, muito mais que na noite antecedente, e a luz acinzentada que vinha pela vigia mudava de cor conforme o movimento do navio e fazia inclinar para o céu ou para o mar. Estava muito frio – demasiado, para o mês de junho. Voltei a cabeça, olhei para a vigia e vi, com espanto, que estava aberta de par em par e presa atrás. julgo ter praguejado em voz alta. Depois, levantei-me e fechei-a. Quando voltava, olhei para o beliche de cima. As cortinas estavam completamente corridas; com certeza meu companheiro tinha sentido tanto frio como eu. Veio-me a idéia de que já tinha dormido bastante. 0 camarote estava pouco confortável, conquanto, o que era extraordinário, não sentisse a umidade que me tinha acordado durante a noite. 0 meu companheiro dormia ainda – bela ocasião de o evitar, e por isso vesti-me à pressa e fui para o tombadilho.
0 dia estava quente e enevoado, com um cheiro oleoso na água. Eram sete horas, quando saí – muito mais tarde do que tinha imaginado. Encontrei o médico, que estava tomando a sua primeira pitada de ar matutino. Era um rapaz do oeste da Irlanda – um rapagão de cabelo preto e olhos azuis, já começando a engordar; tinha um ar bonacheirão e saudável, que o tornava bastante atraente.
- Bela manhã! – observei eu, para encetar a conversação.
- Sim – disse ele, olhando-me com interesse; é, e não é. Não estou lá muito de acordo.
- Sim… não será lá muito boa – retruquei.
- É o que chamo um dia estúpido – volveu o médico.
- Esteve bastante frio, esta noite – continuei. – Naturalmente, foi por a vigia ter ficado aberta. Não o tinha notado, quando me deitei. 0 camarote também estava úmido.
- Úmido! exclamou ele. – Em qual está o senhor?
- No 105…
Com grande espanto meu, o médico estremeceu visivelmente e olhou para mim admirado.
- 0 que é? perguntei admirado.
- Nada. . . respondeu ele – É que, nestas últimas três viagens, todos se têm queixado desse beliche.
- Também me vou queixar, – respondi – Não foi bem arejado. É uma vergonha!
- Não me parece que isso tenha remédio – respondeu o médico – Tenho idéia de que aí há qualquer coisa, mas não me compete assustar os passageiros.
- Não tenha medo de me assustar. Suporto bem a umidade. Se me constipar, irei ter consigo.
Ofereci um charuto ao doutor, que o examinou demoradamente.
- Não é tanto por causa da umidade – explicou ele
Apesar disso, espero que não se dê mal. Não tem um companheiro?
- Tenho, sim; um diabo que sai a correr no meia da noite e deixa a porta aberta.
0 doutor olhou outra vez para mim, dum modo esquisito. Depois, acendeu o charuto e ficou sério.
- Tornou a voltar? – perguntou, daí a pouco.
- Tornou. Estava dormindo, mas acordei e vi-o mexer-se. Depois, senti frio outra vez. Esta manhã, encontrei a vigia aberta.
- Olhe, – disse o doutor, sossegadamente – não me importo muito com este navio. Não me importo absolutamente nada com sua reputação. Vou dizer-lhe o que vamos fazer. Tenho um bom camarote, lá em cima. Venha partilhá-lo comigo, apesar de nunca o ter visto mais gordo.
Fiquei muito surpreendido com esta proposta. Não podia imaginar donde lhe vinha este súbito interesse pelo meu bem-estar. Contudo, a maneira como falava do navio era singular.
- É muito amável, doutor, – respondi. – Mas continuo a pensar que o camarote se podia arejar ou limpar, ou fazer-se qualquer coisa. Por que é que não gosta do navio?
- Nós, os médicos, não costumamos ser supersticiosos, mas o mar nos faz assim. Não o quero assustar nem sobressaltar, mas, se quiser- seguir o meu conselho, mude-se para o meu camarote. Antes queria vê-lo pela borda afora do que saber que o senhor ou outro qualquer iam dormir no 105.
- Deus do céu! Por quê?
- Porque, nas três últimas viagens, as pessoas que lá dormiram foram pela borda afora – respondeu ele, com modo grave.
Confesso que isto era para espantar e muito desagradável. Olhei fixamente para o médico, para ver se ele estava troçando de mim, mas tinha um ar absolutamente sério. Agradeci-lhe calorosamente a oferta, mas disse-lhe que tencionava ser a exceção à regra pela qual todo o que dormisse naquele camarote iria pela borda afora. Não
respondeu, mas continuou cada vez mais sério e insinuou que, antes de acabarmos a viagem, havia provavelmente de reconsiderar. Entretanto, fomos almoçar; poucos passageiros lá estavam. Notei que um ou dois oficiais que almoçavam conosco estavam preocupados. Depois do almoço, fui ao camarote buscar um livro. As cortinas do beliche de cima continuavam completamente corridas. Não se ouvia uma palavra. Certamente, meu companheiro continuava dormindo.
Quando sai, encontrei o criado ao cargo do qual eu estava. Disse-me em voz baixa que o capitão desejava falar-me. E safou-se pelo corredor, como se desejasse evitar qualquer pergunta. Dirigi-me para o camarote do capitão, onde o encontrei à minha espera.
- Senhor, – disse ele, – quero pedir-lhe um favor.
Respondi que faria tudo para lhe ser agradável.
- 0 seu companheiro desapareceu, – disse ele – Sabe-se que deitou cedo, a noite passada. Notou alguma coisa extraordinária nos seus modos?
Vindo esta pergunta, como veio, confirmar exatamente
os receios que o médico tinha mostrado havia meia hora, ela assustou-me.
- Não quer com isso dizer – que ele foi pela borda
afora? – perguntei.
- Receio que sim – respondeu o capitão.
Isso é a coisa mais extraordinária comecei.
- Por quê? – perguntou ele.
- Então é ele o quarto, – respondi.
Em resposta a outra pergunta do capitão, expliquei, sem mencionar o médico, que já tinha ouvido a história do 105.
Pareceu ficar bastante encabulado ao saber que eu a conhecia. Contei-lhe o que se tinha passado durante a noite.
- 0 que o senhor me diz – respondeu, – coincide quase exatamente com o que me disseram os companheiros de dois dos outros três. Saltam da cama e correm pelo corredor. Dois deles foram vistos ir pela borda afora, pela vigia. Paramos e lançamos os escaleres ao mar, mas não foram encontrados. Ninguém, contudo, viu ou sentiu o homem que se perdeu ontem à noite, se ele está realmente perdido. 0 criado, que é muito supersticioso, talvez esperando que tivesse acontecido qualquer coisa, foi procurá-lo, esta manhã, e encontrou o seu beliche vazio, as roupas espalhadas, como as tinha deixado. 0 criado era a única pessoa a bordo que o conhecia, e tem andado a procurá-lo Por toda a parte. Desapareceu! Agora, quero pedir-lhe o favor de não mencionar nada disto aos outros passageiros; não quero que o navio tome mau nome, e nada se agarra tanto a um navio como histórias de suicídios. Pode escolher qualquer dos camarotes dos oficiais que preferir, incluindo o meu, até o fim da viagem. É isto razoável?
- Bastante, , disse eu. – E estou-lhe muito obrigado. Mas, desde que me encontro só e tenho o camarote somente para mim, prefiro não me mudar. Se o criado tirar as coisas daquele desgraçado, preferirei ficar onde estou. Nada direi a respeito deste assunto, e julgo que lhe posso prometer que não seguirei o exemplo do meu companheiro.
0 capitão procurou dissimular, dissuadir-me do meu propósito, mas eu antes queria ter um camarote só para mim do que ser companheiro de qualquer dos oficiais de bordo. Não sei se procedi com juízo, mas, se tivesse tomado o seu conselho, não teria mais nada a contar. Haveria a desagradável coincidência de se terem dado diversos suicídios dos homens que tinham dormido no mesmo camarote, mas isso teria sido tudo.
Entretanto, não foi este o fim da questão. Tinha-me resolvido obstinadamente a não me deixar intimidar por aquelas histórias, e cheguei, mesmo, a discutir o assunto com o capitão. 0 camarote tinha qualquer coisa. Era bastante úmido. A vigia tinha sido aberta à noite passada. 0 meu companheiro podia ter adoecido, quando veio para bordo e ficado delirante depois de se ter deitado. Podia, mesmo, estar escondido a bordo e ser encontrado mais tarde. 0 camarote precisava ser arejado, e o fecho da vigia consertado. Se o capitão desse licença, eu trataria de mandar fazer já o que julgasse necessário.
- já se sabe que o senhor tem o direito de ficar onde quiser – respondeu ele, um pouco de mau modo. – Mas preferia que o senhor saísse e me deixasse fechar o camarote para acabar com isto.
Eu não via as coisas assim, e deixei o capitão, depois de lhe prometer que não diria nada a respeito do desaparecimento de meu companheiro. Este não tinha conhecidos a bordo, e a sua falta não foi notada durante o dia. A tarde, encontrei o doutor, que me perguntou se já tinha mudado de parecer. Disse-lhe que não.
- Há de fazê-lo muito em breve – observou ele, gravemente – Jogamos o whist durante a noite e fui para a cama tarde. Confesso, agora, que senti uma sensação desagradável ao entrar no camarote. Não podia deixar de pensar no homem alto, que tinha visto na noite antecedente, agora morto, afogado, boiando no mar agitado, 200 ou 300 milhas à popa. 0 seu rosto aparecia-me distintamente, enquanto me despia, e cheguei, mesmo, a afastar as cortinas de cima, como para me persuadir que ele efetivamente não estava lá. Fechei a chave a porta do camarote. De repente, notei que a vigia estava aberta e presa atrás. Era mais do que eu podia suportar! Vesti apressadamente o meu robe-de-chambre, e sai à procura do Roberto, o criado do camarote. Recordo-me que estava deveras zangado, e, quando o encontrei, 1 puxei violentamente até a vigia aberta.
-Para que diabo deixa você a vigia aberta todas as noites, meu patife? Não sabe que, se o navio adernasse e água começasse a entrar, nem dez homens seriam ca- pazes de a fechar? Vou fazer queixa ao capitão, meu patife, por pôr o navio em perigo!
Estava deveras zangado. 0 homem começou a tremer, empalideceu e começou a fechar o grande vidro, com pegados fechos de latão.
Por que não responde? – perguntei, com aspereza.
Não há ninguém a bordo que possa conservar esta vigia fechada, de noite… – gaguejou Roberto – 0 senhor mesmo pode experimentar! Não fico mais a bordo deste navio, isso é que não fico! Mas, se eu fosse o senhor, fria dormir com o cirurgião, lã isso é que igual. Olhe cá, isto *M está bem fechado? Experimente o senhor a vigia, se ela se move sequer uma polegada!
Experimentei a vigia e vi que estava perfeitamente cerrada.
- Pois bem – continuou Roberto, com voz triunfante,
Perca eu minha reputação de criado de primeira classe se em meia hora ela não estiver aberta outra vez. E atada atrás, senhor, isso é que é terrível, atada atrás!…
Examinei o parafuso e a porca.
- Se ela se abrir durante a noite, Roberto, dou-lhe uma libra. Não é possível, pode ir-se embora.
- Uma libra, disse o senhor? Muito bem. Obrigado, senhor. Muito boa noite, estimo que durma bem.
Roberto safou-se, encantado por se ver livre. Já se sabe que pensei que ele procurava desculpar a sua negligência, com uma história tola, para me assustar, e não o acreditei. A conseqüência disto foi que ele apanhou a libra e que passei uma noite muito desagradável.
Meti-me na cama e, cinco minutos depois de me haver enrolado nos lençóis, o inexorável Roberto apagou a luz, que estava acesa por detrás da bandeira, ao pé da porta.
Conservei-me tranqüilo na escuridão. tentando adormecer, mas depressa vi que isso era impossível. Tinha sentido algum prazer em zangar-me com o criado, e isto havia feito desaparecer a sensação desagradável, que sentira a princípio, quando pensava no afogado que tinha sido meu companheiro de quarto, mas já não tinha sono e conservei-me acordado durante algum tempo, olhando, de vez em quando, para a vigia, que podia ver de onde estava, e que, na escuridão, parecia um prato de sopa um pouco luminoso, suspenso nas trevas. julgo que estive assim durante uma hora, e ia adormecer, quando fui despertado por uma corrente de ar frio e por sentir distintamente a espuma do mar bater-me na cara. Pus-me em pé de repente, e, não tendo dado desconto na escuridão, ao balanço do navio, fui violentamente arremessado através do camarote sobre o sofá que estava colocado por baixo da vigia. Levantei-me imediatamente e pus-me de joelhos em cima dele. A vigia estava outra vez aberta, e amarrada atrás.
Ora, isto são fatos! Estava completamente acordado, quando me levantei, e mesmo se o não tivesse teria acordado com a queda que dei. Além disso, esfolei muito os coto- velos e joelhos e, na manhã seguinte, as contusões tê-lo-iam provado, se por acaso eu estivesse em dúvida.
A vigia que estava completamente aberta e presa atrás, coisa tão extraordinária que me lembro muito bem ter sentido mais espanto do que medo quando dei por isso. Fechei imediatamente o vidro e atarrachei o fecho com toda a minha, força. Fazia muito escuro, no camarote. Refleti que a vigia se tinha aberto pouco mais ou menos uma hora depois que Roberto a fechara na minha presença, e resolvi observar se ela se tornava a abrir. Aqueles fechos de latão são muito pesados e nada fáceis de mover; não podia acreditar que o gonzo se tivesse movido com o estremecer do parafuso. Fiquei a olhar através do vidro grosso para as faixas, alternadamente brancas e cinzentas, do mar que espumava ao lado do navio.
Devia estar ali durante um quarto de hora.
De repente, quando me pus em pé, ouvi distintamente alguma coisa mover-se, atrás de mim, num dos beliches, e, um instante depois, quando instintivamente me virava para olhar – apesar de não poder ver na escuridão – senti um gemido muito fraco. Dei um pulo através do camarote, e afastei as cortinas do beliche de cima, metendo as mãos dentro para ver se estaria lá alguém. Estava lã alguém, efetivamente.
Lembro-me que a sensação que tive, quando estendi as mãos, foi a de as ter mergulhado no ar duma cave úmida. E. detrás da cortina, veio uma lufada de vento, que cheirava horrivelmente a água salgada que se tivesse estagnado. Agarrei em qualquer coisa que tinha a forma dum braço humano, mas liso, molhado e frio de gelo. De repente, porém, quando puxava, a criatura saltou violentamente sobre mim, numa massa peganhosa e lamacenta, segundo me pareceu, pesada e úmida, mas dotada duma espécie de força sobrenatural. Cambaleei e, num instante, a porta abriu-se e a coisa saiu. Não tive tempo de me assustar e, levantando-me rapidamente, voltei pela porta e corri atrás daquilo com toda a minha velocidade, mas já era tarde. Dez varas adiante de mim, pude ver – tenho a certeza que vi! – uma sombra escura movendo-se na luz incerta do corredor, tão depressa como a sombra dum cavalo ligeiro projetada numa noite escura pela lanterna. Mas num instante desapareceu e dei comigo agarrado ao corrimão que volta do corredor para a escotilha. Tinha os cabelos em pé e um suor frio corria-me pela cara. Estava muito assustado, do que não me envergonho nada,
Apesar disso, duvidava ainda dos meus sentidos e tentei raciocinar friamente. Era absurdo, pensava eu. 0 Welsh rabbitt, que comera ao jantar, tinha-me feito mal. Tinha sido um pesadelo. Voltei para o camarote e entrei nele com esforço. Cheirava tudo a água salgada que se tivesse estagnado como quando acordara na noite antecedente. Tive que empregar toda a minha força moral para entrar e procurar, às apalpadelas, uma caixa de fósforos de cera. Quando acendi uma lanterna portátil, que ler, depois de se estava outra vez aberta e começou a apoderar-se de mim uma espécie de terror que nunca tive e que não desejo tornar a sentir. Todavia, comecei a examinar o beliche de cima, esperando encontrá-lo cheio de água do mar.
Mas fiquei desapontado. A cama tinha sido ocupada e o cheiro do mar era muito forte; mas as roupas estavam perfeitamente secas. Pensei que Roberto não tivera ânimo para fazer a cama, depois do acidente da noite passada, tudo tinha sido um sonho horroroso! Abri as cortinas o mais possível e examinei tudo cuidadosamente. Estava bem enxuto. Mas a vigia se achava outra vez aberta.
Numa espécie de profundo terror, tornei a fechá-la e, metendo uma bengala muito forte na argola do parafuso, apertei-o com toda a força até que ele começou a entortar. Depois, pendurei a lanterna no veludo encarnado, à cabeceira da cama, e sentei-me para tentar refazer-me do susto, se pudesse. Fiquei ali toda a noite, sem poder pensar em descansar, sem quase poder pensar. Mas a vigia continuou fechada, e eu não cria que agora se pudesse abrir sem uma força extraordinária.
A manhã despontou, por fim, e vesti-me vagarosamente, pensando era tudo o que tinha acontecido durante a noite. Estava um belo dia, e fui para o tombadilho, satisfeito por ir para o sol límpido da manhã e por respirar a brisa que vinha da água azul, tão diferente do cheiro insalubre e estagnado que havia no camarote. Instintivamente, dirigi-me para a popa, ao camarote do médico. Ele lá estava, de cachimbo na boca, gozando o ar da manhã, exatamente como no dia antecedente.
- Bons dias! – cumprimentou, tranqüilamente, mas, olhando para mim com evidente curiosidade.
- Doutor, o senhor tinha razão, – disse eu. – Há, efetivamente, qualquer coisa naquele camarote. -
- Bem me parecia que havia de mudar de opinião! volveu ele, em tom triunfante. – Passou mal a noite, não é verdade? Quer que lhe dê um cordial? Tenho uma receita esplêndida!
- Não, obrigado, – agradeci. – Mas gostaria de lhe contar o que aconteceu.
Tentei, em seguida, explicar, tão claramente quanto possível o que se tinha passado, não escondendo que levara um susto como nunca apanhara na minha vida. Demorei-me mais particulamente no caso da vigia, que era um fato que eu podia afirmar, mesmo que o resto tivesse sido ilusão.
Havia-a fechado duas vezes, durante a noite, e, da segunda vez, tinha até torcido o fecho, ao apertá-lo com a bengala. Tenho idéia de que insisti muito neste ponto.
- 0 senhor parece pensar que duvido da sua história, – disse o doutor, sorrindo-se, ao ouvir a descrição minuciosa do estado da vigia. – Não tenho a menor dúvida. Tomo a fazer-lhe o mesmo convite: traga as suas malas e venha para o meu camarote.
- Venha o doutor para o meu, por uma noite. Ajude-me a investigar o fundo de tudo isto.
- 0 senhor vai investigar, mas é outra qualidade de fundo, se persistir em tentar isso.
- Qual? – perguntei eu.
- 0 fundo do mar. Vou deixar este navio. Não é seguro.
- Então, não me ajuda a procurar?…
- Qual história! – exclamou o doutor vivamente. Tenho obrigação de conservar o juízo e não de me ir meter com fantasmas e coisas do outro mundo!
- Mas pensa que, na realidade, seja um fantasma? perguntei, eu, um pouco desdenhosamente. Mas, de repente, lembrei-me da horrível sensação de qualquer coisa sobrenatural que se apoderara de mim na noite antecedente. 0 doutor voltou-se decidido para mim.
- Acha alguma explicação racional para esses fatos? – perguntou ele. – Não, não acha! Bem, o senhor diz que há de arranjar uma explicação. Eu afirmo que não arranjará, muito simplesmente porque não há explicação alguma.
- Mas, meu caro senhor, – retorqui eu, – então o senhor, um homem de ciência, diz-me que essas coisas não se podem explicar?
- Digo, – respondeu ele, com energia. – E, se o pudessem ser, eu é que não quereria tomar parte na explicação.
Não me agradava nada passar outra noite sozinho no camarote, contudo, estava resolvido a determinar a origem daquilo tudo. Não creio que haja muitos homens que dormissem lá sozinhos, depois de passarem as duas noites que eu passei. Mas resolvi tentá-lo, se não encontrasse alguém que quisesse ficar comigo. Evidentemente, o médico não se sentia inclinado a tentar a experiência. Dizia que era médico, e que, no caso de se dar algum acidente a bordo, precisava estar a postos. Tinha de estar com a cabeça no seu lugar. Talvez tivesse razão, mais inclino-me a pensar que todas estas precauções eram causadas pelo medo. Informou-me que não havia ninguém a bordo que me acompanhasse nas minhas investigações, e, depois de mais algumas palavras, deixei-o. Dai a pouco, encontrei
o capitão e contei-lhe o caso. Disse-lhe que, se ninguém quisesse passar a noite comigo, pedia que deixassem a luz acesa toda a noite e que eu tentaria a experiência sozinho.
- Olhe, – disse ele, – vou lhe dizer o que farei. Ficarei consigo, e veremos o que acontece. Tenho a certeza de que nós ambos havemos de dar com o caso. Talvez haja alguém escondido a bordo, que apanhe uma passagem de graça, assustando os passageiros. Talvez haja mesmo alguma coisa a consertar no beliche.
Observei que seria bom levarmos o carpinteiro, para examinar o beliche; fiquei muito satisfeito com o oferecimento do capitão para passar a noite comigo. Mandou chamar o carpinteiro e disse-lhe que fizesse o que eu ordenasse. Descemos imediatamente. Desmanchei a cama do beliche de cima e examinamos tudo para ver se haveria alguma tábua solta ou algum caixilho que pudesse ser aberto ou empurrado. Experimentamos todas as tábuas, sondamos o chão, desaparafusamos o beliche de baixo e desmanchamo-lo todo; em suma, não houve um centímetro quadrado que não fosse revistado e experimentado. Estava tudo em perfeita ordem e pusemos tudo outra vez no seu lugar. Quando estávamos acabando a nossa tarefa, Roberto chegou à porta e olhou para dentro.
- Então, senhor, o que é que encontrou? – perguntou ele com um sorriso macabro.
- Tinha razão, a respeito da vigia, Roberto,
disse eu, dando-lhe a libra prometida.
0 carpinteiro trabalhava em silêncio e com jeito, seguindo as instruções que lhe dava. Quando acabou, disse-me:
- Eu sou um homem franco, senhor. Tenho a convicção de que o melhor era o senhor tirar daqui as suas
Cousas, e deixar que eu aparafuse a porta do camarote. Este camarote ainda não deu nada de bom. Já, aqui, morreram quatro pessoas, que eu saiba, e isto em quatro viagens. É melhor deixá-lo, meu senhor, é melhor deixá-lo!
- Vou experimentá-lo ainda uma noite, – atalhei.
- É melhor deixá-lo, meu senhor, é melhor deixá-lo! Não sai daqui nada bom, – repetiu o carpinteiro, metendo a ferramenta no saco e indo-se embora.
Todavia, tinha ficado muito animado com a perspectiva de ter a companhia do capitão e formei tenção de não deixar que me impedissem de chegar até o fim daquele estranho caso. Abstive-me, nessa noite do Welsh rabbitt e do grog e nem sequer tomei parte na partida de whist do costume. Queria confiar absolutamente nos meus nervos e a minha vaidade fazia com que desejasse mostrar boa figura aos olhos do capitão.
0 capitão era um daqueles lobos do mar valentes e cuja coragem, presença de espírito e sangue frio, no momento de perigo, fazem com que chequem natural- mente às posições de maior confiança. Não era homem para se deixar levar por histórias e bastava o fato de ele desejar reunir-se a mim nas minhas investigações para provar que ele pensava que havia qualquer cousa séria que não podia ser explicada, pelas teorias vulgares, nem tida como =a superstição ordinária. Aliás, a sua reputação, bem como a do navio, também estava envolvida no caso. Não era brincadeira perder passageiros pela borda afora, e ele bem o sabia.
Pelas oito horas da noite, quando fumava o meu último charuto, ele veio ter comigo e levou-me para um canto, fora do caminho dos outras passageiros, que passeavam no convés.
- Isto é cousa muito séria, Senhor Brisbane! – disse ele. – Temos que nos conformar: ou a não ver nada ou a Passar um mau bocado. Como vê, não posso levar isto a rir e peço-lhe que ponha o seu nome no relatório do que se passar. Se não acontecer nada, esta noite, continuaremos. amanhã e depois. Está pronto?
Seguimos para baixo e entramos no camarote. Quando fomos para dentro, pude ver Roberto, o criado, que estava um pouco para baixo do corredor, observando-nos com o seu sorriso habitual, como se tivesse certeza de que qualquer coisa terrível ia acontecer. 0 capitão fechou a porta a chave.
- Talvez fosse melhor põr a sua mala encostada à porta, – recomendou. – Um de nós podia se sentar nela. Assim, ninguém poderá sair. A vigia está fechada?
Estava como a tinha deixado de manhã. De fato, sem usar uma alavanca, como eu fiz, ninguém a podia abrir. Afastei as cortinas do beliche de cima, para poder olhar bem para dentro. Por conselho do capitão, acendi minha lanterna portátil e coloquei-a de modo a que iluminasse os lençóis de cima. Insistiu em ficar sentado na mala, dizendo que queria poder jurar que tinha estado encostado à porta.
Depois, pediu-me para darmos uma busca ao camarote, operação que se fez depressa, por consistir simplesmente em olhar por baixo do beliche inferior e por baixo do sofá que ficava ao pé da vigia. Estava tudo vazio.
- É impossível que algum ente humano entre aqui.
- Bem, – disse o capitão, sossegadamente. – Se agora virmos alguma coisa, ou é imaginação ou qualquer coisa sobrenatural.
Sentei-me na borda do beliche de baixo.
- A primeira vez que isto aconteceu, – disse o capitão, cruzando as pernas e encostando-se à porta – foi em março. 0 passageiro que dormia aqui, no beliche de cima, averiguou-se que era um doido, pelo menos sabia-se que era fraco da cabeça e tinha tomado a passagem às escondidas dos amigos. Correu para fora, no meio da noite, e deitou-se ao mar antes que o oficial de quarto o pudesse evitar. Paramos e deitamos um escaler; a noite estava serena, mas não foi possível encontrã-lo. 0 seu suicídio foi, mais tarde, atribuído à loucura.
- Acontece isso muito? – perguntei, distraidamente.
- Não… muitas vezes, não – respondeu o capitão.
Nunca me aconteceu, se bem que tenha ouvido dizer que tem acontecido noutros navios. Ora, como estava dizendo, isto teve lugar em março. Na viagem seguinte…
Para onde está o senhor a olhar? – perguntou ele, sus. pendendo repentinamente a sua narração.
Creio que não respondi. Tinha os olhos pregados na vigia. Parecia-me que o parafuso se estava movendo muito devagar, mas tão devagar que não tinha a certeza que se estivesse movendo. Olhei com atenção, procurando fixar na mente a posição e tentando certificar-me se a mudava.
- Mexe-se! – disse ele, num tom de convicção. Não, não se mexe… – acrescentou, daí a pouco.
- Se fosse o parafuso que estivesse solto, – observei
já se teria aberto durante o dia. Mas encontrei-o, esta tarde, tão bem apertado como o deixei esta manhã.
Levantei-me e experimentei o parafuso. Estava de fato lasso, porque, com um certo esforço, podia movê-lo com as mãos.
- 0 que é esquisito, – disse o capitão, – é que a segunda pessoa que desapareceu parece que se atirou por ,aquela vigia. Que noite terrível que passamos! Foi alta noite, e o mar estava encapelado, deu-se um alarma que havia uma vigia aberta e que a água estava a entrar por ela adentro. Desci e encontrei tudo inundado; a água entrava sempre que o navio se inclinava e a vigia estava pendente pelos fechos de cima. Bem, conseguimos fechá-la, mas a água causou algumas avarias. Desde essa noite que este camarote, de tempos a tempos, cheira a água salgada. Supusemos que o passageiro se tivesse atirado pela vigia, mas só Deus sabe como ele o conseguiu fazer. 0 criado dizia-me, sempre, que não podia ter aqui nada fechado. Palavra que me cheira, agora; não lhe cheira? – perguntou ele, aspirando o ar, desconfiado.
- Cheira-me… e muito! – concordei, estremecendo,
medida que aquele cheiro de água estagnada se tornava mais forte no camarote.
- Ora, para cheirar assim é necessário que o camarote seja úmido, – continuei, – e, apesar disso, quando eu e o carpinteiro o examinamos, esta manhã, estava tudo perfeitamente seco. É deveras extraordinário. . . olá!
A minha lanterna portátil, que estava pendurada no beliche de cima, apagou-se de repente. Ainda vinha bastante luz da bandeira de vidro fosco da porta, por detrás da qual brilhava a lâmpada do costume. 0 navio balouçava muito e a cortina do beliche de cima vinha até o meio do camarote e voltava para trás. Levantei-me rapidamente da borda da cama, e, no mesmo instante, o capitão pôs-se também em pé, dando um grito de surpresa. Tinha-me voltado para apanhar a lanterna e examiná-la, quando lhe ouvi a exclamação e em seguida gritar por socorro. Saltei para o seu lado. Lutava com toda a força com o parafuso de latão da vigia. Parecia mover-se-lhe nas mãos, apesar dos seus esforços. Pequei na bengala, um pesado pau de carvalho que costumava trazer sempre comigo, meti-o pela argola e puxei por ele, com toda a força. Mas a forte madeira estalou de repente e eu cai no sofá. Quando me levantei, a vigia estava completamente aberta e o capitão encostado à porta, pálido de morte.
- Há qualquer cousa naquele beliche!. disse ele, numa voz estranha e com os olhos quase a saírem-lhe da cara. – Segura a porta, enquanto eu vejo… desta vez, não há de escapar-nos, seja lá o que for!
Mas, ao invés de ir ocupar o seu lugar, saltei a cama de baixo e agarrei em qualquer cousa. que estava no beliche de cima.
Era qualquer coisa sobrenatural, horrível, indizível, e movia-se nas minhas mãos. Era como o corpo duma pessoa afogada havia muito tempo, contudo, mexia-se e tinha a força de dez homens vivos. Mas agarrei com toda a força, naquela coisa escorregadia, lamacenta, horrível. Os olhos, brancos e mortos, pareciam olhar para mim no meio da escuridão; tinha o cheiro podre de água salgada que se tivesse estagnado e os cabelos luzidios caíam-lhe em ma- deixas molhadas, pela cara cadavérica. Lutei com aquela coisa morta; deitou-se sobre mim fez-me recuar e quase que me quebrou os braços; enrolou os seus braços cadavéricos à roda do meu pescoço, subjugou-me e, por fim, gritei, caí e larguei a presa.
Quando caí, aquela coisa saltou por ciIna de mim e atirou-se ao capitão. A última vez que o vi àc pé, tinha a cara pálida e os lábios cerrados. Pareceu-me que deu uma grande pancada naquela coisa e, depois, também ele caiu para diante, com um grito inarticulado de dor.
A coisa parou um instante pareceu pairar sobre o corpo estendido, e eu teria gritado de terror, se ainda tivesse voz. Aquilo desapareceu de repente, e pareceu-me aos sentidos desordenados que saía pela vigia aberta; como foi isso possível, é que ninguém pode dizer. Fiquei muito tempo no chão e o capitão ao meu lado. Por fim, recobrei os sentidos parcialmente e vi logo que tinha o braço partido: o rádio do antebraço esquerdo ao pé do pulso.
Levantei-me com dificuldade e, com a mão que me restava, tentei levantar o capitão. Gemeu, moveu-se e afinal, voltou a si. Não estava ferido, mas parecia atordoado.
Acabei a viagem no camarote do médico. Tratou-me do braço partido e aconselhou-me a que não me tornasse a meter com fantasmas e com coisas do outro mundo. 0 capitão estava muito calado, e nunca tomou a navegar serviço. E naquele navio, apesar de ele ainda estar de também eu não tenciono tornar a embarcar nele.