Na Bienal teve até livro!

- Bienal 2009: Foto G1
Desde a última crônica que escrevi neste modesto e semi-abandonado periódico, o desinteresse kafkiano que parecia disposto a me contaminar, parece finalmente ter se estabelecido, e aparentemente, passa muito bem obrigado. Mas, confesso à um ou outro, que aqui ainda restam mais que alguns respingos de megalomania e futilidade – afinal, o que mais pode fazer alguém escrever para anônimos eventuais que aterrissam casualmente pelo Google, ou para um ou outro conhecido que estranha e insistentemente retorna para ler os meus rabiscos?
Mesmo não havendo justificativa prática ou necessidade para tal, ainda me justifico: sou um saudável amador, sem pretenções (ou talentos) de profissional. Gosto de escrever, como quem gosta de ouvir o som da própria voz; auto-adulação, auto-indulgência, chame como quiser. Aproveito também os meus últimos dias, pois desgraçadamente a distância entre o que é amador e o que é profissional parece se encurtar a cada dia.
Mas vá lá, alguém irá dizer (hoje em dia, alguém tem sempre algo a dizer), a internet é democrática, grátis, fácil, blah blah blah… aquela boa e velha cantilena padrão que estamos acostumados a ver escorrer de teleprompters conhecidos. Mas a ladainha vai ainda mais longe, descreve como as ferramentas de hoje dão oportunidades iguais para profissionais e amadores, novos gênios e estetas da literatura. Ninguém fala no entanto, na gigantesca massa de mediocridade que esparrama mais tédio que repulsa, ou da ausência de novos gênios e estetas.
A Bienal parece que tentou reforçar a impressão de que um novo Tolstói teria as mesmas oportunidades de divulgação que o Marcelo Rubens Paiva, o Mirisola, ou qualquer um dos autores independentes que apareceram insistentemente nas propagandas e reportagens sobre o evento — sempre humildes e agradecidos pelo pequeno espaço cedido, apesar de raramente se desfazerem de seus tipecos de literatos mal humorados e obstinados ao sucesso imortal. Estranhamente, o típico escritor amador (ou independente) de hoje, orgulhosamente se vende como um herói que luta em um terreno editorial hostil para uma platéia desinteressada, quando o que realmente deseja é bem mais prosaico e condizente à frase: se vender, ganhar grana, escrever uma coluninha aqui, uma resenha aculá e etc. Particularmenter não tenho nada contra quem queira ganhar dinheiro com literatura, só não sou simpático ao típico produto final, ainda msi quando alguém adiciona marketing à mistura, aí sim eu sinto ânsias de vômito.
Nos stands e corredores da Bienal, um passante mais atento eventualmente se perguntaria por que as outras pessoas que não vieram ao evento não lêem ou não demonstram o mínimo interesse em fazê-lo, pensam isso, claro, enquanto consomem os livros empilhados nos stands com a serenidade e freqüência de quem devora uma rabanada natalina. O próximo banquete literário, só deverá ocorrer durante a FLIP do ano que vem. Mas durante estes dias de Bienal, o livro e a leitura voltam a ser a matéria preferida dos jornais. E durante esse período peculiar já é fácil encontrar na rua alguém que lhe repita um bordão de como a leitura é essencial, uma pessoal mais desatenta pode até ter a impressão de que se está próximo do dia em que irão valorizar o conteúdo gerado por amadores ou até mesmo pelos profissionais.
É claro que no resto do mundo,a discussão sobre novas mídias colaborativas e Conteúdo Gerado por Usuários (User Generated Content, na forma original), vão muito além das divagações do Caio Túlio Costa e do semi-obscuro, e pouco mais relevante, Andrew Keen.
Keen demonstra uma preocupação legítima: os excessos da turba, que se alimenta da própria ignorância em velocidade assustadora, o que me parece um argumento ingênuo, pois as inovações tecnológicas não causam o fenômeno, só o facilitam. A tendência a simplificação de idéias e desinformação, é tão antiga quanto as tais velhas mídias — inclua-se aqui, o jornal, onde a folha corrida de Caio Túlio Costa, pode muito bem servir de exemplo.
Mas se a grande mídia se torna cada vez mais impessoal – um excesso de cautela moldado pelo medo de despesas jurídicas – a pequena mídia, também auto-intitulada de mídia independente, é fraca e descompromissada, além de sofrer com um pequeno paradoxo: os pequenos se dizem o futuro, mas tudo que mais desejam é crescer. Um complexo ainda a ser estudado pelos pscicólogos.
Mas vá lá, meu saldo pessoal da Bienal, sem contar as entradas?
- R$30,00 em um lanche vagabundo pra dois (leia-se, 2 hamburgers + 2 refrigerantes);
- R$15,00 em um café e duas águas minerais;
- R$150,00 em livros (leia-se 4 livros).
Um belo incentivo à cultura como ser pode notar, em alguns momentos não pude deixar de me surpreender, e dizer para mim mesmo, “tem até livro aqui”. O site da Bienal até se vangloria de poder ser considerado um case de sucesso de Marketing (com letra maiúscula mesmo). Livros caros, aparições midiáticas e filas imensas para ver autores de segunda e terceira, centenas de pessoas exaustas pelo chão sem um lugar para sentar, além de um tumulto digno de domingo no Maracanã, faltando realmente muito pouco para ver voar uma ou outroa garrafinha de mijo.
Confesso que na segunda-feira seguinte fui à uma das minhas livrarias favoritas pra matar a saudade dos livros que eu ainda não tenho dinheiro pra comprar, casualmente ela estava vazia como sempre.
