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Medíocre, graças a Deus!

egosfera

Algumas pessoas próximas sabem que eu tenho hábitos prosaicos. Entre eles, um dos mais antigos é o de anotar citações e passagens que me chamam a atenção, o que provavelmente é uma das coisas mais manjadas que um mamífero pode fazer — mas, nem por isso me sinto tanta vergonha dessa pequena mania.

A propósito de tentar explicar a baixa frequência de atualizações deste periódico, vou me aproveitar do pequeno acervo pessoal e apelar para uma frase da qual eu sempre discordei, mas que estranhamente mantive na memória por motivos relativamente desconhecidos.

Melhor dizendo, discordava até bem pouco tempo atrás, pois nos últimos meses me surpreendi concordando com o bom e velho “Rebelde de Concord”; Henry David Thoreau dizia que os jornais “poluem a nossa mente, templo de reflexões, com banalidades”.

Para qualquer um que acompanha notícias com certa regularidade, a frase não passa de pura heresia. Na minha pequena e pedante opinião, ela apenas corroborava com uma das minhas velhas impressões de como Thoreau pode parecer ingênuo em certos assuntos. A propósito desta frase, acabei achando uma outra onde ele emenda o raciocínio mais diretamente: “Benditos os que nunca lêem jornais, porque verão a Natureza e, através dela, Deus”. Sobre esta última, discordava também por razões particulares, sendo ateu, sempre preferi gastar o tempo vago que poderia ser usado para contemplar Deus, em coisas mais simplórias como por exemplo: Acompanhar jornais.

Com o advento do Google Reader, passei a acompanhar com maior frequência uma enorme variedade de coisas, como por exemplo Blogs de opinião ou notícias. Minha lista é bem variada, e se alguém sente alguma curiosidade, me antecipo em justificar que mesmo não concordando com a maioria, sempre achei interessante acompanhar pontos de vista mais radicais, como os de “Reinaldo Azevedo“, “Coturno Noturno“, “PHA” e “Dialógico“, claro, também lia outros menos barulhentos como “O Biscoito Fino e a Massa“, “O Hermenauta” e “Pedro Doria”. Confesso que raramente comento em algum deles, mais por preguiça de discutir com quem acompanha do que por prudência. Não que eu negue a existência de vida inteligente entre comentaristas de blogs, embora eu não negue que esse pensamento tenha me ocorrido algumas vezes.

A razão na verdade, confesso não ser lá muito original: eles são muito repetitivos. Tente notar como é raro contar até o décimo comentário de um post sem ouvir alguém acusar o outro de se ser de esquerda ou de direita, e claro de ser fascista, nazista ou mentalmente deficiente (também não é raro que as acusações cheguem combinadas).

Confesso que também cansei de ler críticas a quem é pago pra emitir opinião em rede nacional, pelo menos o tipo de crítica que normalmente tenho lido. Alvos comuns como Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor, Miriam Leitão, Olavo Carvalho, e ainda outros mais ou menos chegados a uma polémica, surpreendem não pela diferença de opnião, o que é bem saudável e necessário, mas simplesmente pela falta de argumentos originais, ou ainda pela insistência de jogar pra platéia.

Claro, vamos por partes, não discordo que caras como o Jabor, jogam descaradamente pra platéia. Só tem uma diferença fundamental: o cara é pago pra isso. Pra vender jornal, pra agradar o maior número de pessoas possíveis, ou se preferir: de agradar mais o seu eleitorado do que os outros com os quais ele não sente tanta simpatia. Não é raro que eu fique me perguntando se é realmente tão difícil discordar de alguém sem ter de fazer algum paralelo com doenças mentais? Ou de evitar criticar a qualidade do trabalho de alguém simplesmente por ele não bater com as nossas opiniões?

O próprio Jabor por exemplo, discordo do cara em milhares de coisas, mas não raro me surpreendo com uma boa crônica sobre um coisa ou outra. O Diogo Mainardi, apesar de ter uma mania insistente de relacionar todas as desgraças do país com o Lula, não está necessariamente errado o tempo todo.

Particularmente, acho que existem poucos cronistas interessantes de se acompanhar nos grandes jornais, os polemistas citados pelo menos dão algum molho na cobertura já tão politicamente correta dos principais cadernos — tudo se tornou muito sério. Caindo em outro clichê, tenho que concordar, que caras como Paulo Francis fazem falta em momentos como este, onde é tão difícil ridicularizar figuras públicas sem cair no óbvio e ainda mais difícil oferecer uma perspectiva diferente sem se preocupar em ofender a própria legião de fãs ou entusiastas do “politamente correto”.

Não consigo deixar de achar todas essas pessoas que discutem política com a mesma vulgaridade de quem faz política um pouco esquisitas. Sei também que é perigoso fazer elogios ao Paulo Francis em público: sim ele era machista, sim ele era muitas vezes racista, e é óbvio que ele era bem polêmico, mas que diferença dessas caricaturas do velho articulista do Manhattan Connection, e que diferença ainda maior das caricaturas dessas suas caricaturas, que parecem compor boa parte dos blogs relacionados a política hoje em dia… Pelo menos o Francis era coerente com as próprias opiniões enquanto falava, apesar de não hesitar em mudá-las em público esporadicamente; ele sempre as defendia de forma inteligente, e mais importante, no campo intelectual ao invés do pessoal. Fico me perguntando o que o Paulo Francis falaria do Olavo Carvalho, e mesmo não tendo a mínima idéia tenho certeza que seria hilário e original.

Acho que já passei tempo demais me preocupando com quem será o próximo presidente do Senado, ou com as implicações da chegada do Obama na Casa Branca. Daqui pra frente vou tentar me preocupar com coisas mais medíocres e vulgares do que política. Quem sabe eu até consiga transformar a minha cabeça no tal “templo de reflexões” que o Thoreau tanto falava, apesar de ter a impressão de que provavelmente vou desperdiçar o tempo que gastaria nos velhos assuntos em um dos meus dois ou três botecos favoritos.

Parafraseando Elis Regina, quando questionada sobre a simplicidade da sua rotina fora dos palcos, confesso uma coisa pra vocês: Sou medíocre, graças a Deus.


P.S.: Bom lembrar que o finalzinho da frase serve só como figura de linguagem, ainda não estou tendendo a conversões
– apesar de estar sempre aberto a novos argumentos ;-)

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