Diálogos de um ocioso

– Alô, Penantes. Tá podendo falar um instante?
– Fala Tomás, claro.
– Você sabe que eu não sei pedir as coisas. Então vou ser o mais direto possível. Preciso de um dinheiro emprestado, não sei quando vou poder te pagar ou se eu vou conseguir pagar.
– O que aconteceu dessa vez cara?
– Se não puder emprestar, não tem problema. Mas prefiro não falar sobre o assunto. Preciso de umas quinhentas pratas.
– Vem amanhã a noite aqui no trabalho. Te arrumo trezentos contos, e você nunca mais me pede porra nenhuma. Daqui pra frente tu se acerta direto com o Carrilo.
– Até amanhã. — a frase saiu entre os dentes, pouco antes de ainda conseguir bater o telefone primeiro.
Assim que entrou no bar, Tomás avistou um homem cercado por um pequeno grupo de pessoas. Como sempre fazia ao encontrá-lo, Tomás precipitou o encontro com um grito.
– Arturo! — Arthur olhou para trás, abrindo um sorriso só com a parte de baixo do rosto, assim que o reconheceu. Não satisfeito, Tomás estendeu o comprimento, ergueu uma das mãos e disparou em um espanhol sofrível.
– Trabajar era bueno en el sur… — ao que o outro respondeu com um olhar disfarçadamente sublime, entre trejeitos poéticos afetados de uma ironia bem óbvia em um espanhol quase impecável — Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos. Ir por los ríos en el sur, decir canciones, era bueno — Os companheiros em volta começaram a gargalhar, alguns sem entender direito o que acontecia. Tomás se aproximou com um sorriso largo enquanto curvava a cabeça lentamente em uma reverência exagerada. Os dois se olharam em silêncio por poucos segundos, e como se houvessem ensaiado a mesma cena centenas de vezes, Artur virou para o grupo que o cercava ao mesmo tempo que Tomás se pôs à caminho do bar. Os poucos conhecidos de Artur que ainda não haviam visto aquela cena incomum, cobriam-no de perguntas sobre quem era aquela figura. Artur, escondendo o incômodo, explicava que era um velho amigo. No bar, um Tomás bem mais relaxado, pedia uma copo ao mesmo tempo em que tateava os bolsos procurando o isqueiro. Pediu fósforos no balcão, “onde vão parar todos esses isqueiros?”, pensava.
Uma mulher, sentada no bar lhe estendeu um bonito isqueiro de aço escovado. Com o cigarro preso entre os dentes, Tomás curvou o rosto em direção às mãos da desconhecida em um movimento quase grosseiro. Ela sorriu, mas acendeu. Tomás deu a primeira tragada lentamente, a encarando direto nos olhos, como fazia sempre que tinha dúvidas sobre alguém. Por reflexo a mulher desviou o olhar quase instantaneamente, não fosse a luz fraca do bar, ele teria certeza de ter visto ela corar um pouco. Tomás sorriu, sentou-se no banco ao lado, esparramando-se pelo balcão enquanto pedia uma bebida. Um homem de aspecto cadavérico se aproximou com um envelope e um copo de conhaque cheio até as bordas.
– Bebe o que você quiser, e depois vai embora, você sabe que o Artur não gosta de te ver por aqui a essa hora. Tomara que ninguém precise te colocar pra fora de novo.
– Penantes, meu amigo, esse é o maior objetivo das minhas noites –, disse, com um sorriso aéreo, enquanto o esquelético Penantes lhe dava as costas para continuar o trabalho pelo salão.
– Não é comum ouvir a Rapsódia de Saulo em gritos. — Disse a mulher ao lado; Tomás deu de ombros.
– Não se eu e o Arturzinho estivermos por perto. Sempre que a gente se encontra, eu grito… É um hábito antigo, coisa nossa. — disse, frisando o final da frase.
– O poema é muito bonito… isso quer dizer que vocês devem ser amigos então? — perguntou interessada.
– Nenhum dos dois, pra dizer a verdade.
– Como assim? — se espantou.
– Aurélio Arturo é um caipira e o Arturzinho não é meu amigo, é um babaca, apesar de termos a infelicidade de compartilharmos a mesma mãe. — falou de forma casual, como se tudo aquilo fosse de conhecimento geral; ela sorriu interessada.
– Então o Artur Carrilo é um babaca?
– Por que a surpresa? Existem muitos babacas por aí… Ele provavelmente acha que eu sou um — ao arquear as sobrancelhas ele colocava ainda mais sarcasmo nas palavras.
– Então por que esse “comprimento carinhoso”? Já que os dois… se acham…
– O que? Babacas? Pode dizer a palavra, eu não me ofendo. Mas claro que não posso falar por ele.
– E então?
– Então o que? — ela repetiu as últimas palavras mexendo os lábios sem pronunciar todas as palavras. — Ah, por que a gente faz isso? É difícil saber direito. Acho que ele só me responde por educação mesmo… não sei se você notou, ele é muito educado. Eu no entanto só faço isso por que ele sabe que eu acho o Aurélio Arturo um caipira, e que ele é um babaca. — Ela riu de novo, sabendo que poderia haver alguma lógica estranha no que estava ouvindo.
– Não sei se expliquei direito, mas é como se toda vez que eu o encontrasse, eu gritasse “Ei babaca!”, e ele respondesse, “Tudo bem, eu sei que sou um babaca. Mas você é mais!”, entende? Não é uma coisa da qual eu me orgulhe, mas eu continuo fazendo.
– Realmente não parece uma coisa pra se orgulhar, né? Ainda mais por que ninguém acha que ele seja um babaca. Na verdade todo mundo gosta bastante dele por aqui.
– E é exatamente por isso que eu preciso vir lembrar o que ele é. Um babaca. — disse frisando o “babaca” ainda mais alto que das outras vezes. Do outro canto do salão, Artur espreitava a conversa, com o canto dos olhos, fingindo novamente não se importar com os pedaços de conversa que chegavam.
– Mas pra que você veio aqui então?
– Reparou naquele sujeitinho esquelético que me deu o envelope, é o gerente dele, o Penantes — falava isso abanando o envelope de papel pardo em direção a ele — só vim aqui buscar isso.
– Pensei que era só pelo open bar? — perguntou com um sorriso maldoso, olhando como ele acabava de devorar o terceiro copo, enquanto pedia o quarto.
– Eu estaria mentindo se dissesse que não é um incentivo… mas é claro que existem outras razões. Eu preciso de dinheiro. Ele tem, eu não. Ele é um cara muito educado, e eu não sou. Além do mais, eu acho que nós dois nos sentimos melhor depois desses encontros…
– Agora que eu não estou entendendo nada — disse sorrindo com os olhos bem abertos, enquanto tateava a beirada do copo com a ponta dos dedos.
– Não tem muito o que entender. Toda vez que a gente se encontra, é uma oportunidade para nós dois visualizarmos possibilidades. Entende? Ele me olha, nesse estado — apontava para a própria roupa amarrotada — e sem perceber ele começa a se sentir melhor com o próprio sucesso. Entende? Já eu, quando olho pra ele me sinto melhor por saber que eu não virei um babaca como ele. — Tomás ficou alguns segundos em silêncio, parecia se esforçar pra dizer mais alguma — sei lá, acho que é isso. Pra dizer a verdade, eu nunca parei pra pensar muito sobre o assunto. Toda vez que eu quebro acabo vindo aqui pra recarregar… como eu disse antes, é uma coisa nossa — Levantou o dedo para o garçom pedindo mais uma dose.
– Você não me disse o seu nome.
– Tomás.
– Você é esquisito Tomás.
– Então você e a minha primeira professora de português tem algo em comum.
– Como assim? — perguntou, surpresa com a frase inesperada.
– As duas me acham estranho, mas insistem em querer achar coisas interessantes.
– Isso quer dizer que eu não vou encontrar nada interessante?
– A Dona Ângela desistiu na metade da quinta série. — os dois sorriram.
– Meu nome é Rita — desviando o olhar para o copo, Tomás resmungou bem baixinho, como querendo se lembrar de alguma coisa — Rita, Rita, Rita de Garnica… que casualidad… — ela prosseguiu como se não tivesse ouvido nada.
– Pelo o que a gente conversou, acho que você não deve gostar muito do que o Artur faz…
– Um desperdício — disse, como se tivesse acabado de começar a conversa.
– E ele acha que é inveja? Por isso que vocês não se falam direito?
– Sei lá o que ele pensa. Só acho tudo um lixo.
– De repente você vem aqui por sentir um pouco de inveja… da grana pelo menos, né? — Enquanto dizia isso, Rita se inclinava na cadeira, como se consciente de estar se arriscando com a pergunta.
– Talvez seja isso, talvez não… Mas se for, não é da maneira que você imagina.
– Como assim?
– Hoje ele é um babaca profissional, dava até um ótimo advogado. Mas antes poderia ter sido muito mais… isso me irrita um pouco.
– Muita gente discordaria, talvez ele até pense a mesma coisa de você.
– O que eu posso dizer? Ele tem grana e eu não. Eu cago pra isso, mas independe da forma que eu diga isso, sempre vai parecer recalque. — parou por alguns segundos, e apertou os olhos, meio pensativo — Pra dizer a verdade, nem sei direito porque estou te falando essas coisas — ela riu de novo, enquanto Tomás reparava pela primeira vez que ela tinha um belo sorriso.
– As vezes acho que eu sou meio psicóloga, sabe? As pessoas sempre dizem que acabam me contando coisas que não falariam nem em análise…
– Porra, eu odeio médicos, mas tenho um ódio especial por terapeutas — ela ouvia cada vez mais interessada.
– Mas pode ficar tranquilo. Eu não sou terapeuta. Pelo menos não do jeito que as pessoas esperam — sorriu olhando em volta. Tomás de fato percebeu que a maneira que Rita se vestia não lembraria nem de longe uma terapeuta; pra dizer a verdade, ele reparou também em mais umas três ou quatro moças vestidas de forma bem parecida ao redor do balcão. Todas flertavam discretamente com alguém perto do bar.
– Ah tá. Não deixa de ser uma terapia, e bem antiga por sinal — Ela abriu um sorriso ainda maior, confirmando com a cabeça, enquanto ajeitava o cabelo pra trás das orelhas. Tomás tentou reparar em Rita com mais atenção pela segunda vez desde que começaram a conversar. Era muito bonita, cabelos castanhos claros na altura dos ombros e um corpo bem definido, preso por roupas levemente apertadas que destacavam um belo par de seios. Não devia ter mais de vinte e dois anos. Ele pediu o isqueiro emprestado pra acender o último cigarro do maço. Depois de uma última olhada, soltou uma baforada de fumaça pelo canto da boca.
– Você também trabalha para o Artur?
– Não diretamente. Ele deixa a gente ficar por aqui, cobra um percentual e ajuda em caso de problema. — falou esse final com o olhar sério, como quem quer deixar claro sua percepção do que era um problema.
– Um homem de negócios, naturalmente — Tomás, saboreava as palavras dessa última frase. Rita, se esquivava de dar uma opinião, mas no fundo concordava. Tomás levantou e se preparou para ir embora
– Foi um prazer te conhecer Rita. Já fiz minha parte por aqui, e pra dizer a verdade preciso de ar. Isso aqui está muito quente… além disso, se eu continuar por aqui, a Lídia acaba aparecendo pra me extorquir o pouco que eu arrumei. — Como se não houvesse ouvido nada do que ele acabara de dizer, ela sugeriu, olhando diretamente para ele, que ele não precisava ir embora.
– Não quero te atrasar. E sem querer ser indelicado, estou bem quebrado… preciso dessa grana. Entende? Além do mais, se a Lídia aparecer… — Ela sorriu, assentindo suavemente com a cabeça.
Alguns minutos depois que Tomás saiu, Rita deu falta do isqueiro.
