Super-Heróis

De toda essa sequência de confusões com o caso Daniel Dantas, só tem uma coisa que me deixa surpreso. Aliás, minto. São duas coisas. E a mais estranha, que muita gente parece estar ignorando, é como toda essa gente tem nome estranho: Protógenes, Naji Nahas, De Sanctis, Chicaroni, De Grandis, Troncon. Quem é essa gente? Já fico intrigado só de reler esses nomes que eu escrevi. Até entendo o Gilmar Mendes nisso tudo. O nome dele é um dos mais simples nessa coisa toda. De repente essa história toda dele querer ficar aparecendo no jornal poderia se resumir à um leve complexo de inferioridade em relação ao próprio nome. Mas acho que pouca gente iria concordar comigo nesse ponto — tirando um ou outro paranóico que tenha um “Silva” cravado na carteira de identidade.
Mas falando sério. Tem como imaginar essa gente nos tempos de escola? Imagina o sofrimento na hora da chamada. Depois de um Pedro ou de um Paulo o professor dispara solene: “Protógenes?”, alguns segundos de silêncio depois o pobre garoto confirma a presença levantando a mão tímida entre as risadinhas dos colegas de classe. Isso também poderia explicar esse tal complexo de super-herói que acusam o pobre delegado de ter. Eu por exemplo, lembro de um sujeito que estudava com o meu irmão no primário que se chamava Audifax, e o mais triste: Audifax Júnior. Mesmo depois de conviver metade da vida com esse nome incomum, o pai não aguentou sofrer sozinho e repassou o fardo pro filho. Nunca mais tive notícias do Audifax, mas tenho certeza que em algum lugar ele deve estar sorrindo com todos esses nomes incomuns que tem aparecido na televisão. Talvez ele até esteja pensando em entrar para a Polícia Federal (sei que eu estaria).
Confesso que até tenho alguma dificuldade de me convencer que o Daniel Dantas é o vilão dessa coisa toda. Com um nome desses não tem como desconfiar. Dantas nem parece sobrenome de banqueiro. Além do mais, o sujeito é a cara do porteiro de um prédio onde eu trabalhava uns anos atrás, o seu Edson. Deve ser por isso que ele parece meio inofensivo pra mim. O seu Edson pelo menos era muito tranquilo, um doce de criatura, apesar de ser bem mais velho que o Dantas. Mas enfim, nem lembro direito qual era outra coisa que me surpreendia. Ah sim, lembrei. O heroísmo. Sim, estava meio fora de moda, mas voltou com tudo nesse finzinho de inverno. Bom lembrar que para o sucesso de um herói, é imprescindível que existam vilões de calibre similar. E os nossos vilões de hoje, ganham não só na quantidade numérica como na grossura do calibre. O que torna a cruzada ainda mais emocionante de acompanhar.
Costumo ler alguns blogs de notícias diariamente, nem tanto para me informar quanto para me divertir. Confesso que acho muito peculiar a maneira como as pessoas tendem a escolher lados. Se eu ouvisse algumas das expressões que tenho lido antes dessa confusão toda do Dantas, eu provavelmente emitiria algum barulho de dúvida. Quem é esse heróico delegado? Porque estão pedindo a destituição de um ministro? Por que ele é tão safado assim? Mas o tempo de fazer essas perguntas já passou. Se alguém ainda tem dúvidas sobre estes pontos, é mais do que razoável concluir que só tem dúvidas porque está associado com o Daniel Dantas.
Eu tenho que confessar que não sei como me posicionar mais nessa coisa toda. Até fico com medo de sair pra beber em lugares públicos. Vai que alguém me ouve fazendo umas perguntas dessas em público e resolve me denunciar pra PF? Fico em pânico só de pensar na possibilidade de assistir em rede nacional a gravação de alguma conversa minha com uma desconhecida num Disque-amizade às quatro da manhã, ou pior: alguma gravação minha, respondendo todas aquelas perguntas do Super QI (o que eu posso dizer? tenho insônia, e as perguntas são realmente difíceis). E o pior, tudo isso gravado com grampo autorizado pela justiça, por mais desimportante que eu seja (e pra quem ainda tem dúvidas, confesso ser bem desimportante).
O que fazer? Quem fala mau do Dantas está ajudando a mídia golpista, quem fala mal da PF está mancomunado de alguma forma com o esquema do mensalão. Aliás, eu falei mensalão? Por favor, esqueçam que eu falei isso — quem fica relembrando do mensalão é reacionário!
Se eu pudesse, passaria uma mensagem aos especialistas dessa “nova mídia” (os blogs de notícia independente, pra quem ficou na dúvida). Deixem as especialidades para os especialistas. O mundo já tem muitos jornalistas frustrados trabalhando nos jornais, ninguém precisa ajudar na cobertura do caso Dantas com suposições feitas durante o tempo extra entre o trabalho e a família. São necessários apenas fatos, quem tiver algum fato que divulgue, quem não tiver vá fazer outra coisa. A história já é complexa pra quem está acompanhando os desdobramentos desde o começo, pra quem tem experiência com problemas desse tipo ou tem todo o tempo do mundo para investigações, para a maioria absoluta das pessoas (e eu me incluo nesse nem tão seleto grupo) que pegou o bonde andando nas últimas notícias dos jornais, escolher um lado só reforça o clima de Fla-Flu ideológico. Particularmentet eu gostava mais da época onde os nossos heróis tinham mais a ver com futebol ou Formula 1.
Tags: Crônica
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