Dualidades de cárcere
De todas as figuras que freqüentavam as mesas de Tomás, o mais constante era o solene Dr. Antônio Feliciano do Carmo, vulgarmente conhecido como Dr. Carminho. Também aparecia com freqüência o nem tão solene Antunes, que por vezes vinha acompanhado do sobrinho, eleito por consenso geral como Tuninho, apesar de se chamar Jorge. Havia também a presença sazonal do digníssimo Conde, também chamado pelos menos íntimos de Altair Condes da Cruz, que de tudo fazia um pouco. Carminho era o mais chegado de Tomás, e apesar de saber-se dele pouco mais que a profissão, e uma ou outra opinião mais controversa, os dois se entendiam muito bem. Como acontece com boa parte dos advogados, Carminho era bem mais advogado do que humano, por isso até havia um certo consentimento geral em desconhecer qualquer aspecto da sua vida particular — se é que de fato havia alguma. Independente desse aparente mistério, Carminho e Tomás tinham uma relação de mútua admiração, pois os dois possuíam muitas impressões em comum. E a suposta vida desregrada de Tomás fascinava a imaginação daquele advogado tedioso, que vivia e morria pela sua rotina. Ironicamente toda aquela regularidade na vida de Carminho, e o ambiente familiar em que ele vivia a maior parte do tempo, inspiravam Tomás à uma paz de espírito desconhecida para ele. Sabendo que as roupas alheias sempre parecem mais bonitas, os dois seguiam sem se permitir influenciar muito, mantendo em segredo suas respectivas insatisfações pessoais e qualquer uma das suas muitas aspirações por mudanças.
O Conde por outro lado, era uma figura bem encantadora. Como ele mesmo se apresentava: era um ex-professor, ex-empresário, e volta e meia, um recém convertido ex-funcionário de algum lugar. Tendo acabado de ser demitido de um restaurante, Conde havia ido para o bar do velho Armando carregando alguns bilhetes de loteria comprados no caminho — já contando com a ajuda dos amigos para escolher os números vencedores do próximo sorteio. Não que ele tivesse grandes ambições para o dinheiro, na verdade ficaria feliz até se fizesse um ou uma quadra pra poder pagar uma sova “naquele baiano safado”, que tinha lhe demitido no início do dia.
Tomás que estava chegando, já olhou um pouco desconfiado vendo Conde, Armando e o Antunes discutindo num canto próximo ao balcão. Todos pareciam bem sérios. Armando queria colocar os números do aniversário de uma filha que estava em Curitiba, enquanto os outros brigavam pra colocar a data de um título do Botafogo ou do centenário do Fluminense. Tomás, ansioso por uma bebida continuou observando, e tendo se aproximado lentamente disparou sua opinião aos amigos, pois para ele não havia perda de tempo maior que jogar na loteria — e falou isso com tamanho desdém que os amigos até chegaram a sentir a discussão desanimar um pouquinho enquanto davam de ombros para aquele mal humor tão conhecido. O Conde, no entanto ficou alguns segundos refletindo. Com um sorriso no canto da boca, perguntou a Tomás se ele já tinha jogado alguma vez na vida.
– Nunca joguei. É perda de tempo, e considerando as chances ninguém em sã consciência deveria jogar! — O Conde, que já antecipava a resposta com o queixo e as sobrancelhas levantado, sinalizou um gracejando com as mãos, para os companheiros, e com exceção do velho Armando, todos foram se sentando em torno de uma mesa. Conde esperou mais alguns segundos e começar a falar.
– A vida, meu camarada, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos e os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amansam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.
– Antunes sorria, já prevendo mais um bafafá prolixo com toda aquela inutilidade, que somente aqueles dois amigos seriam capazes de reproduzir. Entreolhou com cumplicidade o velho Armando que prontamente se dispôs a voltar ao bar, já não querendo tomar parte naquele falatório eminente.
– Porra Conde, mau cheguei e você já vem atacando de Machado. — disse a frase com um riso irônico, como se tivesse ficado feliz com as próprias palavras enquanto ia abrindo a garrafa de cerveja com um chaveiro em forma de abridor. Antunes riu concordando, pois de fato ainda era muito cedo para aquilo, e além do mais, ainda estavam todos muito sóbrios para começar com todo aquele papo pseudo-intelectual. Tomás, animado pela própria frase, resolveu não se dar por vencido — O trecho do medalhão, é sempre difícil de discutir, e ainda assim, o contexto da passagem é bem diferente do nosso. — falou com mais um pouco de satisfação. — Pode até ser verdade, mas a idéia de citar esse trechinho, foi mais pra justificar a grosseria que vou fazer — com um olhar meio apático, Tomás tentava disfarçar a expectativa enquanto tomava os primeiros goles da cerveja levemente choca.
– Acho que alguém tem que ser muito idiota pra nunca ter jogado na loteria. — Os dois amigos começaram a rir, o Conde no entanto, fingindo uma solenidade desnecessária à situação, e que sempre lhe cabia muito bem, reafirmou a mesma frase antes de continuar a argumentar.
– Não, não, é verdade! Não sou preconceituoso, mas temos que desconfiar de certos tipo de gente. O sujeito que nunca se dá a chance de ser banal, em raras exceções não é um babaca ou um covarde. Mesmo sabendo das inúmeros desvantagens ou das possibilidades mínimas, é preciso torcer pelos prêmios mais raros. — Falava isso com uma seriedade disfarçada, mas fazia questão de continuar a se esforçar. — Cito o nosso solene Dr. Carminho, que vive para advogar. Não é à toa que vocês dois se dão tão bem! E não estou falando isso com maldade, ou para ofender vocês dois, falo apenas com o carinho e as preocupações dignas do bom companheiro que eu sou. — Tomás sorria com ainda mais curiosidade depois dos gracejos do amigo, que gesticulava com o argumento, levando as mãos ao peito como poucos canastrões poderiam fazer.
– Mas continuando, e já fazendo questão de me explicar: pois se estamos aqui interrompendo o nossa loteria e deixando a cerveja esquentar com essas conversas, não é só pra lembrar do Machado. Vou direto ao ponto pois, contrário do nosso Carminho, acho que você ainda pode ter salvação. É isso mesmo, pra você ainda existe esperança. — Todos ainda riam, e o Conde falava sem disfarçar os cuidados excessivos para não ofender os amigos.
– Vocês sabem, que eu sou um cara fascinado por Darwin e toda aquela história da evolução das espécies. Como eu já disse antes, que se um dia eu encontrasse o sujeito na rua, parava e faria questão que ele bebesse um conhaque comigo — daqueles mais baratinhos que eu adoro e que tanto complicam minha vida. Mas, nem mesmo é tanto de Darwin, que vou falar. Mas sim daquela tal psicologia evolucionista baseada nas suas teorias, que só foram inventadas bem depois que o cara morreu.
– Diz essa tal psicologia que se um homem é promíscuo, ele é assim por que esse comportamento descende do seu passado remoto. A fecundidade feminina, no entanto, pouco depende da variedade de parceiros, aliás, é até melhor quando se tem apenas um parceiro cuidadoso pra dar apoio durante a gestação da cria e etc. Da mesma forma que ocorre com a relação protetora dos pais com os filhos, boa parte das coisas que nos sentimos obrigados a fazer, como hoje bem se sabe, não passam da mais pura demonstração do nosso instinto de preservação da espécie, nossos traços mais primitivos, por assim dizer.
– Pra quem ia ser breve, você até que tá misturando bastante coisa no assunto. — Espetou o Antunes que até então, havia limitado sua participação a rir e brincar com o isqueiro.
– Pois então Antunes, não fica claro, que se a nossa natureza nos aperta em direção à promiscuidade, à violência e o egoísmo, é antinatural insistir em querer ser puro, virtuoso e fraterno? Não é normal meu camarada. É como acontece com aqueles sujeitos que não xingam ninguém, ou que nunca voam na garganta de alguém que esteja lhe enchendo o saco. Estes caras na verdade só se escondem na civilidade, guardam a mesma a raiva que qualquer um iria sentir. Só que acabam engolindo o incomodo, por causa dessa sensibilidade excessiva, e burra. Fazem isso tudo e ainda se acham mais inteligentes. Não lembro de ter conhecido um peão de obra ou um motorista de ônibus que estivesse insatisfeito com ele mesmo. Os que eu conhecei normalmente ficavam putos com os outros, nunca com eles. E se apesar de tudo, reconhecermos que existem peões e motoristas de ônibus infelizes aos borbotões, se compararmos estes com o número de supostos literatos e professores universitários atormentados por questões existencialistas, os números vão ser bem desleais.
– É um erro comum, pensar que precisamos ser ignorantes para ter mais chances de alguma felicidade. Quando na verdade, acho que o essencial é ser simples, natural e diligente com a relação de equilíbrio entre as nossas necessidades mais ou menos primitivas. — Os dois amigos olhavam com um pouco de surpresa, não era sempre que o Conde conseguia colocar suas idéias com essa clareza sem se dispersar com besteiras, estavam curiosos pra saber onde ele queria chegar. E com toda aquela atenção voltada pra ele, o Conde foi se empolgando: — Meus caros amigos, não se pode privilegiar nenhum ponto da pirâmide sem negligenciar os outros. A sabedoria popular está em dar mais importância às coisas fundamentais já que estas suportam todo o resto. Os caras muito acadêmicos ou mais metidos a besta, preferem dar prioridade para as coisas abstratas. Acham que a moral ou a sua reputação, sejam mais importantes do que uma garrafa cheia de cachaça ou uma boa trepada, sem perceber que cada vez que reprimem ou censuram alguém que tenha a coragem de se aproveitar destes prazeres básicos — e tão necessários — contrariam não só a própria natureza, mas a evolução da espécie como um todo. O que os homens podem ser, eles devem ser: É preciso ser fiel à nossa própria natureza! — Disse as duas últimas frases, como quem reescreve um aforismo no mármore. Levantou o copo para um brinde, feliz com suas próprias conclusões.
– Seguindo essa sua idéia — que nem é tão tua assim — Temos que admitir a possibilidade de mudança, o homem moderno pode ter novas preocupações como resultado da própria evolução, e nem por isso as coisas tem que ser vistas como anti-naturais, são só diferentes. São as mesmas formas, pra coisas diferentes — rebateu o Antunes, com a confiança de quem havia encontrado a falha do argumento.
– Meu querido Antunes, te digo que prefiro mil vezes um mundo lotado de vagabundos, putas e ladrões, do que esse mundo repleto de homens modernos. — Todos os três riram, mas o Conde continuou. — E se faço questão de preferir estar entre os ditos imorais ao invés dos acadêmicos ou de alguns democratas fervorosos, é mais pelo simples fato de ver que esse tal mundo moderno é capaz de produzir diariamente mais recalcaques do que mendigos. O que por si só já é uma pena pela falta de variedade, mas é ainda mais mesquinho se pensarmos no pecado que é depender tanto das permissões de estranhos para achar algum prazer na vida. Por isso prefiro os cachaceiros, ou os que jogam nas loterias impossíveis como eu. E acrescento ainda que, o homem que vive entre bêbados sente necessidade de também ser bêbado, diferente dos que convivem entre feras. Só assim não tenho que afastar a mão que me afaga, e muito menos escarrar na boca que me beija. — Dizendo essa última frase, levantou da cadeira teatralmente, enquanto apontava para um Augusto dos Anjos imaginário que supostamente estaria observando a cena do céu, reforçando ainda mais o aspecto burlesco da cena. Antunes gargalhava com toda aquela encenação, Tomás, sem conseguir pensar em uma resposta, fingia uma risada.
Tendo avistado o outro amigo chegando, o Conde começou a correr em sua direção com a cartela da loteria na mão, já gritando o nome do Dr. Carminho que vinha curvado, carregando sua mala e seu aspecto de homem dedicado.

