Mais uma novela…

Vamos aos fatos: um jovem é assassinado na saída de uma boate em Ipanema pelo segurança de um outro jovem. Existem duas versões para o caso: o policial militar acusado, afirma que a arma disparou acidentalmente quando um grupo de jovens avançou para cima dele, mesmo após dois disparos de advertência para o alto. A outra versão, defendida pelos amigos do rapaz assassinado, conta que mesmo após os tiros de advertência, o segurança teria disparado desnecessariamente na direção do jovem em questão. As duas versões são possíveis, nem seria surpresa se houvessem outras hipóteses. Mas para o comentário em questão, não me interessa saber quem foi ou não culpado da morte, por mais lamentável que qualquer das hipóteses seja. O que me atrai neste caso em particular, e em outros bem parecidos, é a maneira como essas pequenas revoltas da sociedade se formam ao redor destes casos, e como estas mobilizações são breves e infantis. Não quero tentar diminuir o sofrimento de ninguém, mas penso que a grande maioria nem mesmo percebe como toda esta comoção coletiva é inócua.
Quem me dera ouvir em alguma das muitas declarações sobre este caso mais recente, pelo menos uma proposta séria de combate à violência. Porque ninguém aproveita este espaço na televisão para declarar algumas das estatísticas tão conhecidas por alguns, e totalmente ignoradas pela grande parte da população? Por que não aproveitar o espaço no Jornal Nacional para lembrar que no Rio de Janeiro se morre mais do que no Iraque e em outros países em conflito? Por que não fazer uma observação sobre o oportunismo do nosso governador, que sempre se mostra revoltado pelas mortes televisionadas, quando ao mesmo tempo ignora todas as outras? Pra que fazer passeatas? Pra que camisas estampadas com a foto do morto? Pra que balões vermelhos na orla da praia? Sejamos frios e um pouco mais sinceros: morre-se muito mais na baixada fluminense do que na zona sul, mas somente as mortes da zona sul comovem a população. Por que isso? Por que ninguém lamenta ou protesta sobre as mortes que ocorrem todas as semanas em Caxias, Nova Iguaçu, e adjacências?
Façam-me o favor e saiam da minha televisão com essas campanhas de paz. Pelo menos até que alguma delas seja séria. Resumindo, sejamos sérios, ou fiquemos quietos. Com isso não quero ser grosso, é apenas bom senso. Se não existe a disposição de protestar seriamente, de encarar os problemas com serenidade e firmeza de caráter, pra que ocupar tanto o tempo das pessoas? Já existem ONG’s inúteis demais, grupos beneficentes demais. Não falta compaixão, falta cidadania e bom senso. E falta muito. Novamente, perde-se tempo discutindo detalhes mórbidos de um determinado caso, enquanto outras pessoas morrem de forma igualmente brutal e desnecessária. Pessoas morrem aos cântaros em todas as partes pobres da cidade, ninguém se importa, ninguém protesta. Às vezes me pergunto, quantos cidadãos de primeiro escalão tem de morrer para comover uma cidade?
Quais os problemas que todos nós conhecemos, e só relembramos nestes momentos de crise? Cito um bem conhecido por todos e sempre repetido: A corrupção policial. Por que ela existe? Algumas boas razões são os salários baixos, a falta de incentivo para se trabalhar seriamente em qualquer uma das forças de segurança pública. Pergunto quem em sã consciência decide trabalhar em alguma das polícias do Rio de Janeiro como primeira escolha pessoal? Somente os mais despreparados, os mais necessitados na maioria dos casos. Quem deixa um filho entrar para a polícia militar ou civil se puder oferecer alguma outra oportunidade à ele? Pouquíssimos. E quem desejaria se dispor a enfrentar alguns dos criminosos mais bem armados do mundo em troca de um salário ridículo e desproporcional? Quem quer trabalhar com equipamento de terceira categoria, ou com uma equipe despreparada? Façam-me o favor, vamos reconhecer que ninguém em sã consciência é policial por que quer, mas sim porque precisa. Falta de vocação prejudica qualquer ofício, seja pedreiro ou médico, por que seria diferente com um policial.
Mas eis que nos aparece um outro sujeito, e diz que o problema na verdade é a educação. E nem precisamos distanciar tanto a maneira de olhar as coisas. Quem quer ser professor hoje em dia? Quem quer passar quatro anos estudando (no mínimo) para ganhar menos de mil reais por mês? Quem quer trabalhar em escolas semi-destruídas, em vizinhanças violentas? Quem quer sentir na pele o desrespeito e o preconceito que as pessoas tem por essa profissão? Eu não quero. E muitos outros também não querem. E assim perde-se gente que quer ser professor desde criança, mas que também gosta de dinheiro, que acha que consegue dar algo melhor para a família.
Mas ainda dá tempo de aparecer outro sujeito dizendo que o problema na verdade é a falta de entretenimento e cultura para as populações mais pobres. Será que alguém se interessa em ler um livro sem ter o que comer? Sabemos que não, e por mais importante que seja a cultura e o discernimento que ela pode proporcionar, também é importante que se possa ter o básico, para depois se preocupar com o supérfluo. Por mais importante que este “supérfluo” seja para o desenvolvimento da mente de um cidadão, não tem como pensar em fazer isso sem primeiro desenvolver o corpo do sujeito. Garantir que ele não morra ainda na infância, seja de fome, ou em um acidente de trabalho (infantil), ou simplesmente pelas mãos de algum outro sujeito, ou ainda por uma mordida de rato ou por alguma doença quase medieval como a cólera ou a dengue. Mas ainda mesmo, ainda existe quem pense que é possível combater estes problemas batendo tambor e dançando capoeira. Que existam oportunidades culturais para todos é importante, mas também é igualmente importante oferecer outras opções além de se tornar um artista ou um jogador de futebol pra quem é mais pobre. Que possam ser pequenos empresários, que possam virar advogados ou médicos competentes (e não apenas formados), como acontece com tantos outros jovens mais privilegiados.
Se alguém quer fazer alguma coisa, que comece pelos problemas conhecidos. E parem de fazer passeata, de abraçar a lagoa, ou de acender vela nas janelas. Que comecem a fazer alguma coisa útil pra variar. Nunca vi alguém fazer passeata pra pedir melhora das condições de trabalho dos policiais. Nunca vi alguém fazer passeata contra a violência, nos lugares onde a violência está mais presente. Nunca vi protestos pra dizer que o secretário de segurança é inapto ou que se discorda da política de segurança pública. Ninguém nem mesmo se interessa em saber nada disso, mas mesmo assim ninguém dispensa fazer alguma reclamação vazia. Assistir uma novela das oito ou acompanhar estes casos de violência aos poucos vai se tornando muito parecido. Todos estes protestos vazios, parecem estar virando mais uma forma de entretenimento mórbido. Pode-se acompanhar o caso Daniel Duque enquanto não começa A Favorita, e quem sabe um dia possamos rever o caso João Hélio da mesma forma que revemos algumas novelas no Vale a Pena Ver de Novo. Eu só sei de uma coisa, se for pra ficar nesse rame-rame politicamente correto, particularmente, eu prefiro ver Pantanal.

Só me resta aplaudir tanta clareza e bom senso em seus comentários.
Fez-me pensar! E tornou obrigatório divulgar o link de seu blog entre meus amigos.
O Brasil do Oba! Oba! continua fazendo sucesso mas ninguém se digna a fazer um protesto sério e pragmático.
Será que viveremos o suficiente para vermos o povo, ainda que pacificamente (o que espero) conseguir mudanças? Não basta ter fé, é preciso agir!
Olá Valter, obrigado pelos elogios! Acho que apesar de tudo devemos nos manter otimistas, pois é possível mudar pacificamente. Basta usarmos nosso senso crítico antes de concordar cegamente com coisas que parecem boas.
Além de simplesmente agir, precisamos agir com consciência e bom senso, pois acredito que este é o ponto que sempre deixamos passar no calor do momento.
Agradeço a visita e o comentário, apareça mais vezes
Abraços!