Unanimidades

Algumas pessoas se surpreendem com coisas óbvias, eu me confesso um destes. Sempre me surpreende como determinadas pessoas tremem antes de insultar ou contrariar algumas coisas. Como se certas opiniões fossem simplesmente sagradas e inatingíveis. Nunca vi alguém dizer que acha Shakespeare chato, mesmo quando de fato acha isso. Mozart nunca é ruim, Bach é sempre divino. Funk carioca é sempre música de gente débil. Cinema novo é sempre genial, Glauber Rocha e a sua imagem são sempre intocáveis. Da mesma forma, o futebol e a televisão são sempre o “ópio do povo”… Sobre esse último caso, também não consigo lembrar de muitas pessoas que admitam em público que gostam de televisão, ainda mais quando se encontram no meio de alguma roda de papo, digamos, mais cabeça. Normalmente o sujeito já começa dizendo o quanto acha a TV horrorosa, e como o tempo gasto com ela poderia ser melhor utilizado lendo ou fazendo qualquer coisa que pareça mais nobre do que acompanhar o BBB ou a novela das 7. Acho que o mais estranho disso é saber que tem vezes que o cara só consegue assistir sozinho ou escondido, tamanho o medo de ser pego em flagrante rindo das Vídeo Cacetadas, ou de alguma piadinha infame contada pelo papagaio esquisitão da Ana Maria Braga. Essas pessoas prefeririam ter de devorar uma travessa de jiló (ou qualquer outro vegetal intragável) do que se divertir em público com algumas dessas imagens tão comuns para a maioria.
Pra entender melhor o que eu estou falando, tente imaginar o Dalai Lama andando pelas ruas. Subitamente ele vira pra você e resolve lhe perguntar do alto de toda aquela sabedoria e de dentro daquele manto laranja, o que você faz com o seu tempo livre. Você diz a verdade? Eu não falava. Eu iria mentir deslavadamente.
Algumas coisas de fato parecem quase impossíveis de se criticar ou admitir em público. Algumas unanimidades oferecem a possibilidade de nos inserir dentro de um grupo, nos retira da condição solitária de minoria. Talvez até satisfaça algum desejo inadimissível para as outras pessoas: como o de ser mais, o de saber mais, e etc. O lugar comum é confortável, e vamos admitir: até tem lá suas vantagens para a boa convivência. Por exemplo, se alguém reafirma a genialidade de alguém como, digamos, Fernando Pessoa, por alguns instantes poderá até parecer alguém mais sensível à belas palavras — o que pode fazer toda a diferença para o sucesso de uma cantada ou de um cartão de dia dos namorados — E normalmente se a outra pessoa para qual se fez essa afirmação tiver uma índole similar, ela provavelmente irá responder entusiasmada algo como: “navegar é preciso; viver não é preciso”… E assim, mesmo quando os dois não tem a menor idéia do que estão falando ou que acabaram de citar o imperador romano Pompeu, não percebem a falta de afinidade. Se dão por satisfeitos de se encontrar em um lugar comum. Na frivolidade aparentemente casual, que nem por isso é algo menor ou maior. Eu mesmo cometo a mesma frivolidade descrevendo essa hipótese como alguém acima de suspeitas… Longe disso, adoro citações, e sou um frívolo confesso.
Como se pode facilmente encontrar em qualquer livro vagabundo de auto-ajuda, se dar o direito à pequenas banalidades ou não levar as coisas tão a sério, provavelmente sejam uns dos ingredientes considerados mais fundamentais para uma convivência sadia com o resto do mundo. Simplificar normalmente encurta as possibilidades, e nem sempre isso é mau. Especialmente no que diz respeito às relações humanas.
O que me irrita na verdade não é essa generalização das possibilidades em nome de uma política de boa vizinhança, mas sim as generalidades de caráter. A maneira como algumas pessoas se deixam afetar pela unanimidade, a ponto de odiar opiniões contrárias às da maioria que mais lhe agrada sem nem mesmo compartilhar dessas opiniões. Como bem disse Nelson Rodrigues: “Na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar os homens se aglomeram. (…) A opinião unânime está a um milímetro do erro, do equívoco, da iniqüidade. (…) Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.” O que atinge as opiniões contrárias a da maioria, na verdade não são amantes de alguma determinada versão, são apenas preguiçosos.
Basta observar o julgamento incondicional que se faz com o casal Nardoni, ou mesmo as reações mesquinhas feitas ao comentário do Marcelo Madureira sobre a mera possibilidade do Glauber Rocha ser um merda. Nessas discussões passionais é bem mais fácil concordar com o resto para não arriscar se mostrar em um molde diferente da maioria. É sempre mais prático se acovardar do que olhar para o mundo através de novas possibilidades. Por isso nunca me admiro que existam no Brasil mais críticos do que escritores, e mais literatos do que leitores comuns. Às vezes as pessoas se empolgam e acabam devoradas pela própria “canastrice”, pela própria futilidade.
Tags: Crônica
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