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O coliseu e a turba

De cima de uma arquibancada improvisada, ou sentados em algumas cadeiras gentilmente instaladas para a ocasião, ou mesmo pendurados em janelas vizinhas. A turba observava. Aguardava sedenta para descobrir o que iria ocorrer depois das cercas de contenção instaladas na frente da delegacia. A turba aguardava para fazer o seu julgamento antecipado dos fatos. Fatos estes eram bem estranhos, nebulosos e até um pouco confusos. Talvez nem fossem fatos de verdade. Mas todos juravam que pareciam fatos sólidos, passíveis de serem medidos em percentuais de apuração pela polícia paulista, que não decepcionou em nenhum momento.

Em alguns locais privilegiados — apesar de bem próximos da turba — os jornalistas aguardavam com uma sede ainda maior por alguma novidade. Esperavam conseguir uma foto talvez mais dramática, ou qualquer nova demonstração de ódio do público. Em suma, algo que vendesse mais jornais. O que é até compreensível: Eles dependem desse tipo de notícia para garantir, o já nem tão barato leite das crianças.

Mas a turba ainda se mantinha lá. Sem nenhum interesse prático, senão o de julgar duas pessoas como culpados ou inocentes de um crime que não afetara suas vidas em nada. Aguardavam para decidir sobre a vida e a morte. Todos transpirando ares da justiça. Todos inconformados com as novas versões grotescas levantadas a todo instante pelos repórteres, todos especulando os motivos para aquele crime não menos grotesco.

O primeiro acusado aparece, sai de um carro escoltado por um sem número de policiais, tenso, assustado como cachorro de comício. A turba não perdoa. Xinga, grita, oferece morras em coro uníssono. Jogam tudo que está ao seu alcance na direção do acusado. Em poucos segundos, uma nuvem de garrafas, latas e toda sorte de lixo voa na direção do acusado. Até me admirei não ter visto ninguém arremessando tomates ou repolhos podres (como se fazia com os condenados a forca dos filmes de época). A turba ignara finalmente consegui mostrar para as lentes dos infinitos jornais qual é o seu parecer sobre toda a selvageria daqueles dois indivíduos. E essa resposta foi dada em um tom de selvageria inevitavelmente similar, talvez até mais gratuito.

Ontem de madrugada, a polícia divulgou as primeiras conclusões relacionadas ao caso. Ao que tudo indica, o casal Nardoni é culpado pelo assassinato da menina Isabella. A turba comemora. Os clamores por justiça aumentaram o tom, e a mulher que sufocou a filha, finalmente chora como uma criança indefesa na frente de todas as câmeras de televisão. Era o que todos esperavam. Todos finalmente vêem o medo na face dos culpados. Os assassinos finalmente estão aterrorizados, ouço uma senhora de idade perguntar em tom irônico, onde estaria aquele olhar frio que os dois tinham. Ela me pareceu bastante satisfeita.

Uma multidão enfurecida tem mais poder do que alguns exércitos, e em tempos globalizados como os nossos basta somar alguns editoriais enfurecidos à algumas teorias com ou sem fundamento, para rapidamente multiplicar toda essa selvageria pelo ruído emitido pela boa e velha turba ignara. Talvez alguém possa estranhar ler um texto como este criticando o pré-julgamento do casal depois das suas culpas terem sido devidamente comprovadas. Talvez até fique ofendido. Enquanto isso, o coliseu parece que finalmente vai esvaziar. A multidão está vingada, todos parecem felizes e dispostos a voltar a sua rotina.

Mesmo assim, ainda acho estranho como essa necessidade primitiva de usar violência para punir violência sempre prevalece. Acho ainda mais irônico observar como a única maneira encontrada pelas pessoas de justificar a própria selvageria seja se esconder no anonimato de uma multidão raivosa. Ainda tem gente que se sente melhor com tudo isso.

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  1. Novembro 11, 2009 às 9:45 pm | #1

    eu achei essa istoria muito emportante!!!
    legal!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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